Barbárie, nada mais que barbárie

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Protesto do grupo marxista Black Lives Matter, em Bristol (Inglaterra), em 7 de junho de 2020.

Por Tobias Goulão

“El moderno cree vivir en un pluralismo de opiniones, cuando lo que hoy impera es una unanimidad asfixiante.”
Nicolás Gómez Dávila

Estamos a vivenciar um período deveras estranho, que leva a pensar sobre como Miguel de Unamuno escreveu sobre Portugal, e como isso nos mostra que aquele sentimento pode ser transportado para outras épocas. E o pior, é um sentimento de vazio que se transformou no combustível para que tudo fosse enfrentado, destruído e apagado ao bel prazer da horda bárbara que se multiplica dentro de nossos muros.

Vejamos que quando Unamuno escreve, lembra que os portugueses ficaram isolados entre o passado grandioso e as perdas que amputaram toda a força daquele que fora um dos maiores impérios do mundo. Entre o resultado de Alcácer-Quibir, as ruínas do Museu do Carmo e o Portugal de hoje está um povo que fala de seu passado com nostalgia do tempo áureo, mas está sempre se desculpando por ele. Condição essa que levou à observação de que eles são o “cadáver dum povo” (UNAMUNO, 2011, p.13). Falta vida, o que se resume em um breve trecho:

[…] Portugal, esta mesma terra, é um povo triste.

É um povo triste, sim. E daí o encanto que tem para alguns, apesar da aparente trivialidade das suas manifestações exteriores. Portugal é um povo triste – e é-o mesmo quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste.

Portugal é um povo de suicidas, talvez mesmo um povo suicida. A vida não tem para ele um sentido transcendente. Querem viver, sim, mas para quê? Vale mais não viver. (UNAMUNO, 2011, p.7)

É justamente na observação mais sensível que chegamos ao ponto: a vida não tem mais sentido transcendente, e esse vazio se ampliou ao ponto de tomar todo o Ocidente. Este lado do mundo, com sua civilização ancorada em inúmeros confortos sonhados apenas na ficção, com as possibilidades ditas infinitas, com desejos sendo saciados a todo instante, está vazio de um sentido transcendente. Toda a força criativa foi recalcada, inutilizada, porque não há com o que a vida em si se manifestar plenamente, dado esta falta de sentido, de direção, de possibilidade de ação a nível pessoal e até mesmo em nível social (como povo, nação, civilização) que uma vocação seja seguida.

As manifestações desse vazio são os inúmeros atos de barbárie, de destruição daquilo que está visível e que remonta à propriedade do próximo, ou espaços públicos e, principalmente, a um passado desconhecido pela horda. Estamos lidando com um grupo de pessoas dentro da realidade civilizacional do Ocidente que não sabem como o mundo chegou ao estado de bem-estar atual, pensam que tudo é natural e dado a eles pelo nada. Querem destruir justamente o que não entendem, não compreendem, porque aqueles que outrora possuíam um sentido amplo na vida não podem ser suportados. Estamos em dias de reducionismo tacanho, onde falas das mais estapafúrdias determinam que o passado deve ser eliminado porque ele todo é reduzido a uma categoria anacrônica, o que destrói aqueles séculos passados que nos dão chão hoje.

Passamos por uma intencional desfiguração da história, onde o passado não mais interessa. Situação que podemos aplicar o termo do autor romeno Vladimir Tismăneanu (2015, p.13) que é o da mnemofobia, o medo do passado. Medo esse que se instalou por preguiça, covardia e até incapacidade de entender o transcorrer dos fatos e aquilo que já foi feito como parte de todo o estado de benesses que vivemos. A considerar que o intuito atual é destruição em prol de uma palavra de ordem, a sintetização de toda a condição de verdade e moralidade ficou expressa nos gritos das hordas, que não conseguem desvincular de seus pensamentos a completa vulgarização dos conceitos sobre o passado e não realizam nenhum esforço para entender aquilo que a história carrega.

É o resultado do processo de desconstrução, de desmitificação, de destruição da estrutura de toda uma sociedade, e como lembra um trecho do diário de Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), que assim diz:

O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera que o mundo, para o qual nascemos, não tivesse segurança que nos dar na ordem religiosa, esteio que nos dar na ordem moral, tranquilidade que nos dar na ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia moral, em pleno desassossego político.

