A dissonância cognitiva produzida por uma poderosa máquina de propaganda

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“Massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, fome e miséria provocadas dizimaram milhões de ucranianos, enfim, aniquilação de homens, mulheres, crianças, soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção esperança. (…) foram cerca de 100 milhões de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o número de vítimas do Nazismo e até mesmo das duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelações dos arquivos hoje acessíveis”. (Trechos da obra “O Livro Negro do Comunismo – crimes, terror e repressão”. Autores: Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek, Jean-Louis Margolin).

“A Justiça da Ucrânia confirmou a constitucionalidade de uma lei que equipara o Comunismo ao Nazismo. A legislação havia sido aprovada por congressistas do país em 2015, mas era contestada por grupos internos desde então. A medida abriu caminho para a remoção de símbolos comunistas em território ucraniano, como as estátuas de Vladimir Lenin.

“De acordo com a decisão do Tribunal Constitucional do país, tanto o Nazismo quanto o Comunismo usavam métodos similares de implementação de políticas estatais repressivas. ‘O regime comunista, assim como o nazista, infligiu danos irreparáveis aos direitos humanos porque, durante sua existência, tinha controle total sobre a sociedade, promovendo perseguições e repressões por motivos políticos, além de violar suas obrigações internacionais e suas próprias constituições e leis’, diz uma nota do departamento de comunicações do órgão. A legislação proíbe os símbolos soviéticos e nazistas no país. De acordo com a lei, quem promover esses símbolos está sujeito a penas de até dez anos de prisão.

“A lei determina a proibição dos símbolos comunistas com o objetivo de ‘evitar um retorno ao passado totalitário’ do país. Por esse motivo, três partidos comunistas que atuavam na Ucrânia foram banidos. Durante o processo de ‘descomunização’, 1.300 monumentos em homenagem a Lenin foram derrubados, 51.493 ruas, praças e locais públicos foram renomeados e 987 cidades mudaram de nome”. (br.historyplaytv – link completo da fonte no final).

“Quando fazia parte da União Soviética, a Ucrânia viveu o Holodomor (ou Holocausto Ucraniano). Estima-se que até 12 milhões de pessoas morreram no período de inverno entre 1932 e 1933 devido ao bloqueio de alimentos imposto ao país por Joseph Stalin. A política fazia parte do processo de coletivização da agricultura, ou seja, a apropriação pelo Estado soviético das terras, colheitas e gado pertencentes aos camponeses que viviam em países soviéticos. A resposta dos agricultores foi desesperada e muitas vezes violenta, havendo numerosas manifestações e revoltas, principalmente na Ucrânia”. (br.historyplaytv – link completo da fonte no final).

“Na visão de Stálin, o governo ucraniano e o Partido Comunista do país tinham sido infiltrados por agentes nacionalistas e espiões poloneses, e as aldeias que resistiam à coletivização estavam sob a influência de agitadores contrarrevolucionários. Por isso, ele teria decidido utilizar a fome para punir os camponeses”. (br.historyplaytv – link completo da fonte no final).

Onze perguntas retóricas

1) Por que o cinema não explora exaustivamente com documentários e filmes os horrores praticados pela ideologia comunista da mesma forma que explora os horrores do nazismo, a despeito de tantas evidências materializadas em documentos, livros e depoimentos?

2) O que explica a relativização que as poderosas mídias dão ao totalitarismo comunista que só na URSS (1917-1991) exterminou mais de 45 milhões de indivíduos?

3) Por que os horrores praticados nos “Gulags” e no episódio conhecido como “Holodomor” são tão desconhecidos no Brasil?

4) Por que muitos fatos históricos são “apagados?”

5) Como entender a complacência ou omissão verbal de muitos em relação a figuras ditatoriais que prometeram a ideologia da igualdade comunista, mas juntas dizimaram milhões de pessoas?

6) Por que a repugnância, merecidamente demonstrada ao nazismo por intelectuais, jornalistas, artistas e professores, não se estende também em relação às figuras e regimes comunistas cujas longas existências é sinônimo de extermínios, terror e repressão?

