Aborto, Eugenia e Psicologia: uma visão fragmentada do ser humano

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Por Fábio Magalhães

Com estarrecimento que grande parte da população brasileira reagiu ao caso da menina de 10 anos, grávida por meio de abuso sexual perpetrado por um membro da família dela. Como se não fosse suficiente a bizarrice do narrado até aqui, observou-se na sequência que o bebê, de aproximadamente 6 meses, sofreria um aborto provocado.

A comoção social, ainda que relevante, parece não compreender a devida proporção desses eventos catastróficos. Creio que o imaginário da população brasileira carece elementos importantes, pois uma questão objetiva como o aborto é discutida na superficialidade do afeto pela mera reprodução de conceitos e/ou valores que não estão deveras internalizados. Dito de outro modo, muita gente se manifesta a favor ou contra como meros papagaios, sem entender a profundidade e a complexidade do fenômeno.

É mister ressaltar que, para a lei brasileira, o aborto é crime em qualquer circunstância. O que existe são situações em que os juízes podem determinar o excludente de punibilidade, que é nada mais que a pessoa não ser punida por cometer o crime. Ora, depreendendo que há dois tipos de aborto, o espontâneo e o provocado, destaca-se que o que interessa discutir aqui é o aborto provocado.

Há um famoso vídeo que circula na internet em que o jogo da ignorância e hipocrisia se escancara. Um rapaz recolhe assinaturas em favor da proteção dos ovos de águia. O entrevistador ainda ressalta: “as águias têm direito de nascer”. Os defensores da natureza não se demoram em defender a causa. Contudo, a brincadeira fica interessante quando o mesmo entrevistador oferece outra petição na qual se pede apoio contra o aborto de bebês humanos. As pessoas que defendiam as águias se negaram a assinar em prol dos seres da mesma espécie. Para estes ecorromânticos, os ovos de águia não devem ser destruídos, mas o feto é um amontoado de células que não carrega vida, nem espírito humano. Diante da cena grotesca, a pergunta que fica é: qual o motivo profundo dessa total falta de proporção?

Equivocam-se os que pensam que se tratam de opiniões pessoais construídas na jornada da vida através de reflexão, estudo e orientação adequada. Certas opiniões públicas são fabricadas por grupos poderosos que desejam cristalizar certas ideias e mantê-las circulando no imaginário da sociedade. Como não citar o sobrinho do criador da psicanálise e um dos maiores propagandistas da história. Edward Bernays em seu livro “Crystallizing Public Opinion” (Cristalizando a Opinião Pública – tradução livre) demonstra os mecanismos que aprendeu com tio Sigmund Freud, e aplicou de modo amplo, para utilizar a propaganda como forma de movimentar e fabricar a opinião pública. O psicólogo John B. Watson é parceiro de Bernays nessa famigerada tarefa.

O fundador do Behaviorismo (Comportamentalismo) também era mestre em utilizar os conhecimentos adquiridos na investigação psicológica para transformar ideias, muitas vezes artificiais, em preceitos morais inabaláveis. Basicamente, o artifício psicológico usado na propaganda e na fabricação de narrativas é associar um produto a um valor, uma ideia a um símbolo. Por exemplo, qual a relação intrínseca entre a cerveja e uma mulher de biquíni bronzeada? O que fumar um cigarro tem a ver com empowerment, coragem ou nobreza? Ora, grosso modo, absolutamente nada! Não obstante, os propagandistas aprenderam que criar narrativas era um modo eficaz de manipular as ideias das pessoas que pouco se dedicam ao exercício da reflexão.

Voltemos ao nosso assunto principal. Pessoas, muitas vezes, defendem o aborto provocado por mera repetição de um conteúdo martelado à exaustão pela mídia, pelas universidades, pela classe falante em geral. Na verdade, a questão do aborto está intimamente ligada ao que chamarei de triângulo obscuro do controle político e populacional. Curiosamente essa história é bem mais antiga do que se pode imaginar e, como demonstra o brilhante escritor Eugene Michael Jones em seu livro “Libido Dominandi – liberdade sexual e controle político”, a questão que deu suporte ao aborto remonta à Revolução Francesa e ao período iluminista.

Esse triângulo nada mais é que a corrente de forças que se retroalimentam entre liberdade sexual, contracepção e aborto. Sumarizando nos limites possíveis, a liberdade sexual, tão almejada e vangloriada pelos iluministas, tem como uma de suas consequências, a gravidez indesejada. Essa matemática só poderia fechar ou com a contracepção, ou com o aborto indiscriminado, e melhor com o trio a pleno vapor. Assim, a lascívia exacerbada dos iluministas tardios contemporâneos se sente referendada para se livrar das correntes da repressão sexual que aprisiona a alma dos seres humanos bons, mas que foram corrompidos pela sociedade.

Não demorou muito para que uma elite poderosa percebesse os elementos eugenistas desse triângulo obscuro e pusessem em marcha um plano para eliminar certos grupos sociais por eles indesejados. Eis que surge a detestável Planned Parenthood que se apresenta como um órgão de planejamento familiar, mas que é, na verdade, um aparato para garantir que certas etnias não se reproduzam.

