O “X” da questão e os ecos na língua portuguesa

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Cartilha de leituras infantis de Francisco Vianna, com 1ª edição em 1895 (Foto: Pedagogia ao pé da letra).

Caro leitor, não sou versado em língua portuguesa, mas resolvi dar uns pitacos em algo que venho observando ultimamente no meio educacional e jornalístico.

Tenho visto palestrantes e debatedores abrindo uma palestra ou debate com uma saudação de “boa noite a todas e a todos”, por exemplo, certamente na intenção de chamar atenção para um suposto caráter sexista do idioma português. Acredito que existam muitos inocentes submetidos ao condicionamento do politicamente correto onde até a língua portuguesa serve de instrumento para empreender a tal luta de classes em tempos modernos. Quando alguém dá “boa noite” diante de uma plateia precisa complementar com “a todas e a todos”? Existe “boa noite” que não seja direcionado a todas e a todos? Será que em sã consciência alguém acha que dizer apenas “boa noite” queira o emissor se dirigir só aos homens? O fato é que o complemento “a todas e a todos” esconde a função desagregadora ao invocar que o “boa noite” também é para a mulheres, como se um simples “boa noite” fosse historicamente direcionado tão somente aos homens.

Mas, o foco do tema em epígrafe é o “X” que ganhou status de incógnita fora da matemática. De 2016 para cá também tenho percebido que há um movimento revolucionário do “X” e do caractere “@” (arroba) para conferir às palavras um gênero indefinido. Em outros termos, trata-se de um movimento não binário para lidar com o masculino e o feminino na língua portuguesa. No lugar das vogais “o” e “a” coloca-se a incógnita “X” ou o símbolo “@” (arroba). Tais vogais são “acusadas” de identificarem os gêneros masculino e feminino, respectivamente.

Quando se propõe colocar “X” no lugar do “a” e do “o” a fim de se construir palavras neutras temos uma situação de palavras impronunciáveis. Como é que se lê “todxs xs meninxs são bonitxs”?

Para se fugir do problema das palavras não pronunciáveis, a outra solução que se propõe para acabar com o suposto sexismo da língua portuguesa é evitar os pronomes flexionados. Por exemplo: não se diria mais “boa noite a todos”, mas “boa noite a todas as pessoas”. Ou então simplesmente se repete os dois gêneros em todas as frases dizendo “boa noite a todas e a todos”. Imagine caro leitor, se para cada palavra do gênero masculino acrescentássemos a correspondente forma feminina. Nossa fala ficaria repleta de ecos. Por exemplo, veja a frase seguinte:

Os vinte amigos portadores de deficiências físicas serão reunidos para receberem dos professores os diplomas de graduação, os quais serão fotografados e homenageados.

Mas se você é uma inocente preocupada ou um inocente preocupado com a ditadura do politicamente correto a sua frase ficaria assim:

As portadoras e os portadores de deficiências físicas, no total de vinte amigas e amigos, serão reunidas e reunidos para receberem das professoras e dos professores os diplomas de graduação, as quais e os quais serão fotografadas e fotografados e homenageadas e homenageados.

Imagine um livro inteiro escrito desta forma! Será que as pessoas estão ficando paranoicas?

É surreal acusar a língua portuguesa de ser um idioma sexista e culpá-la por ser um elemento perpetuador do preconceito contra a mulher. É inacreditável que existam tantos inocentes de nível superior que reproduzem os ecos cavernosos produzidos por manipuladores da linguagem.

O preconceito é uma situação criada com a finalidade de se atribuir novos significados a um conjunto de palavras como forma de designar conceitos pejorativos às mulheres ou a um conjunto de pessoas. Por exemplo: a palavra “galinha” tem significado original que dispensa comentários. Mas em outros contextos, conforme o regionalismo, quando falamos “aquele rapaz é um galinha” expressamos uma referência a um homem mulherengo cujo significado soa como pejorativo, cujo impacto é menor do que quando dizemos que uma determinada mulher é “uma galinha”. Todos entendem como forma pejorativa. Temos aqui três significados para a palavra “galinha”.