[…]

Os nossos pais destruíam contentemente, porque viviam numa época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que eles destruíam que dava força a sociedade para que pudessem destruir sem sentir o edifício rachar-se. Nós herdamos a destruição e os seus resultados.

Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexitação. (PESSOA, 2016, p.150-151)

Podemos também nos lembrar do filósofo romeno radicado na França, Emil Cioran, que coloca outro exemplo desse vazio no seguinte trecho:

Imagine uma sociedade superpovoada de dúvidas onde, com exceção de alguns casos aberrantes, ninguém se compromete inteiramente com nada; onde, carentes de superstições e de certezas, todos exigem a liberdade e ninguém respeita a forma de governo que a defende e encarna. Ideais sem conteúdo ou, para utilizar uma palavra totalmente adulterada, mitos sem substância. (CIORAN, 1994, p.22)

E todo esse vazio foi canalizado na ação da massa, da horda, que segue o fluxo daqueles que conseguem dar um menor significado para uma existência vazia que, inevitavelmente, precisa de algo para se agarrar. Mesmo que isso seja a última moda abraçada pela sociedade.

Toda a horda que sai a destruir o mundo que encontrou, ordenado e com todo o conforto que a civilização oferece, tem a mentalidade similar à de um “menino mimado” ou “filhinho de papai” herdeiro de uma fortuna que não fez. Sem entender hoje o peso da ordenação desse mundo, quanto sangue foi derramado, quantas discussões e protestos, quantos conflitos e quanto desconforto foi vivido até que chegássemos a esse mundo, o filhinho de papai se porta como um espécime de bárbaro que caminha a destruir o local que adentra. Porque é dele e pouco importa como foi feito, importa que está entediado, que precisa fazer algo, e quem não consegue criar tem como alternativa destruir.

Tal perspectiva nos é possível através da obra de Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, e temos algumas colocações interessantes e ilustrativas do funcionamento dessa horda. Ele escreveu que esse menino mimado, que aqui colocamos como a pessoa compõe a horda em atividade hoje, é uma espécie de “primitivo rebelde, quer dizer, o bárbaro” (ORTEGA, 2016, p.174). E para chegarmos a esse fenômeno e comparação, vamos entendendo que esse “novo bárbaro” é o homem médio, o homem-massa, que se afastou de sua história, ficou alocado em uma mediocridade existencial impensável e assumiu o controle do andamento da civilização. Sobre isso a perspectiva é que “esse homem-massa é o previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso, dócil a todas as disciplinas chamadas ‘internacionais’” (ORTEGA, 2016, p.49).

O perigo de não conhecer todo esse passado que compõe a realidade na qual se está inserido é deixar essas “internacionalizações” tomarem conta. Eles ditarão o que é o passado, formarão um conteúdo alimentado por uma série de conceitos vazios e anacrônicos que, sendo repetidos ad nauseam, moldará um falso relato sobre o que sustenta a nossa condição histórica. É uma negação do passado, da qual Ortega salienta ser algo “absurdo e ilusório, porque o passado é o ‘natural do homem que volta a galope’” (ORTEGA, 2016, p.54).

Vejamos que esses movimentos de horda que saíram às ruas recentemente estão claramente negando o passado, destruindo o patrimônio de outros, retirando estátuas de praças, atacando símbolos civis e religiosos, com justificativas completamente anacrônicas. A motivação inicial, protesto contra um caso específico ligado a injustiça da força policial contra uma pessoa, poderia levar a um protesto específico e direcionado. Mas a falsificação constante do passado levou aos novos bárbaros, já instalados na condição de homem-massa, a perderem o senso das proporções e sua capacidade de análise, estão sem o domínio do passado, e assim estouraram essas desgraças que visualizamos.

Essa catástrofe operada por aqueles que estão sem passado, sem o entendimento da herança que possuem, faz com que pensem poder lançar ao chão todo o mundo que vivem, e pensando ser os representantes do auge alcançado pelo pensamento, que estão no ápice da humanidade, podem apagar todo o resto e recomeçar agora. Ledo engano, pois, “nenhum ser humano é suficientemente brilhante a ponto de sozinho poder compreender tudo, ao concluir que a sabedoria acumulada ao longo dos séculos nada tem de útil a lhe ensinar” (DALRYMPLE, 2015, p.21). Nessa ação está clara a ruptura com o passado, mas ninguém se importa, esquecendo que “romper com o passado, querer começar de novo, é aspirar a cair e plagiar o orangotango” (ORTEGA, 2016, p.71). Estamos nesse nível, onde procuram colocar abaixo todo o mundo só para se sentirem maiores que as ruínas.

