Convicção por adesão

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Struggle, pintura de Jacob Lawrence.

Ninguém acha estranho que questões que não deveriam ser objeto de partidarismos políticos se submetam a esse tipo de divisão? Qual remédio prescrever e qual tipo de medidas sanitárias tomar deveriam ser fruto de decisões técnicas e não símbolos de associações predeterminadas.

Em um mundo normal, independentemente do viés político ao qual se alinha, a pessoa decidiria se aceita ou não certo remédio, se concorda ou não com determinada medida, após concluir, por si mesma, depois de pesquisar sobre o assunto, qual seria a melhor escolha. No entanto, no mundo do politicismo integral, as coisas são muito simples: se você é de esquerda é contra certo medicamento e a favor de determinadas prescrições; se for de direita, é a favor do medicamento e contra as prescrições. A divisão tem quase uma precisão matemática.

É óbvio que tem coisa errada nisso aí. No entanto, essa chamada polarização é apenas o reflexo de um fenômeno que já ocorre em outra escala. Afinal, em todas as áreas da vida parece que ninguém mais chega a conclusões após um mínimo exercício da inteligência, mas, simplesmente, adota determinada bandeira de acordo com a cor partidária com a qual ela se apresenta. As pessoas aderem a qualquer coisa seguindo o único critério de qual grupo partidário ou ideológico a defende. É, de fato, uma demonstração de preguiça mental e de subserviência.

É preciso ter consciência, porém, que essa politização integral atrapalha o exercício da inteligência. Quando o que importa é defender um viés político antes de tudo, deixa-se de se fazer o exercício cognitivo ordinário, que é colher os dados e sintetizá-los, para, aí sim, identificar em qual espectro político ele se encaixa.

Toda adesão, como toda convicção política, deveria ser resultado de uma reflexão; deveria espelhar ideias que elaboramos por um esforço de nossa inteligência. Jamais deveríamos aderir a nada por ser de direita, de esquerda ou de centro, mas por acharmos que tal ou qual ideia está de acordo com as conclusões que alcançamos.

Eu não escondo de ninguém minhas convicções. No entanto, se elas podem ser identificadas como conservadoras, por exemplo, não é porque achei-as em um balcão de ideias políticas e aderi a elas, mas porque descobri, depois de desenvolve-las, que elas eram chamadas conservadoras.

Portanto, eu não sou conservador, minhas ideias que são. Quem não entende a diferença que isso faz provavelmente está preso no equivocado sistema preguiçoso de adesão política sem reflexão.

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