O uso da linguagem na guerra cultural

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Trecho do livro 1984 de George Orwell, onde nasceu o termo "novilíngua".

Um dos principais instrumentos da revolução política inter(multi)cultural em curso no mundo é a linguagem. Por meio dela, palavras, expressões e termos são criados, mudados, ressignificados e popularizados de acordo com os propósitos revolucionários. Os adversários desprevenidos são atraídos para os ringues discursivos e semânticos, lugares de validação de novos conceitos e sentidos para as ideias, as coisas e as leis.

Contribuem para isto, além da imprensa, a educação, a diplomacia, a cultura, a publicidade e o judiciário. Eles funcionam como campos de operacionalização para essa engenharia discursiva que procura alcançar e convencer o grosso da sociedade.

O conservadorismo cristão, principal alvo dessa manipulação da linguagem, em algumas situações, infelizmente, equivoca-se na forma e no conteúdo para enfrentá-la. Antes, invariável e desatentamente, contribui para a validação da novilíngua ao assimilá-la em seu vocabulário.

A palavra “homofobia”, nascida e conceituada no âmbito da Ideologia de Gênero americana dos anos 70 como estratégia de ataque e defesa para o grupo, é um exemplo. Deu tão certo que o sistema jurídico de vários países, inclusive o nosso, já considera o conceito como tipificação criminal. Mais certo ainda porque a sociedade, com baixa discordância, já assimila o neologismo e o significado dado. Tanto é que o chavão: “Eu não sou homofóbico!” comum em justificativa conservadora, revela desconhecimento da intencionalidade censora e artificialidade do termo.

As atenções políticas estão voltadas para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que discute a criação da figura jurídica de crime eleitoral para o abuso do poder religioso. É possível que a formação desse conceito tenha tido início em janeiro de 2012, a partir de um discurso do então secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, no Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre. Na ocasião, preocupado com o crescimento do conservadorismo, o que frustrava os planos socialistas, defendeu o uso pelo Governo de medidas que dificultassem os meios de comunicação e o crescimento político evangélico.

Muito embora Carvalho tenha se desculpado em resposta à cobrança dos parlamentares evangélicos, o alerta dele foi debatido e absorvido pela maioria dos programas políticos esquerdistas. O passo seguinte deu-se com a admissão, desenvolvimento, maturação e difusão do tema pela academia universitária. Agora, com o status de tese doutrinária, mesmo que arranjada, é possível que se aloje no judiciário com o objetivo de deslegitimar mandatos cristãos evangélicos e católicos a partir das próximas eleições.

Uma preocupação que se justifica porque, além de prévia e ponto de partida para as eleições de 2022, o próximo pleito eleitoral servirá para indicar as futuras posições do conservadorismo e do socialismo, estranhamente chamado de progressismo, no cenário político brasileiro.

No entanto, para que o arranjo linguístico e jurídico se materialize ou não, dependerá, em boa medida, da força política de resistência e da estratégia argumentativa de defesa que servirão ao conservadorismo cristão. Ainda mais quando precisa lidar com oposição no próprio campo religioso procedente de setores cristãos à esquerda tais como Teologia da Libertação, Teologia da Missão Integral, CNBB e Frente Evangélica Progressista.

Porém não é somente isto: a publicidade e a propaganda têm feito a revolução dos costumes avançar na cultura de maneira intencional e calculada. Inclusive, sabendo prever e tirar proveito de determinadas indignações e protestos para alimentar polêmicas, aumentar a visibilidade das suas pautas e alavancar audiências.

Finalmente, nessa guerra política e cultural contra si, o conservadorismo cristão deveria agir de maneira coordenada, técnica e acadêmica, com menos improviso e voluntarismo. Para isto, seriam necessários mais observatórios, centros e redes de inteligência política, investimento em formação de jovens talentos e manutenção dos seus intelectuais. Porque o inimigo enfrentado faz muito bem exatamente estas coisas. Além do mais, mostra maior eficiência na estruturação e financiamento de projetos políticos, culturais e educacionais que se impõem na vida da sociedade.

Que os filhos da luz ajam com sabedoria, capacidade estratégica e prudência, de maneira a suplantarem os filhos deste mundo.

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