Os que vivem sem compreender a importância do passado como constituinte de nossa realidade pessoal atual fica sem meios de projetar o futuro, seguindo aqui a perspectiva de Julián Marias. Ele assinala a “el passado perdura o pervive porque se ‘vuelve’ a él, precisamente para proyectarse. […] No puedo limitarme a hacerlo desde ‘hoy’, sino que tengo que dar marcha atrás y actualizar la realidad del yo que he sido” (MARÍAS, 1994, p.176). A capacidade de limitar-se ao agora faz justamente aceitar qualquer versão do passado, por mais estúpida que seja. Não há interesse de procurar entender, então, o que vale é o que dizem, o que a mídia e a maioria das pessoas influentes dizem (mesmo que entendam de história, filosofia e sociologia o que um macaco bonobo entende de física quântica, biologia e química).

É o modo de agir do homem-massa, por ser medíocre, querer justamente esse tipo de vida para os demais. “O característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem a audácia de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe em toda parte” (ORTEGA Y GASSET, 2016, p.85), comportamento que passa a exigir a manifestação universal para ser considerado como “pessoa do bem”, e caso não se manifeste, será alvo de ataques virtuais ou físicos, que poderão vir a cancelar o não-manifestante. “Quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, corre o risco de ser eliminado” (idem, p.85).

A condição das manifestações que ocorreram recentemente são demonstrações claras de um barbarismo nunca antes visto. Primeiramente porque essa condição surge no próprio seio da nossa sociedade. Surge daqueles que são beneficiados por ela, mas que possuem uma vida completamente desvinculada com a cultura que o cerca. De modo geral, o que há é justamente isso: a retração da cultura, uma incapacidade criativa e comunicativa entre os homens dos séculos, pois a capacidade criativa contemporânea, que alimenta a alma dos bárbaros contemporâneos, é efêmera.

Toda a criação que temos é relegada satisfações imediatas, a ordens do dia. Realizações de alto nível, que dá para a vida uma capacidade de crescimento, uma força para a busca de contemplação e aperfeiçoamento, que promovem a comunicação entre a produção humana dos vários séculos, está escassa. Os que têm preocupação com isso estão no subsolo, são colocados de lado, para que o jovem influente possa, munido de baixíssimo conhecimento, de anacronismos e de conceitos que não se aproximam com as percepções da realidade possam dizer o que é o importante para esses dias.

Nicolás Gómez Dávila escreveu que “grandes charlatães subjugaram o século XIX; enquanto o XX é subjugado por pequenos”[1] (DÁVILA, 2008, p.9), e essas primeiras décadas do séc. XXI já viu o nível dos charlatães ficar ainda mais baixos. E tudo é devido à retração da cultura, esse movimento que permite hoje ver situações de devastação do passado, de figuras que lutaram pelo seu povo, sendo completamente vandalizadas, porque esqueceram quem foram, o que fizeram e o quanto do bem-estar atual está ligado a eles.

Vandalizar estátuas de Churchill, Cervantes, Padre Antônio Vieira, censurar filmes como o “…E o Vento Levou” (1939)[2], e termos campanhas como a de censura das obras de Monteiro Lobato[3] ou até mesmo pedir o banimento dos autores clássicos da filosofia por serem europeus e brancos[4] é o ápice de uma mnemofobia assumida e que é termômetro da queda indescritível da cultura geral onde habitamos.

E ao seu contrário, nomes de homens claros que causaram catástrofes, matanças e desgraças nacionais e internacionais, como Lenin, Mao e Che são adorados (ao passo de, no dia 20/06/2020, uma estátua de Lenin foi inaugurada em uma praça alemã[5]). Condição que nos leva a procurar entender esse nível de barbárie que estamos vivenciando, com imagens similares às descrições da destruição que foi realizada na tomada do Império Romano naqueles anos que tomamos como marco para o fim da antiguidade.