Vejamos bem, qualquer pessoa, por mais inocente, deve saber que uma economia se faz de pessoas ativas e um exército se forma de um número relevante de pessoas fortes e preparadas. Ora, as famílias são a principal fonte de circulação de capital e de força bélica. Se reduzirmos esse contingente, retiramos o poder econômico e a possibilidade de autoproteção de um grupo. Eureka! Eis, de forma simplificada e resumida, a calculadora para dominar o mundo.

Na época de criação, a Planned Parenthood demonstrava interesse em dois grupos étnicos particulares: católicos e negros norte-americanos. Os primeiros porque, pautados nos valores cristãos que fortalecem a família, se negavam a adotar o modelo neomalthusiano de diminuição populacional que tinha como pilar os métodos contraceptivos. Os últimos porque no referido tempo eles, devido a inúmeros fatores ligados à pobreza e a vulnerabilidade social, se reproduziam em números proeminentes.

Traduzindo em outras palavras, a aborto provocado, além do conteúdo grotesco e assassino da prática material, está entranhado em uma agenda eugenista abjeta que pretende determinar quais são os grupos étnicos que devem perdurar no planeta.

Mirando pelo prisma da Psicologia

Como psicólogo, não posso me furtar de abordar o tema desde o enfoque específico do meu fazer profissional, até mesmo porque a Psicologia no Brasil, através das carreiras universitárias e dos conselhos de classe, se tornou um polo de atração da propaganda pró-aborto. A título de preâmbulo, preciso dizer em alto em bom som, mesmo que já estivesse evidente: sou radicalmente contra o aborto provocado em qualquer circunstância.

Parto do pressuposto que o ser humano é composto de corpo-mente-espírito. Os outros animais compartilham o corpo e a mente conosco, mas o espírito é a diferença que a nossa espécie apresenta. Ora, se o elemento transcendente é o formador da particularidade do ser humano, como pode haver uma Psicologia materialista? Se somos dotados de criatividade, imaginação, pensamentos lógicos e reflexivos, unidade de consciência etc., que são fatores imateriais que, como dizia o inesquecível ateniense Sócrates, nos aproximam da divindade, do transcendente; como podem haver psicólogos que entendem o feto como um amontoado de células?

Faz-se mister ir além, pois o código de ética da Psicologia no Brasil tipifica em seu primeiro princípio fundamental:

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Longe de ser defensor da pauta globalista da ONU, é preciso apontar, para obter coerência argumentativa, que a declaração supramencionada descreve em seu artigo terceiro:

Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Se a ética do psicólogo é vinculada ao inafastável direito à vida, como podem haver psicólogos abortistas? Um profissional que se declarar publicamente contra a vida, isto é, a favor do aborto, deveria ser punido por ferir o código que norteia a atuação?

Ainda se pode aprofundar mais sobre o código de ética do psicólogo que explicitamente demarca:

Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:

a) Praticar ou ser conivente com quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão.

Poderíamos dizer, então, que ser conivente a um ato que culmine na morte de um de bebê de quase seis meses, como no caso que é objeto dessa narrativa, é vedado ao psicólogo? Na minha concepção, sim. Não pretendo acreditar que o relativismo moral dos conselhos e de muitos conselheiros de classes da Psicologia, sobretudo pelo aparelhamento esquerdista, pense da mesma maneira que eu, e posso até cogitar que desejem, provavelmente sem sucesso, cassar minha carteira profissional por dar voz a uma forma de encarar a realidade que rejeitam com fervor intolerante.

À parte dos fatores institucionais, é assaz importante comentar sobre um assunto que é levantado minoritariamente, mas que tem pertinência elevada: os impactos negativos físicos e, sobretudo, psicológicos consequentes do aborto. Os defensores dessa prática assassina repetem com veemência que a criança advinda de uma gravidez indesejada ou de uma prática violenta e criminosa tende a sofrer de rejeição, abandono, estigmas etc. (curioso dizer, antes de tudo, que a solução nunca é sugerida pela sexualidade controlada para os citados, matar o bebê é sempre mais plausível).

Ora, essa descrição apresenta alguma verdade, porém, componentes parciais da realidade. O aspecto que revela o outro lado da moeda, e que os relativistas morais insistem em esconder, é que um bebê adotado por uma família adequada, a partir de uma entrega espontânea, tende a não sofrer nenhum impacto psicológico negativo já que a rejeição inicial será convertida em amor condicional propiciado pelo casal que adotou.

Entendendo, portanto, de forma sumária, que existem mecanismos institucionais que podem dirimir os efeitos negativos que serão sofridos pelas crianças advindas de gravidez indesejada, podemos passar a refletir sobre o que acontece com as mulheres que passam pelo aborto.

Você, estimado leitor, já se perguntou o acontece na cabeça e no corpo de uma mulher que fez um aborto? Desde 1940 existem estudos que levantam os impactos físicos e psicológicos da dessa prática. Entre os efeitos físicos posso citar o que considero mais grave: o câncer de mama. A ideia de que o aborto interrompe apenas a gravidez em si é equivocada. Os estudos demonstraram que a mama da mulher fica semitransformada, o que tende a gerar o câncer. Indo mais longe, a mulher que fez um aborto tem 44% mais chances de ter câncer de mama, dois abortos 76% e até 89% caso três abortos sejam provocados.