7) Por que figuras sanguinárias tais como Lenin, Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Fidel Castro e Che Guevara não recebem o mesmo tratamento de saturação negativa que, merecidamente, recebem Hitler e seus colaboradores? Ao contrário, algumas figuras são até elogiadas em livro de pedagogia amplamente divulgado.

8) Por que as pessoas que publicamente pregam ódio ao conservadorismo não sofrem massacre moral da grande mídia?

9) Por que o horror do totalitarismo comunista, que foi praticado na URSS ao longo de 70 anos, nunca foi criminalizado no Brasil e igualado ao Nazismo, regime que durou longos e terríveis 12 anos?

10) O que falta ao parlamento brasileiro para equiparar o Comunismo ao Nazismo, conforme já fizeram o parlamento europeu e diversos países da Europa, tais como Polônia e Ucrânia que sofreram o terrorismo sob o peso da foice do martelo?

11) Por que não existe senso de proporções no Brasil?

Embora perguntas retóricas se destinem à reflexão, a resposta para estas está no título deste artigo.

Quando não é de interesse das poderosas mídias e dos “intelectuais” que povoam as universidades, grandes e consagradas obras literárias são relegadas ao ostracismo.

Nem sempre são as palavras que causam náuseas na grande mídia, no meio político, artístico e intelectual, mas quem as pronuncia. Eis aí uma forma de manipular a linguagem na propaganda.

Adivinhem de quem é a autoria dos seguintes trechos? Todas as fontes estão no final do texto.

1) Perguntado sobre quais líderes admirava, dentre outros, citou Che Guevara, Fidel Castro, Mao Tsé-Tung. Mas sobre Hitler disse: “mesmo errado”, tinha aquilo que ele admirava em um homem: “O fogo de se propor a fazer alguma coisa e tentar fazer”.

2) “Fuzilamentos? Sim! Temos fuzilado! Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte”.

3) “Até no seu estilo inconfundível de narrar os momentos da sua e da experiência dos seus companheiros, de falar de seus encontros com os camponeses ‘leais e humildes’, numa linguagem às vezes quase evangélica, este homem excepcional revelava uma profunda capacidade de amar e comunicar-se”.

4) “Nós sabemos que você é nosso inimigo, mas considerando que você, como afirma, é uma boa pessoa, nós estamos dispostos a oferecer a você o seguinte: um bom paredão, onde vamos colocá-lo na frente de uma espingarda, com uma boa bala, e vamos oferecer depois de uma boa pá, uma boa cova, não é? Com a direita e o conservadorismo, nenhum diálogo, luta!”.

5) “Todos sabemos as estatísticas. Crianças criadas sem um pai tem 5 vezes mais chances de viver na pobreza e cometer crimes, nove vezes mais chances de desistir da escola e 20 vezes mais chances de acabar na prisão.”

6) “Operários! Para nós, nacional-socialistas, vossas organizações são sagradas. Eu mesmo sou filho de camponeses pobres e compreendo a miséria (…) Conheço a exploração do capitalismo anônimo. Operários! Juro-vos, nós não apenas conservaremos tudo o que existe, mas edificaremos a proteção e os direitos dos operários que ainda virão”.

7) “Depois, em seu discurso para mais de cem mil trabalhadores no campo de aviação, (…) levantou o lema ‘Honra ao trabalho e respeito ao trabalhador’”!

Autores

1) O primeiro trecho é da lavra do Sr. Lula, quando entrevistado pela revista Playboy em 1994.

2) O segundo trecho são palavras de Che Guevara em discurso na ONU em 1964 quando, respondendo às insistentes perguntas de conferencistas, admitiu execuções em Cuba.

3) O terceiro trecho são palavras de Paulo Freire referindo-se a Che Guevara. Os elogios encontram-se na cartilha revolucionária marxista, o livro Pedagogia do Oprimido, pág. 232, edição de 2016, editora Paz e Terra. Tal obra é a bíblia pedagógica para uma grande parte dos professores.

4) O quarto trecho são palavras citadas pelo prof. Mauro Iasi, ao se referir a um poema de Bertholt Brecht. No final da palestra, a plateia aplaudiu.