Estamos em um momento que há uma enorme brutalidade, visível nas formas de ação dos grupos ideológicos que sempre se mostram violentos, e com isso podemos entender bem a colocação de Richard M. Weaver:

As épocas que têm reputação de terem sido cruéis devem ser mais respeitadas do que as que são conhecidas por sua brutalidade (como será o caso da nossa), porque a crueldade é refinada e ao menos faz distinção entre seus objetivos e intenções. As terríveis brutalidades da guerra democrática demonstraram quão pouco o intelecto das massas é capaz de compreender a virtude da seleção e da moderação. A recusa em perceber a distinção entre um bebê e um adulto, entre os sexos, entre o combatente e o não combatente – distinções que são a essência do cavalheirismo –, a decisão de agrupar tudo em uma unidade amorfa de massa e peso, isso é a destruição da sociedade por meio da brutalidade. (WEAVER, 2012, p.42)

A brutalidade, a agressão ao incompreensível é marca do barbarismo, desses que estão aquém da cultura.

Quem seria esse bárbaro? Inicialmente podemos nos colocar no rastro de Mário Ferreira dos Santos e mostrar de onde é retirado esse termo e porque ele é tão importante para nossa observação dos eventos destrutivos de hoje.

No prefácio da obra Invasão Vertical dos Bárbaros (2012, p.13) encontramos a seguinte descrição:

O termo bárbaro era empregado de início, pelos gregos e romanos, para referir-se a todos os estrangeiros. Contudo, tomou, depois, o sentido do que não é civilizado, do que é inculto, do que combate toda e qualquer manifestação da cultura. Nesse sentido, também o tomamos nesta obra.

Dentro dessa perspectiva, o filósofo fez questão de salientar que os bárbaros hoje são, como já tratado no texto, aqueles que estão em nosso meio, são “bárbaros intramuros”, e que dessa posição, ocupando setores importantes ou se transformando em influenciadores, em pregadores do “bem” e do “mal”. Esses indivíduos trabalham em função de uma demolição daquilo que encontrou no mundo. Não estão contentes em trabalhar com as circunstâncias encontradas, para eles, em um gnóstico desejo de recriação da realidade, o que importa é colocar tudo abaixo. Síndrome de insatisfação que pode ser entendida também pela seguinte exposição de Mário Ferreira dos Santos:

Os elementos ativos corruptores, guiados por uma inteligência, de vontade maliciosa, sempre souberam aproveitar-se do barbarismo como instrumento para solapar a cultura. E hoje, mais do que nunca, manejam-no com uma habilidade de estarrecer, dispondo de meios capazes para tal, imprimindo ao trabalho corruptivo uma intensidade e um âmbito nunca atingidos em momento algum. (SANTOS, 2012, p.15)

Essas atitudes negativas/destrutivas são formas de ataque que estão procurando colocar abaixo os elementos básicos da nossa sociedade, seja no plano material ou no espiritual. A cosmovisão, o entendimento da realidade que vivemos e todas as melhorias que ela trouxe para o ser humano aqui no Ocidente, o enfrentamento das ameaças totalitárias e que tinham como pretensão a desgraça do homem, hoje não são mais lembrados. Querem transformar em ruínas o Ocidente e o preço que pagam é entregar o homem para ser objeto nas mãos de dominadores das massas, de membros de uma elite aparentemente “liberal” e que tudo permite.

O engano é perceber que, a fazerem esse movimento de destruição do nosso aparato cultural, estarão entregando a pessoa humana nas mãos de ditadores e doutrinadores que, assim como a horda bárbara que se levantou contra o chão que pisa, não aceita nenhuma divergência. Nossos bárbaros esquecem que os métodos utilizados hoje contra seus opositores serão os mesmos métodos de controle do “Admirável Mundo Novo” que será criado das ruínas da nossa sociedade.

Observando a condição na qual essa barbárie transcorre, o cenário é completamente diferente, pois um grande campo intelectual, moral e científico foi explorado, mas mesmo assim nos perdemos em construções menores, em pouca capacidade para responder aos anseios da vida. Esta que é atingida, “são todos os seus valores que tremem, e não só a estética, mas também a ética, o sagrado – e com eles a possibilidade de viver o dia a dia”, foi dito pelo filósofo Michel Henry no livro A Barbárie (São Paulo, É Realizações, 2012, p.22). Segundo o autor, o que temos nem mais seria classificado por uma crise, mas sim uma destruição da cultura.