Após a proibição do tráfico negreiro em 1850, a palavra “galinha” significava escravo que chegava ao Brasil clandestinamente escondido debaixo dos engradados de galinhas d’Angola. A senha entre os comerciantes da região de Pernambuco era: “tem galinha nova no porto”. Daí o conhecido balneário Porto de Galinhas que herdou o nome deste episódio. A despeito da origem nada existe de pejorativo querer passar um feriadão naquele lugar. E ainda temos a expressão “galinha morta”, referindo-se a uma mercadoria muito barata.

O fato de um grupo social usar um termo totalmente alheio ao seu significado original pode também contribuir para validar outros significados, inclusive pejorativos. Usos de palavras cujo significado original muda totalmente quando inseridas dentro de expressões nada tem a ver com o artificialismo sexista que se pretende atribuir à língua portuguesa.

Quem atribui natureza sexista a uma língua são as pessoas que ecoam construções ideológicas, as quais são perpetradas com exclusiva intenção de turbinar mais uma espécie de luta de classes escondendo-se por trás de um suposto combate à discriminação de gênero. Sem bandeiras identitárias associadas aos inimigos imaginários não há rivalidades. E as lutas só se justificam se houver ambiente hostil. Estimular ressentimentos e explorar de forma exaustiva e negativamente os defeitos de uma sociedade nada tem a ver com a construção de direitos, mas sim com um projeto de poder em busca de um novo totalitarismo. E o idioma torna-se um dos instrumentos deste intento.

O X da questão

Pares do tipo menino/menina representam minoria na língua portuguesa. O que é comum são os substantivos terminados em “o” e “a” que não têm correlação de sexo, pois não designam pessoas. Por exemplo, “o copo” não tem como oposto “a copa”, são coisas inanimadas para usos totalmente diferentes. O que dizer, então, dos substantivos terminados na vogal “e”? Nos substantivos “poste” e “ponte”, masculino e feminino, respectivamente, não cabem qualquer associação entre a vogal “e” e um suposto gênero neutro ou marcador na língua. Não existem as formas “a poste” e nem “o ponte”.

O fato de a língua portuguesa ter o masculino como gênero não marcado não significa uma relação de poder do homem sobre a mulher. Atribuir influência da língua na construção de preconceitos contra as mulheres significa desconsiderar as origens históricas de uma língua. Uma língua se constrói ao longo de séculos, e não numa reunião de homens num passado bem remoto inventando propositadamente palavras para darem conotações depreciativas às mulheres. Acreditar neste enredo fictício conduz a crença de que aqueles “conspiradores linguísticos” falharam ao atribuir ao gênero feminino a função de marcador. Afinal, marcar não significa poder? Marcar território (dominar espaço físico, animais e bandidos fazem isto), marcar presença (se fazer presente num evento e participar ativamente) e por aí vai.

Os avanços significativos quanto às igualdades factíveis entre homens e mulheres não guarda qualquer relação com a necessidade de se alterar estruturas gramaticais como forma de contribuir para atenuar violência contra mulheres. Não se pode atribuir à língua cotas de responsabilidades misóginas.

A tentativa de solução que inventaram para neutralizar uma suposta preponderância do gênero masculino na língua portuguesa, acusando-a de sexista, é surreal. Na verdade, acho que a intenção dos criadores desta solução tem a ver com a abertura de mais um canal para fomentar discussões sobre “Problemas de Gênero” (livro de Judith Butler). É preciso manter o assunto sempre em pauta para se cooptar novos inocentes que acusarão de sexistas quem for contra este surrealismo. Para os manipuladores a finalidade é criar uma nova linguagem e não faltarão inocentes para ecoarem um novo modo de falar. Nem mesmo as coisas inanimadas escapam das narrativas ideológicas!