5) O quinto trecho refere-se uma declaração de Barack Obama.
Esta declaração de Obama só se tornou nacionalmente conhecida depois que o General Mourão a repetiu. A repercussão foi negativa, por quê?

6) O sexto trecho não foi retirado de um desses discursos do Sr. Lula; são palavras de Robert Ley, político nazista, chefe da Frente Alemã para o Trabalho durante o governo de Adolf Hitler. Veja na obra de William L. Shirer, livro “Ascensão e Queda do Terceiro Reich”, pág. 277, 1º volume. Detalhes da fonte no final do texto.

7) O sétimo trecho foi o lema dito por Hitler no dia 1º de maio de 1933. A fonte é a mesma do item anterior, também página 277.

Neste dia, 1º de maio de 1933, “os líderes sindicais ficaram surpreendidos com a cordialidade dos nazistas para com a classe operária e cooperaram entusiasticamente com o governo e o partido para fazer do dia um espetáculo”. Após o sucesso deste dia, que Goebbels (ministro da propaganda de Hitler) “havia tão brilhantemente levado a efeito”, já tarde da noite, ele escreve no seu diário: “Amanhã ocuparemos os edifícios dos sindicatos. Haverá pequena resistência”. (Pág. 277).

Eis o que aconteceu no dia 02 de maio de 1933: “as sedes dos sindicatos em todo o país foram ocupadas, os fundos sindicais foram confiscados, os sindicatos dissolvidos e seus líderes presos. Muitos foram espancados e colocados em campos de concentração”.

Muito do que se sabe sobre as palavras de Goebbels tem como fonte preciosa os seus próprios diários que foram exumados pelos agentes do Serviço de Inteligência do Aliados. (pág. Shirer, pág. 177, 1º volume).

Joseph Goebbels: o arquiteto da propaganda moderna?

Goebbels (1897-1945) foi ministro da propaganda de Hitler entre 1933 e 1945. De baixa estatura (um “jovem nanico”, nas palavras de Shirer, pág. 175, vol. I), aos sete anos foi acometido de osteomielite (inflação na medula óssea). Uma cirurgia malsucedida na coxa esquerda deixou sua perna mais curta do que a direita e também definhada. Este problema o obrigava a andar com visível claudicação, que o impediu de participar da Primeira Guerra Mundial e isto lhe causou grande frustração. Entretanto, fez uso do defeito físico fazendo-se passar por veterano de guerra ferido.

Com apenas 24 anos descobriu o movimento nazista em 1922 ao ouvir Hitler falar em Munique. Mas o nazismo só o descobriu três anos depois, “quando Gregor Strasser”, alto membro do partido nazista, “ouvindo-o falar, decidiu que um jovem de talento tão evidente lhe seria útil” (Shirer, pág. 176, vol. I). Aos 28 anos Goebbels já era um orador apaixonado, um fanático nacionalista e possuía cultura universitária sólida, virtude rara nos chefes nazistas. Ganhou uma bolsa de estudos que lhe permitiu realizar estudos em oito universidades alemãs, consideradas as melhores. Doutorou-se em filosofia na universidade de Heidelberg em 1921 com apenas 24 anos. Mas antes de estudar em Heidelberg, ele estudou nas seguintes universidades: Bonn, Freiburg, Werzburg (grafado desta forma na fonte), Colônia, Frankfurt, Munique e Berlim. Nestas instituições, além da filosofia, dedicou-se aos estudos de história, literatura, arte, latim e grego.

Goebbels conhecia bem o poder da propaganda, tanto para construir quanto para destruir imagens. Atribuir nomes pejorativos a alguém e submeter a uma intensa campanha difamatória já era uma técnica utilizada por Goebbels. Também explorava a provocação ao fomentar deliberadamente rixas nas cervejarias e nas ruas para depois explorar a situação mais conveniente. Trouxe elementos da esfera comercial para a propaganda política, tais como “slogans” atrativos e mensagens subliminares. Passou a utilizar letras grandes nos cartazes, tinta vermelha e cabeçalhos codificados para conduzir o leitor a ler os textos mais visíveis para encontrar o significado.