Desta perspectiva poderíamos abrir uma observação acerca da visão cientificista que se criou, pois alguns tendem a transformar as estatísticas, os gráficos, e toda a condição explorada no laboratório para tratar a vida humana e seu desenvolvimento espiritual. Veja que não é uma crítica pueril à ciência, está apontada para um detalhe de suma importância que poucos observam, pois já estamos anestesiados a ele. Note que para chegarmos ao ponto onde essas instâncias de autoridade suprema da “ciência” e de seus propagadores, os “cientistas”, é necessário que seus profetas, aqueles que traduzem a linguagem dos “deuses” ao povo, tenha plena consciência de que a humanidade alcançou seu estado máximo de desenvolvimento, que os “ungidos” sabem de todos os processos do desenvolvimento humano/histórico onde o atual tempo é a culminância da história.

Chegaríamos então ao seu fim, e no fim da história os senhores desse conhecimento modelariam a pós-história de acordo com as possibilidades já sabidas de antemão. Nada novo, tudo conhecido e planejado, um conhecimento “científico” que pode prever e ordenar a totalidade da realidade unida a um espírito absoluto. E sobre as eliminações que surgem junto à imanentização do eschaton[6], podemos expor uma visão do que se forma nessa perspectiva de conhecimento total da história. No artigo O que é o Fim da História?, Mendo Castro Henriques (Revista Communio, 1996, p.498) discorre sobre essa problemática e nos deixa o seguinte:

A existência humana conhece-se a si mesma sem intervenção de ordem providencial divina. O homem sente-se responsável por tudo. As contradições da história foram ultrapassadas pelo processo de luta e trabalho, pelo qual se actualizou a liberdade da consciência de si e o regime de conhecimento mútuo.

Estamos em um campo onde o progresso, falível e que pode ser muito mal aproveitado, tomou o lugar da escatologia, que é uma condição de salvação além-mundo. E com o progresso entregando o controle da história e do saber absoluto nas mãos dos homens, logo, toda a realidade está disponível a ser manipulada. E nesse mundo totalmente conhecido, a própria pessoa humana se torna instrumento em suas mãos. Esse processo é o de “coisificação” do ser humano, que vemos expresso na obra Pós-História de Vilém Flusser. Para ele, o modelo cultural que surge e que alcança o ápice no pós-guerra é responsável para que “pela primeira vez na história da humanidade pôs-se a funcionar um aparelho, o qual, programado com as técnicas mais avançadas disponíveis, realizou a objetivação do homem, com a colaboração funcional dos homens” (FLUSSER, 2019, p.12).

A colaboração entre os homens que, partindo de uma constatação similar à de Henry, é o cientificismo exacerbado que separou o homem de si mesmo e mostra essa visão de controle que o homem passa a ter pelo outro homem. Os exemplos são os mesmos entre Flusser e Henriques, os do vazio que se vive com os fins da metafísica, os campos de concentração e da burocracia. E tudo ocorre “necessariamente, porque objetivam, desumanizam o homem” (FLUSSER, 2019, p.15). O aparelhamento da cultura leva a isso, é onde Flusser faz críticas ainda mais severas, em parte válidas, mas exageradas e que pendem para o absurdo em outras, e que podemos aproveitar aqui justamente sua visão de que se criou uma “transcendência objetivante”. E isso “permite transformar todo o fenômeno, inclusive o humano, em objeto de conhecimento e manipulação” (idem).

Para o autor, estamos nesse momento sem cultura e sem chão, sem fé em nós mesmos. O estado de barbárie que estamos descrevendo encaixa-se nessa perspectiva justamente por ser um processo destrutivo. O que Michel Henry vai nos colocar, e que também vimos com Mário Ferreira dos Santos, pois estamos vendo nesses movimentos justamente isso: pessoas sem chão, que destroem seu patrimônio, negando a aprimorar sua cultura e fazendo do ser humano objeto, seja para justificar sua sede de violência, seja para manipular sua existência como uma massa a ser moldada, seja para descartar qualquer coisa que o “conhecimento” diga ser um estorvo.