Gênero não é sexo

É tão direcionada tal proposta que passo a explorar agora situações onde o gênero da palavra nada tem a ver com o sexo numa referência homem/mulher.

Veja as palavras que não terminam nas vogais “a” ou “o”. Por exemplo, “parede”, “luz”, “celular”, “baú” e por aí vai. Duas femininas e duas masculinas. Onde se colocaria o X para neutralizar o gênero? Ou será que a solução contra o suposto caráter sexista da língua portuguesa refere-se apenas às palavras que identificam o sexo da pessoa?

O que dizer das seguintes palavras: sistema, poema, teorema, fonema, axioma e sintoma? São todas do gênero masculino, mas terminam com a vogal “a”. Não se diz “a poema”, “a sistema” ou “a teorema”, e assim por diante, justamente porque não existe gênero feminino para tais palavras. Há milhares de palavras que só têm uma classificação: ou é masculina ou é feminina.

Até as palavras “feminino” e “masculino” são flexionadas! Por exemplo: “Qual será a ‘moda masculina’ para o próximo verão?” Notem que utilizei a palavra “masculina” para concordar com a palavra “moda”. Quando dizemos que os sapatos femininos fazem mais sucesso do que os masculinos, alguém duvida que a palavra “sapato” seja masculina? O termo “femininos” (flexionado no masculino) foi utilizado aqui para concordar com “sapatos”.

Quando citamos as palavras “homem”, “rapaz”, “gato”, “cão”, “livro” e “banco”, alguém duvida que essas palavras sejam masculinas? Também usei “masculinas” para concordar com o gênero do termo “palavra”, que é feminino.

Descomplicando: “feminino” é uma palavra do gênero masculino, e “feminina” é um termo do gênero feminino. Assim como “masculina” é uma palavra do gênero feminino e “masculino” é uma palavra do gênero masculino. Compliquei, não é? Mas até o final da leitura ficará tudo descomplicado. Complicado mesmo é falar “todxs xs meninxs são bonitxs”. É muito “X” fazendo chiado. Chiado ou xiado? Ch ou X? Será que a próxima “luta de classes” será entre o “ch” e o “x”?

O problema é com o gênero da palavra em si ou somente quando o gênero da palavra se refere aos seres humanos? Por exemplo: “todxs xs meninxs são bonitxs” vale colocar o “x”, e não valeria na expressão “todos os lagartos são feios”? Se o “x” não vale para animais ou coisas, então minha tese está correta: o suposto sexismo do idioma português é apenas mais um instrumento para confrontar homem versus mulher.

No intuito de eliminar suposto sexismo da língua o símbolo “@” também tem sido utilizado até mesmo em palavras cujo gênero já é naturalmente determinado pela concordância, como por exemplo, na expressão “pessoas roubad@s”. Neste caso o gênero “roubad@s” é determinado pela concordância com a palavra “pessoa” como ocorre em “indivíduos roubados”. Embora os falantes nem sempre consigam realizar a concordância é fato que nenhum deles diria “pessoas agredidos”.

Os defensores de um tal sexismo da língua portuguesa e, em particular, desse movimento do “X”, alegam que a distinção de gênero na língua portuguesa tem um caráter sexista e reproduz preconceitos de gênero ao desqualificar um dos pares. Mas, as palavras “todos” e “eles” são apregoados como referências apenas aos homens? Até você deve estar pensando: realmente isto é verdade. E aí você passa a enxergar a necessidade de se colocar “X” no lugar das consoantes “a” e “o” como forma de demonstrar neutralidade ou simplesmente você passa a produzir ecos na fala como se estivesse dentro de uma caverna. Lembras do “bom dia a todas e a todos?”

Não te disseram, porém, que são pouquíssimas as palavras que estão atreladas somente à determinação do sexo de uma pessoa. Coisas não têm sexo! Desculpe o desenho. As palavras que representam as coisas se enquadram, necessariamente, numa ou noutra classificação de gênero.