Realmente esta última estratégia é bastante comum nos noticiários de hoje. Não raro nos deparamos com um título de uma notícia em letras grandes, mas ficamos sem entender o significado. O objetivo é aproximar o leitor para ler logo abaixo uma espécie de síntese que traduz o título. Mas nem sempre é revelado o real teor do assunto ou nem mesmo se compreende e, então, é preciso ler o corpo inteiro da notícia.

Esta técnica pretende atingir o maior número possível de indivíduos que não tem hábitos de leitura ou que naquela hora está sem tempo de ler a notícia toda. Neste caso, o leitor fica apenas com a impressão do título e da síntese, com linguagens que muitas vezes não retratam os fatos como realmente aconteceram. O grupo ou indivíduo que se pretende depreciar nem pode reclamar porque a notícia completa está no corpo do texto. Mas para quem não leu a notícia toda, ficará com a impressão dos arranjos linguísticos iniciais.

A Educação no Terceiro Reich

Bernhardt Rust, amigo de Hitler desde o início dos anos 1920, foi nomeado em 30/04/1934 ministro da Ciência, Educação e Cultura Popular do Reich. Rust foi a pessoa ideal para o mundo da desordem do nacional-socialismo. Havia sido demitido em 1930 de uma escola provincial de Hannover por conta de algumas manifestações de debilidade mental, mas foi o seu fanatismo pelo nazismo a causa maior de sua demissão.

Hitler pretendia que a educação no Terceiro Reich não ficasse restrita às abafadas salas de aula, mas que fosse realizada também à maneira espartana, treinando jovens na política e no militarismo. O auge dessa educação não deveria ser, necessariamente, na universidade ou em escolas técnicas, instituições que deveriam absorver apenas uma minoria de jovens. A maioria dos jovens deveria ser absorvida no trabalho compulsório e depois direcionada para as forças armadas.

Shirer (pág. 336) ressalta que Hitler escreveu em seu livro Minha Luta, o seguinte: “A educação total por um Estado nacional não deve primordialmente transmitir o simples conhecimento, mas a construir corpos que sejam fisicamente saudáveis até a medula”. Acentuou em seu livro a significação de atrair e depois treinar a juventude para o serviço “de um novo Estado nacional”. Num discurso em 06/11/1933 disse: “Quando um adversário afirma ‘Não desejo ir para o vosso lado’, digo, calmamente, vossos filhos já nos pertencem (…) Brevemente eles nada conhecerão além da nova comunidade”. (Shirer, pág. 336).

As escolas alemãs, do primeiro grau (ensino fundamental) até as universidades, rapidamente foram nazificadas. Precipitadamente currículos e manuais foram reelaborados. Nas palavras do órgão oficial dos educadores, o livro Minha Luta foi convertido em “nossa infalível estrela polar pedagógica”. (Shirer, pág. 336). Para fortalecer a ideologia, os professores eram enviados para escolas especiais de treinamento intensivo nos princípios nacional-socialistas, onde se destacava as doutrinas raciais. Uma lei de 1937 exigia que os professores fossem os “executores da vontade do partido apoiado no Estado” e prontos, “a qualquer momento, a defender sem reservas o Estado nacional-socialista”. (Shirer, pág. 337).

O resultado desta doutrinação nas escolas e universidades alemãs foi catastrófico. Segundo Shirer (pág. 337), “a história foi tão falsificada nos manuais e pelos professores, em suas aulas, que chegou a ficar ridícula”. Prossegue Shirer na pág. 338 que, “o ensino das ciências naturais, no qual a Alemanha durante gerações ocupara lugar proeminente, deteriorou-se rapidamente”. Grandes mestres foram demitidos ou se afastaram. Os que ficaram começaram a ensinar o que passaram a chamar de física alemã, química alemã, matemática alemã, como se a ciência não fosse universal. De fato, em 1937 circulou uma revista denominada Deutsche Mathematik. (Shirer, pág. 338).

Toda a ciência passou a ser produto do espírito ariano. Até Galileu e Newton foram “consagrados” à raça nórdica. Qualquer ciência que fosse enquadrada fora do contexto da ideologia nazista era reduzida a um nada. O “professor Wilhelm Müller, do Colégio Técnico de Aachen, viu no livro intitulado O judaísmo na ciência, uma conspiração mundial dos judeus para conspurcar a ciência e, com isso, destruir a civilização”. Para ele, Einstein era o maior dos patifes (Shirer, págs. 338 e 339).