Não deixam de ser pueris esses movimentos, pois essa atitude iconoclasta é tipicamente encontrada nos jovens. E hoje, como a obrigatoriedade da vida adulta está sendo postergada cada vez mais, o jovem-adulto é uma realidade alarmante. Por isso tantas pessoas aderem a esses movimentos de horda, de massa, porque ainda estão, como bons adolescentes, querendo aprovação da turma, buscando satisfazer seus instintos e serem vistos e amados pela maior quantidade de pessoas. E esse grupo de pessoas replica um aviso de Emil Cioran (1994, p.14): “dê aos jovens a esperança ou a ocasião de um massacre e eles lhe seguirão cegamente”. É um desejo por anarquia e destruição que só pode ser algo ligado ao niilismo, condição que também vemos eco nos escritos do filósofo romeno: “há nesses hunos refinados uma melancolia feita de crueldade reprimida, cujo equivalente não se encontra em nenhum outro lugar: dir-se-ia que o sangue começa a pensar em si mesmo e, no final, se transforma e melodia” (CIORAN, 1994, p.19).

Em meio a essa destruição toda, os membros da horda bárbara não percebem que lutam contra si mesmos, contra o mais básico da condição humana, que é sua cultura. Essa mesma que eles negam, mas que permite que tenha uma vida consideravelmente melhor que qualquer grupo humano no passado. E aqui utilizaremos a noção de cultura da por Henry:

Toda a cultura é uma cultura da vida em seu duplo sentido, pois a vida constitui ao mesmo tempo o sujeito dessa cultura e seu projeto. É uma ação que a vida exerce sobre si mesma e pela qual ela se transforma, uma vez que é a própria vida que transforma. […] “Cultura” designa autotransformação da vida, o movimento por meio do qual ela não deixa de modificar a si mesma, a fim de alcançar formas de realização mais elevadas, a fim de crescer. (HENRY, 2012, p.26-27)

Essa definição nos mostra que a cultura é um crescer, um aperfeiçoar, não corresponde com essas perspectivas destrutivas, já que para crescer é importante uma condição na qual se esteja instalado. Um suporte para a vida que não seja destruído, mas seja utilizado para o crescimento, a autotransformação que pretende algo maior. E para essa elevação é importante se apoiar no passado, no que já foi vivido, e a partir do que é bom crescer, melhorar aquilo que temos de positivo, que nos leva a crescer. E aqui vemos que a onda de destruições que seguiram aos “protestos democráticos” (sic) podem claramente ser classificados como barbárie.

Eles pensam que o domínio que possuem de uma narrativa é esse domínio pleno da história, do conhecimento total e que faz deles uma espécie de primeiro homem que iniciará esse novo tempo. Eles se colocam como conhecedores do bem e do mal, a régua moral, intelectual e espiritual para tudo. E no meio da massa nada concreto nesse campo surge, só há espaço para movimentação e destruição daquilo que se opõe. Eles desconhecem realmente o passado, por isso essa destruição aplicada não olha seus “inimigos”, pois é apenas ser oposição aos seus anseios que se torna inimigo. Eles não conhecem, não querem conhecer, o que nos mostra como estão lançados em um vazio do conhecimento de seu próprio mundo, o que faz a vida não ter esse suporte para o crescimento. Mesmo sendo dito que pode fazer tudo, o máximo que são capazes de fazer é destruir.

O que a horda demonstra é a dificuldade de encontrarmos formas superiores, mais elaboradas de cultura, que nos auxiliam no caminho para o crescimento pessoal. Os exemplos são baixos, ignóbeis. Néscios são tidos como suprassumo do pensamento, o que fariam os beócios da antiguidade sentirem-se geniais. É um contexto triste, pois a forma efêmera de tudo não permite que as atuais manifestações do que são denominadas arte, ética e religião venham a criar raízes em nossos bárbaros. E isso é porque esses campos estão conectados ao mais essencial da vida, e a doença da barbárie chegou ao ponto de impedir a criação grandiosa ao ponto de ser incorporada no saber humano, que possa ser parte do diálogo perpétuo entre as culturas, entre as vidas que se manifestam em todos os tempos e que vão auxiliando as atuais a melhorarem.

