A voz das autoridades

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Família em Manaus. (Foto: Janailton Falção)

A um custo de 2.4 bilhões[i] de libras esterlinas por dia – suficiente para se construir 10 hospitais de nível de primeiro mundo, todos os dias – por conta do lockdown, o Reino Unido começou no último mês a flexibilizar as medidas restritivas que paralisaram o país desde o final de março. Infelizmente, no entanto, essa flexibilização, que assegura maior abertura aos espaços externos para o usufruto dos indivíduos já cansados e a volta ao trabalho, chegou tarde demais para conter a recessão econômica que já mostra sinais com a falência de grandes empresas como a franquia de restaurantes ‘Carluccio’s’. Embora os governos daqui e de acolá possam não reconhecer o erro, a história há de cobrar.

Tal como no Brasil, não se sabe ao certo quantas pessoas morreram por consequência do Vírus Chinês no Reino Unido, já que a forma como os dados são coletados apresentam apenas o número de vítimas com a peste, não sendo claro por enquanto a causa mortis destas vítimas, à quem naturalmente devemos ser solidários – do mesmo modo como somos diante da perda de qualquer outra vida inocente, incluindo as 205 mil[ii] mortes de bebês abortados todos os anos neste país. As mortes de pessoas com Coronavírus por aqui, ultrapassam os 30 mil. Muito, certamente, mais é ainda um quarto do número anual de mortes por doenças respiratórias no Reino Unido.[1]

Segundo o Programa de Alimentos da Organização das Nações Unidas (PAN) o número de pessoas mortas pela fome no mundo em 2020 pode chegar aos 260 milhões, o dobro do ano passado, em consequência não do Vírus Chinês mas sim do Lockdown. Além disso, pelo menos três dúzias de países enfrentarão ainda este ano a fome em consequência do bloqueio econômico, afirmou David Beasley, Diretor do PAN[2]. Os maiores afetados pelas ramificaçõs econômicas serão, claro, os mais pobres.

Somente este motivo seria suficiente para encerrar hoje mesmo, nesse exato momento, esses bloqueios, reconhecendo o erro dessa investida catastrófica. Porém o problema é ainda maior. Um declínio de 5% no PIB global pode significar que outras 147 milhões de pessoas entrem na linha da pobreza extrema, alerta o Food Policy and Research Institute. Visto que o Fundo Monenátio Internacioal (FMI) já estima em pelo menos 3% a contração da economia no mundo, é predizível que este último dado lamentavelmente se consolide, ainda que parcialmente. Essa mortandade e pobreza, ressalto novamente, será consequência do bloqueio econômico e não do Coronavírus, como dizem as próprias autoridades.

Em meio a estes dados – sejam aqueles já verificáveis ou os prognósticos das organizações internacionais que tanto exalta-se por aí – alarmantes, jornalistas e editores de opinião onanizam-se diante da tragédia alheia do alto de suas coberturas, enquanto riem e fazem piada de um presidente da república contrário aos bloqueios ou de vozes dissidentes do discurso mainstream. Enquanto riem e debocham, o povo, os trabalhadores, pais e mães de família choram diante da perda não apenas de suas liberdades, mas também do meio pelo qual buscam garantir que não chegue o dia em que um filho venha a dormir de barriga vazia.


[i] CityWire https://bit.ly/2WRbZmR

[ii] Department of Health and Social Care – Abortion Statistics for England and Wales, 2018.

[1] São cerca de 114.225 mortes por doenças respiratórias no Reino Unido segundo o “Lung disease in the UK – Big Picture Statistic”, disponibilizado pelo Respiratory Health of the Nation em conjunto com a St George’s University of London, a Nottingham University e Imperial College London.

[2] NBC https://bit.ly/3cy4UP2

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