Shirer (pág. 339) fala que é surpreendente o fato de tantos professores universitários terem se submetido à nazificação depois de 1933. A minoria que não se submeteu migrou para a Suíça, Holanda e Inglaterra, posteriormente para os EUA.

Prossegue Shirer (pág. 340), “foi um espetáculo de prostituição que manchou a honrosa história da cultura alemã”, escreveu mais tarde o professor Wilhelm (economista). Ainda na mesma página, “o preço desse fracasso foi enorme. Depois de seis anos de nazificação, o número de estudantes universitários caiu mais da metade – de 127.920 a 58.325. O declínio das inscrições nos institutos de tecnologia, de onde a Alemanha tirava seus cientistas e engenheiros, foi ainda maior – de 20.474 a 9.554. O nível acadêmico caiu assombrosamente. Por volta de 1937 ocorria não somente escassez de jovens nas ciências e na engenharia, mas também queda na qualidade”.

A glorificação de uma escola que formasse jovens ideologicamente conscientes de seu papel no Estado, a valorização da não necessidade de uma escola que transmitisse conteúdos técnicos de forma sólida, redundou na baixa qualidade dos colégios técnicos e medíocre preparação dos futuros trabalhadores.

A perda de cientistas pela Alemanha nazista significou ganho para o mundo livre, principalmente na corrida pela primazia da posse da primeira bomba atômica. É uma ironia do destino o fato de a ciência ter sido transformada em uma construção social e de Einstein, com sua teoria da relatividade ter sido classificado como patife, tenha sido exilado juntamente com o físico italiano Enrico Fermi, ambos precursores da poderosa arma atômica.

Ainda bem que a ideologia nazista achava que a ciência era uma construção social e, portanto, poderia ser relativizada como uma invenção ariana.

Algumas considerações sobre o poder da propaganda

A unanimidade do contágio

Os indivíduos são mais suscetíveis à reação dos seus pares quando estão em grupo. Pouco a pouco todos acabam adotando o mesmo comportamento. Trata-se do “contágio pela atração pessoal”. Os indivíduos quando estão deprimidos, sem objetivos concretos para suas vidas, sofrem atratividade por aqueles que se apresentam como possuidor do segredo da felicidade. Quando há um grupo já envolvido numa causa a irradiação do contágio é maior. Os desfiles, os comícios, as manifestações com ocupações de ruas ou prédios são técnicas úteis utilizadas nas propagandas atuais.

O termo “propaganda” neste texto se define como toda mensagem construída não só por governos ou partidos políticos, como também por quaisquer instituições, públicas ou privadas, que tenham objetivos concretos para influenciar ou construir novos comportamentos e atitudes destinados à reivindicação de novas demandas, independentemente de suas viabilidades. É uma espécie de poder invisível capaz de imunizar o cognitivo das pessoas.

A propaganda em busca da unanimidade comumente se aproveita das personalidades famosas tanto no campo artístico, cultural, quanto desportivo. Essas figuras são apresentadas como “personalidades-piloto”. Por mais desinformado que seja um artista, por exemplo, qualquer opinião que ele diga sem o menor conteúdo já é suficiente para arrastar um grande público que o seguirá bovinamente. Ao propagandista que pretende realizar o contágio não interessa a capacidade cognitiva do emissor da opinião, mas apenas a capacidade que ele tem de contagiar milhares de seguidores.

Ainda nesta toada em busca da unanimidade, grupos de intelectuais também são recrutados pelo propagandista para criarem o que pode ser chamado de “ilusão da unanimidade”. O prestígio e a capacidade oratória de muitos intelectuais de contagiar o público ouvinte, em geral cativo, são vistos como peças ideais ao regime, pois darão suporte intelectual à ideologia que se pretende manter ou expandir. Em regra, esses intelectuais falam para um público ouvinte cativo, pois não são submetidos ao contraditório de outro intelectual.