Para os que argumentam que, aos 10 anos, a menina corria risco de morrer ao dar à luz, lhes envio a pergunta: o que é mais natural e fluido, chegar ao fim de uma gravidez que o próprio organismo foi capaz de gerar ou utilizar uma técnica invasiva que alcance a morte do bebê?

Não é necessário ser um grande pesquisador para entender como funciona a relação entre aborto e depressão na mulher. Basta ir ao Google Acadêmico e digitar as duas palavras chaves que vão abundar respostas que correlacionam os dois fenômenos. Vou citar apenas um e deixo o resto por vossa conta. A revista brasileira de enfermagem lançou o artigo: Fatores protetores e de risco para depressão da mulher após o aborto (Mariutti e Furegato,2010). Sem a intenção de demonstrar exaustivamente o meu ponto, o estudo revela que:

As mulheres sofrem de Síndrome Pós-Aborto, experimentando o “luto incluso”, uma dor que na maioria das vezes é negada mesmo quando uma morte real ocorreu. Por causa desta negação, o luto “não pode” praticamente existir. Mesmo assim, a dor da perda ainda está presente e muitas têm “flashbacks” da experiência do aborto e inclusive pesadelos sobre o bebê e até mesmo sofrimento no aniversário da morte

Além da gravíssima síndrome que pode levar a alucinações e vivências subjetivas aterradoras, o mesmo artigo levanta uma lista repleta, mas não completa, de efeitos psicológicos mais comuns:

Os efeitos psicológicos mais comuns da situação de aborto são sentimentos de culpa, impulsos suicidas, pesar/abandono, perda da fé, baixa estima pessoal, preocupação com a morte, hostilidade e raiva, desespero/desamparo, desejo de lembrar a data de nascimento, alto interesse em bebês, frustração do instinto maternal, mágoa e sentimentos ruins em relação às pessoas ligadas a situação, desejo de terminar o relacionamento com o parceiro, perda de interesse sexual, frigidez, incapacidade de se perdoar, nervosismos, pesadelos, tonturas, tremores, sentimento de estar sendo explorada, dentre outros 

O evento do abortamento é tão traumático que a vivência, tanto nos casos de aborto espontâneo como no provocado é desastrosa:

O aborto, no caso de ser provocado, causa ansiedade, depressão, culpa e vergonha por até cinco anos. Os abortos naturais causam depressão e ansiedade apenas durante os seis primeiros meses depois da perda do bebê, enquanto que os abortos provocados têm um efeito mais negativo psicologicamente e mais duradouro.

Saindo da esfera científica e flertando novamente com o mainstream, devo citar o bom documentário que narra a vida da ativista política Sara Winter, denominado “A vida de Sara”. Goste mais ou menos desta personagem do cenário atual, no filme citado ela narra a situação em que cometeu o aborto. Quando vem à mente a imagem do feto que ela depositou na privada após tomar o famigerado Cytotec, a sensação de repugnância é inalienável. Considero o depoimento dela importante para elucidar a real prática do aborto e todas as consequências esperadas.

Para encerrar, devo reforçar a questão da adoção e da entrega espontânea do bebê. No Brasil, a característica mais prevalente no perfil dos pretendentes à adoção é o desejo de adotar um bebê de 0 a 2 anos. Isto é, milhares de pessoas enfrentam a burocracia e a lentidão do Judiciário, bem como de outros órgãos públicos relacionados, para adotar uma criança.

Milhares de casais e pessoas solteiras sonham e batalham por um bebê como o que lhe foi ceifada a vida no caso em questão. Assevero com veemência: não há necessidade de que mais mortes como a trágica que assolou nossas vidas nos últimos dias aconteçam. A lei protege a entrega espontânea. A adoção é uma bela solução que garante não só a vida, mas uma jornada humana repleta de amor e de convivência familiar. Sejamos a manifestação da obra divina, aborto jamais!


JONES. E.M. Libido Dominandi: liberdade sexual e controle político. Campinas: Vide Editorial, 2019. Trad: Murilo Resende Ferreira.

Tradutores de Direita: Um ovo de águia vale mais que um bebê? Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=TTpwQR-cK8A

A vida de Sara. Produzido por Matheus Bazzo e dirigido por Julia Sondermann, 2020.

MARIUTTI, M. G.  FUREGATO, A. R.F. Fatores protetores e de risco para depressão da mulher após o aborto. Rev. bras. enferm. [online]. 2010, vol.63, n.2, pp.183-189. ISSN 0034-7167.  https://doi.org/10.1590/S0034-71672010000200003.

NOMURA. R.M.Y et al. Depressão, aspectos emocionais e sociais na vivência do aborto: comparação entre duas capitais Brasileiras. Rev. Assoc. Med. Bras. vol.57 no. 6 São Paulo Nov./Dez. 2011.

Conselho Federal de Psicologia. Código de ética profissional do psicólogo. Brasília, 2005.

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