Chegamos ao que mostra o estado de barbárie, essa condição de “regressão dos modos de realização da vida”, segundo Henry, e que

A maneira pela qual ela se contamina sucessivamente cada domínio da atividade social, o desaparecimento progressivo, na totalidade orgânica de um “mundo” humano, de suas dimensões estética, ética e religiosa, também pode ser compreendida partindo-se de um processo que afeta a essência do ser, entendido como o princípio do qual procede toda a cultura, assim como suas modalidades concretas de realização, especialmente mais elevadas: é uma doença da vida. (HENRY, 2012, p.46)

Adoecida, a vida para, não cresce, não melhora, não consegue criar. Essa condição paralisa a vida, e por conseguinte, suas energias. Tudo que poderia ser feito não é. A condição de paralisia acaba por criar uma quantidade enorme de potência, e que mal espera por uma oportunidade de ser usada.

De uma energia que não se exerce, pode-se dizer que ela é recalcada. [..] esta subsiste no recalque, dada a si mesma, encarregada de si mesma, com uma carga que se torna a cada instante mais pesada, na medida em que, não suscitando no indivíduo nenhuma operação que lhe seja conforme, como sua própria operação, ela não se converte em momento nenhum no gozar do crescimento. (HENRY, 2012, p.160)

É graças a esse recalque que, somando aos pontos já mencionados, que os bárbaros atuais estão a destruir tudo. Quem não tem disposição criadora, resultado da doença vital da barbárie que se espalhou pela nossa sociedade, estará disposto a gastar a energia em qualquer evento que lhe permita fazer isso. Caminho sem volta, porque incitados pelas “autoridades do saber”, pelos “senhores da moral” e pelos “sacerdotes do caos”, os atos de vandalismo e tudo mais que se conecta com eles.

Não existe uma missão maior dada para a sociedade. Todas as questões ligadas à cultura e à vida estão inalcançáveis, situação que constatamos outra problemática: a falta de tarefas para serem cumpridas que exijam mais da vida. Nada hoje está à altura criadora de todas as capacidades que uma vida poderia ter a considerar aquilo tudo que temos de passado a consultar, vejamos os âmbitos de ética, estética e religião. Quando tudo tornou-se um sistema de estruturas hedonistas, choques para abrir a mente para uma nova estética e mistura de esoterismo barato junto a sentimentalismo tolo. Os grandes campos da vida parecem ter sidos limitados aos mais baixos estímulos do tédio que são representados pelas mídias sociais e pela televisão.

O estrago que essa barbárie causa é alarmante. Criam narrativas que colocam em crédito tudo que já foi feito até eles, que ungidos de magnânima sapiência, estão acima de qualquer um. A violência para com os que não compactuam chega a agressão física, destruição e saques de lojas. E o que isso nos aponta é justamente a capacidade de elevar a vida, de mostrar uma maneira que saia do vandalismo ao lutar por justiça em um caso de abuso claro de autoridade. A barbárie, como lembra Mário Ferreira dos Santos (2012), tem uma condição de que a força sempre prevalece sobre o direito, as formas legais em si. É a visão da catástrofe, porque nesse ritmo temos

As multidões desenfreadas nas ruas, que são o caminho para as grandes brutalidades e injustiças, manifestação do primitivismo, mais um exemplo da horda, movidas por paixões, sobretudo o medo, aguçadas pelos exploradores eternos de suas fraquezas, pelos demagogos mais sórdidos, passam a ser exemplos de superioridade humana.

Tais espetáculos apresentam-se aos olhos de muitos como o mais alto estágio da grandeza humana. São elogiados como manifestações de “consciência social”, da “vontade popular” etc. Nada há aí de grandioso. (SANTOS, 2012, P.34)

Esse tipo de ação que apenas reforça, nas suas instâncias finais e mais características, essa condição de barbárie que vivemos e que mostra quão deficitária, estática, improdutiva, sem nobreza está a condição de vida que temos. A cultura perde seu sentido de cultivar o espírito, de incorporar o patrimônio humano, e passa a ser somente qualquer produção humana, e isso equipara qualquer um que faça um barulho e ganhe espaço na mídia e chame essa criação de música ao que um Mozart fez em sua trajetória como compositor.

A capacidade criativa só é reconhecida se satisfizer o desejo dessa horda. Esta, representada no conceito de homem-massa, não tem maiores capacidades, mas tem força, e por isso intimida e cresce (mesmo que muitos só entrem na massa para não serem vítimas dela, para acompanhar a moda, mas mesmo assim colaboram com seu crescimento por não ter capacidade de enfrentamento dessas imposições).