A forma mais comum de ativismo nas propagandas e que tem resultados rápidos é o uso de manifestações de massas. Cada grupo elege uma causa bem específica, identifica o inimigo da causa, cria “slogans”, cânticos ou outros símbolos com o propósito de tornar a multidão numa única massa. Como uma sinfonia, o líder dá o tom e o grupo responde com o mantra criado especificamente para aquela causa.

Também são importantes os gestos, as vestimentas e o linguajar, tudo bem específico para criar territórios e elos de identidade entre os indivíduos. Os gestos e os gritos podem provocar no público efeitos psicológicos e até fisiológicos semelhantes a uma intoxicação, levando a alguns membros do grupo a praticarem loucuras que jamais fariam se estivessem isolados do contingente.

Outra consideração importante desta técnica do contágio da propaganda, é o fato de que o propagandista nunca deve partilhar com o público a totalidade da informação. Significa dizer que todos os argumentos opostos ao que se defende devem ser ignorados ou escondidos. Se não for possível escondê-los, o propagandista deve estar preparado para ridicularizá-los ou tratá-los como insignificantes. Ao apresentar a informação, o propagandista ou líder político, deve transmiti-la como quem apresenta conclusões absolutamente sem possibilidades de contraditório.

A Orquestração ou Saturação

A mensagem da propaganda necessariamente deve ser repetida várias vezes, pois a sua eficácia também depende da frequência da emissão ou da recepção. O auditório (ouvintes) deve ser exposto exaustivamente à mensagem. Goebbels dizia que Estado nacional-socialista devia fazer intenso uso da repetição sem dar chances ao contraditório. Nada muito diferente do que vem ocorrendo em muitas instituições de ensino do Brasil, onde o contraditório é sonegado aos alunos.

Este princípio da saturação não é apenas uma simples repetição exaustiva da mensagem, pois isto pode gerar tédio no público. A forma mais eficaz é fatiar o mesmo tema e abordá-lo sob vários aspectos, ouvindo várias personalidades que, na maioria das vezes, até então desconheciam o produto agora apresentado ao público. Para maior eficiência da mensagem numa direção desejada, nunca se deve ouvir personalidades ou especialistas que pensem de forma contrária. Seria uma forma de anular a eficácia da própria mensagem. Se não tiver outro jeito, recomenda-se o menor número possível de exposição de falas e do tempo concedido a quem tem pensamentos divergentes. Do contrário, não há saturação, vira um debate.

A propaganda que massifica a mensagem deve fragmentar a ideia geral em temas e repetir cada tema até à exaustão. O propagandista deve tomar o cuidado de apresentar os temas já em formato de conclusões e não como ideias passíveis de contraditório. Se isto acontecer e o indivíduo, grupo e atores políticos a serem depreciados pela propaganda souberem explorar, então a propaganda pode se voltar contra quem dela se beneficiaria.

A eficiência do princípio da saturação se completa quando todos os veículos de transmissão repetirem a mensagem e quando todas as personalidades consultadas (políticos, jornalistas de opinião, artistas, intelectuais) estiverem unificadas no mesmo pensamento. Isto ocorrendo, a propaganda terá atingido o seu objetivo, aniquilando por completo o indivíduo e/ou grupo.

Entretanto, nem sempre o objetivo principal da exaustiva mensagem é a ruína de um determinado indivíduo, mas sim atingir outro. É muito comum as propagandas focarem indivíduos que estão na periferia do alvo principal. Em outros termos, ridicularizar, depreciar, ofender e acusar indivíduos periféricos é uma eficiente forma de atingir o indivíduo central.

Ainda nesta seara da saturação, convém ressaltar que a propaganda tem ritmos próprios, portanto, é preciso identificar quando ocorre um novo fato que mereça ser explorado a fim de alcançar os melhores resultados possíveis de audiência. Contudo, é importante prestar atenção para que a exploração de um fato novo não se reverta em contra-ataques dos adversários.

Propaganda de Agitação e Propaganda de Integração

A propaganda de agitação foi elaborada por Jacques Ellul (citado por Pais) e tem a ver com a teoria de Lenin. Segundo o teórico, a propaganda de agitação é mais visível e difundida, portanto, atrai mais atenção. É muito comum entre as oposições, já que este formato de propaganda tem por objetivo a desestabilização do governo na tentativa de implantar uma nova ordem política.