Marcação de gênero

No nosso idioma há o que os linguistas chamam de marcação. Em regra, o plural é marcado pelo “S”, ao passo que o singular se identifica pela ausência do “S”. Já a marca do feminino é o “A” colocado no final da palavra sempre que for possível fazer sua correlação com o sexo oposto. Por exemplo: sabemos que “aluna, mestra e professora” se referem ao sexo feminino, pois nestas palavras ocorre a marcação, e a marcação significa exclusão. Ao contrário, sabemos que “aluno, mestre e professor” são termos masculinos porque essas palavras não são marcadas. Por exemplo: “os professores precisam de mais qualificação”. Significa que TODOS os professores (homens, mulheres, homossexuais etc.) precisam de mais qualificação. Mas se dissermos que “todas as professoras precisam se qualificar”, significa que estão excluídos os homens ou qualquer pessoa que não se identifica nem como homem ou mulher.

Quando queremos ser genéricos, ou seja, sem identificação de número e sem marcação de gênero, podemos dizer: “O Brasileiro trabalha mais do que o Alemão” (entenda-se: “todos”, independente do sexo e da quantidade). E é justamente dessa forma que o dicionário registra os substantivos. Você achará somente a palavra “brasileiro” no dicionário. Não encontrará as palavras “brasileira”, “brasileiros” e nem “brasileiras”. Acho que você aprendeu na alfabetização como marcar a palavra pelo número e gênero.

Ironicamente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que o aumento nos proventos será estendido aos aposentados, você acha que alguma mulher se sentirá excluída? Mas se o aumento for prometido às aposentadas, significa dizer que os homens estão de fora. Eles precisarão de um movimento revolucionário masculino para chamar atenção!

Imagine a seguinte notícia de jornal: “Maria do Carmo foi o quinto juiz suspenso este mês”. Você diria que o jornal foi preconceituoso? Se Maria do Carmo é mulher, o jornal não poderia usar a palavra “juíza”? Se o jornal usou o termo “juiz” significa que as suspensões anteriores foram de homens e mulheres. O uso do termo “juiz” engloba homens e mulheres. Se o jornal tivesse usado “juíza” todos saberíamos que só as mulheres foram suspensas. Isto é marcação. É a estrutura da língua. “Juiz” é o nome do cargo. Nome de coisas não tem sexo, mas tem gênero.

O fato é que o gênero masculino coincide com o gênero não marcado na língua portuguesa. Quando dizemos “todos chegaram” referimo-nos às pessoas, não reservamos a palavra “todos” somente para homens, mas para qualquer grupo constituído por homens, mulheres e homossexuais ou qualquer outro enquadramento que cada qual se enxergue. Mas quando dizemos “todos os livros” ou “todas as canetas”, obviamente que não estamos nos referindo ao gênero com a conotação de sexo, mas apenas classificando as palavras “livros” e “canetas” como masculina e feminina, respectivamente. Estamos apenas flexionando os substantivos. Só para lembrar, os substantivos são flexionados em gênero, número e grau. Gênero, refere-se ao masculino e feminino; número, ao plural e singular; e grau, ao diminutivo e aumentativo.

Até mesmo os termos utilizados para classificar as variedades de sexos precisam ser flexionados pelo gênero, ainda que se utilize o artigo definido para tal. Por exemplo, fala-se “o transexual” ou “a transexual”? Acho que não adianta apelar para a estrutura da língua neste quesito. Em tempos de narrativas onde até a língua portuguesa tornou-se opressora, cada qual escolherá a classificação mais conveniente.