Devemos, porém, estar cientes de que não há perfeição. Nós ainda temos que melhorar inúmeros pontos no que está ligado ao convívio e ao aperfeiçoamento de nossas capacidades morais, científicas e artísticas. O ser humano vive no gerúndio, está sempre se “fazendo”, não se termina a não ser com o ponto final da morte. Sempre haverá algo a ser acrescentado, reformado, criado e é esse o desafio, o grande drama da vida humana. Para tanto, ao invés de destruir tudo em que ela se assenta, é mais importante e comprovado pelo tempo e experiência da nossa própria condição, saber agregar em nós o que há de melhor e trabalhar para somar junto com outras pessoas, condições de crescimento, fazer a cultura prosperar.

E por considerar a noção de cultura como cultivar, uma forma de “concrescer”[7], como a autotransformação e busca por uma forma de realização mais elevada, podemos combinar com uma boa síntese de Pedro Laín Entralgo sobre o comportamento que ampara toda a forma de nos inteiramos com a realidade que estamos (formada pelo peso do passado e pela incerteza do futuro). Entralgo diz assim: “llamo, por tanto, ‘voluntad de plenitud histórica’ al deliberado propósito de incorporar a cada una de mis acciones originales – intelectuales, estéticas, técnicas o políticas – todo cuanto en mi comprensión del pasado se me haya mostrado valioso o meramente válido” (ENTRALGO, 1959, p.15).

Nosso trabalho para evitar a barbárie é procurar realizar, com uma vida nobre, que conhece seus deveres e está pronta para defender sua liberdade e sua integridade, essa vontade de plenitude histórica. É nos colocarmos em diálogo com o que há de grande, não apagar tudo porque uma horda nos invadiu. Sejamos como os mosteiros que guardaram dentro de si o tesouro da antiguidade, mas também sejamos combatentes que aplicaram esse conhecimento na construção de uma civilização inteira.


Referências

UNAMUNO, Miguel de. Os portugueses, um povo suicida. Lisboa: Ática, 2011.

TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo: o destino de uma religião política. Campinas, SP: Vide Editorial, 2015.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Mediafashion, 2016.

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.

MARÍAS, Julián. Mapa del mundo personal. Madrid: Alianza Editorial, 1994.

DALRYMPLE, Theodore. Nossa cultura… ou o que restou dela. São Paulo: É Realizações, 2015.

ENTRALGO, Pedro Laín. Ejercicios de comprensión. Madrid: Taurus Ediciones, 1959.

WEAVER, Richard M. As ideias têm consequências. São Paulo: É Realizações, 2012.

SANTOS, Mário Ferreira dos. Invasão Vertical dos Bárbaros. São Paulo: É Realizações, 2012.

HENRIQUES, Mendo Castro. O que é o fim da história? Communio: Revista Internacional Católica. Ano XIII – 1996. p.494-509.

FLUSSER, Vílem. Pós-História: Vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: É Realizações, 2019.

CIORAN, Emil. História e Utopia. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.


[1] Tradução livre de: “Le charlatanisme des grands a subjugué le dixneuvième siècle; quant au vingtième, ce sont de petits charlatans qui le subjuguent”.

[2] https://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/hbo-e-o-vento-levou/

[3] https://veja.abril.com.br/educacao/tentativa-de-censura-de-livro-de-monteiro-lobato-para-no-stf/

[4] https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/alunos-de-universidade-querem-banir-estudo-de-filosofos-brancos-20754506

[5] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/06/20/polemica-estatua-de-lenin-e-inaugurada-na-alemanha.ghtml.

[6] Termo que é retirado da análise de Eric Voegelin, aqui utilizando segundo exposto pelo artigo “A Crença Cancerígena”, por Vitor M., onde é explicado na nota de rodapé [4] “A tentativa de construir um eidos da história conduzirá à imanentização falaciosa do eschaton cristão”. Texto disponível em: https://contraosacademicos.com.br/a-crenca-cancerigena/#_ftn4

[7] Termo usado aqui de empréstimo do pensamento de Mário Ferreira dos Santos que elaborou sua Filosofia Concreta (São Paulo: É Realizações, 2009) a partir da aplicação do termo latino “cum crescior” que é um “crescer com/junto”, ou seja, uma unidade que concreciona todas as positividades filosóficas na intenção de mostrar como o homem faz seu conhecimento utilizando daquilo que os demais realizaram na história.

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