O gênero da palavra “todos” não é somente gênero masculino é também um gênero neutro. Todas as palavras masculinas são do gênero neutro. Elas se prestam para qualquer ocasião, exceto quando houver somente a presença feminina. Então, quando dizemos “elas chegaram”, entendemos que somente mulheres chegaram ou quem se identifica como tal. Desta frase estão excluídos os homens e qualquer coisa que denote o gênero masculino. Mas quando dizemos “eles chegaram”, entendemos que podem ter chegado homens, mulheres e homossexuais e até os cachorros e as cachorras, os gatos e as gatas que, porventura, estiverem acompanhando o grupo de humanos. Notem que o gênero masculino na língua portuguesa não discrimina nem os animais. O que faz a marcação, repito, é o gênero feminino. Onde ele estiver não existirão homens, bodes, leões, gatos etc. Mas quem discrimina mesmo são os histéricos.

Ainda argumentando, se dissermos que “todos nascem com igualdade de direitos”, estamos incluindo homens, mulheres e qualquer pessoa que não se identifica como heterossexual. Entretanto, não se incluiriam os homens se a frase fosse “todas nascem com igualdade de direitos”.

Qualquer estudioso mediano de gramática sabe que gênero é uma categoria inseparável do substantivo. Ou seja, todos os substantivos da língua portuguesa têm gênero. Assim, o gênero é uma categoria essencialmente linguística e não há uma correlação absoluta com a ideia de sexo. Ou seja, na maioria dos casos não há correspondência entre gênero e sexo.

Consideremos os substantivos: menino, menina, criança, pessoa. “Menino” e “menina” são referências aos seres humanos do sexo masculino e feminino, respectivamente. Neste caso a flexão do gênero coincide com o sexo. Já “criança” e “pessoa” são substantivos do gênero feminino que designam seres humanos tanto do sexo masculino quanto do feminino ou qualquer outro enquadramento que se queira apresentar.

Na seara dos animais, “jacaré” e “tubarão”, por exemplo, são substantivos que possuem apenas um gênero gramatical que determinará animais de ambos os sexos. É a inserção dos termos “fêmea” ou “macho” (formas mais usuais) que determinarão o sexo do animal. Substantivos do tipo “jacaré” e “águia”, por exemplo, são denominados substantivos epicenos, pois só servem para identificar nomes de animais com apenas um gênero gramatical.

Há também uma série de substantivos na língua portuguesa que mudam de significado quando mudam de gênero sem mudar a grafia. Por exemplo: “a capital”(cidade) e “o capital” (dinheiro); “a moral” (conjunto de valores) e “o moral” (ânimo); “a caixa” (recipiente) e “o caixa” (pessoa encarregada de guardar o dinheiro); “a cabeça” (parte do corpo) e “o cabeça” (líder); “a grama” (capim) e “o grama” (unidade de medida); o rádio (objeto tecnológico que recebe uma programação de músicas e notícias) e a rádio (infraestrutura onde se produz e transmite uma programação, emissora de rádio). Note que é o artigo “o” ou “a” que determina o gênero da palavra conforme o contexto.

Ainda nesta linha de raciocínio, os artigos definidos “o” e “a” também servem para designar os gêneros sexuais masculino e feminino em “o agente, a agente”; “o artista, a artista”, “o docente, a docente”; “o estudante, a estudante”; “o dentista, a dentista”; “o presidente, a presidente” e assim sucessivamente. No mesmo sentido empregam-se os artigos indefinidos “um” e “uma”.

Por falar em “presidente”, lembrei da “presidenta”. Dizem que esta forma também está certa. Se está, o que impede de se inventar a palavra “docenta” em oposição a “docente”. Considerando que, onde for possível inventar um confronto, por mais absurdo que seja, não ficaria surpreso se surgissem “especialistas” defendendo a ideia.

Há inúmeras situações que a designação do gênero de um ser vivo é feita por palavras completamente diferentes umas das outras. Por exemplo: bode e cabra; cavalo e égua; homem e mulher; genro e nora; cavalheiro e dama; pai e mãe, zangão e abelha, cavaleiro e amazona, e assim por diante.

E para complicar ainda mais o juízo de vocês, há substantivos que têm gênero oposto ao sexo que eles designam. Por exemplo: o substantivo “mulher” é do gênero feminino, mas “mulherão” é do gênero masculino. E alguém duvida de que “um mulherão” não seja uma bela mulher?

Luta de gêneros

É loucura querer incutir na cabeça dos estudantes, de forma sorrateira e até maliciosa, uma associação absoluta do termo “gênero” como se fosse sinônimo de “sexo”. A real pretensão tem como foco difundir mais um enredo depreciativo à heterossexualidade. Será que o combate à discriminação sexual precisa de um elemento depreciativo à língua portuguesa na intenção subterrânea de fomentar rivalidades homem versus mulher?

Gênero é meramente uma categoria formal, classificatória, que serve para determinar essencialmente a concordância. Eventualmente, há palavras cujo gênero gramatical coincide com o sexo quando se troca a vogal “o” pela vogal “a” como ocorre em “menino/menina”.

As coincidências do gênero gramatical das palavras com o sexo se restringem a menos de dez por cento das palavras. A maioria esmagadora das palavras da língua portuguesa não dão significado sexual ao que se referem. Quanto ao gênero, as palavras são classificadas em “feminino” e “masculino”. A ideia sexual transmitida pelo vocábulo ocorre quando as palavras estiverem relacionadas ao homem ou à mulher e a determinados animais.

Não faria sentido deletar da língua portuguesa a palavra “homem” e usar as expressões “mulher macho” e “mulher fêmea” ou mesmo suprimir a palavra “mulher” e usar os termos “homem macho” e “homem fêmea” como forma de determinação sexual. Isto se faz, por exemplo, com “águia macho” e “águia fêmea”, não porque foi suprimida a palavra “águio” (como se fosse masculino de “águia”), mas porque é a estrutura da língua desde sempre.

Mesmo as pessoas que não se definem nem como homem e nem como mulher, acabam adotando um ou outro gênero quando escolhem um nome social. Há quem deseja ser identificado como mulher e outros como homem. Sempre se adota um estereótipo sexual: masculino ou feminino ou o mais próximo possível de um ou de outro. Ou, simplesmente, nas relações homossexuais ambos se identificam como “eles” ou “elas” e vida que segue, sem as tais complicações da neutralidade que causam mais depressão do que saúde. Todos queremos nos definir como alguma coisa. Ninguém quer ficar no limbo. Não devemos embarcar em mais uma “luta de classes”: heterossexuais versus homossexuais e homem versus mulher.

Sabemos que os ativistas já criaram inúmeras definições numa tentativa desesperada de desvincular a todo custo tudo aquilo que soa como binário. Mas acho que as explicações anteriores elucidam a questão sem apelar para surrealismos quando se luta por direitos.

Demonizar as vogais “o” e “a” por serem responsáveis explícitas pelo gênero masculino e feminino e, por conseguinte, atribuir caráter sexista à língua, vejo isto mais como dissonância cognitiva do que preocupação com os direitos das mulheres.

Qualificar a língua como sexista é uma loucura ideológica que pretende construir luta de classes até entre as palavras: “menino versus menina”, retirando-lhes as vogais “o” e “a” e substituindo-as por “X”. Qual é o problema de nos referirmos ao substantivo “menino” como alguém do sexo masculino e “menina” do sexo feminino?

Sugestões de mudanças artificiais para a língua portuguesa desse tipo se prestam a tumultuar os significados reais das palavras. Parece-me que a todo momento se constrói novos “Muros de Berlim” para renovar e inventar rivalidades dentro de uma sociedade. A primeira tentativa de eternizar a luta de classes entre proletários e burgueses foi um fracasso total. Mas na seara cultural os estragos foram feitos e já ecoam até na língua portuguesa com o “bom dia a todas e a todos”.

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