Na obra “Joseph Goebbels: Uma Biografia”, consta que a instrução de Goebbels para a imprensa era enfatizar na propaganda os ataques que ingleses faziam à Berlim. Suas palavras diziam: “Exagerar tudo extremamente a fim de obter álibis morais para os nossos ataques brutais a Londres.” Dessa forma, “os jornais passaram a mostrar imagens e relatos mais veementes dos alvos civis destruídos”. Notícias do tipo “monumentos nacionais, hospitais e bairros residenciais são alvos dos ‘piratas aéreos’ britânicos” era uma forma de legitimar moralmente, junto aos alemães, o bombardeio generalizado de Londres.

A propaganda de agitação conduz ao desencadeamento de ação física por parte da população, bem como mudança no seu comportamento, subversão de hábitos e costumes. Neste caso, as crenças religiosas podem ser consideradas obstáculos aos objetivos da propaganda de agitação, por isso é comum uma lenta, mas contínua “campanha” de depreciação de uma determinada religiosidade como forma de afastar o máximo possível os indivíduos ligados à crença ou relativizá-la com a introdução de ideias estranhas à mesma. Assim, pouco a pouco a crença deixa de ser obstáculo de resistência às pretensões totalitárias.

Totalitarismo, neste século XXI, nasce no seio das democracias modernas, não pela força das armas, mas por um tipo de cultura elaborada propositadamente para subverter os costumes que representam os pilares da civilização que se pretende destruir.

Em tese, a propaganda de agitação necessita apenas dos meios de comunicação mais simples para difundir a mensagem, tais como panfletos e discursos em comissões ou auditórios. Entretanto, a eficiência é assustadoramente maior quando ela dispõe dos meios de altíssima capilaridade como é o caso das redes sociais.

Já a propaganda de integração tem por objetivo conduzir as pessoas a agirem diariamente em prol de uma causa. Sendo de uso prolongado, almeja a formação e a estabilidade de determinados comportamentos. Como se pretende unificar as massas, é um dos instrumentos mais usados pelos governos, embora não seja exclusividade dos agentes públicos. Desta forma, este tipo de propaganda não pretende iniciar uma excitação na sociedade, mas sim provocar lentamente mudanças profundas nos indivíduos, por isso é sutil e só é perceptível para um pequeno conjunto da sociedade.

As grandes máquinas empresariais do mundo das comunicações e do entretenimento fazem uso deste mecanismo de forma prolongada e exaustiva. Sobretudo, se o desejo for a desestabilização de governos que as desagradam. Políticos ingênuos e sem assessorias técnicas com traquejo cultural, acabam sucumbindo diante dos linchamentos diários que extrapolam o senso das proporções.

Como toda ideia que propõe alterar alguma coisa é de imediato vista como vanguardista e, em regra, os intelectuais escritores representam peças importantes para disseminação. Qualquer mudança, por mais absurda que seja, primeiramente aparece na literatura. Após um longo processo de maturação para a consagração do argumento de autoridade, o passo seguinte da disseminação se dá no âmbito das mídias de massas. E aí, o absurdo se torna algo normal, tal como aconteceu na época da Alemanha nazista, que até a física, a química e a matemática foram transformadas em propriedades do nazismo. Não muito diferente do que acontece hoje, quando determinados grupos se apropriam de causas nobres e elegem os inimigos de tais causas. As mensagens veiculadas à exaustão pretendem conduzir à aceitação do público de que somente esses grupos são os verdadeiros defensores.

Assim, considerando que as sociedades são estimuladas a incutir esperanças e ódios e que qualquer tipo de atuação está justificado, o passo seguinte do regime vitorioso que se beneficiou da propaganda de agitação, é controlar a sociedade com a propaganda de integração, tarefa árdua e que demora muito tempo. O novo regime agora busca a eliminação de todos os hábitos e costumes que foram combatidos com a propaganda de agitação. Por exemplo, a campanha contra o capitalismo na propaganda de agitação, agora se transforma em enaltecer um grupo de capitalistas eleitos como vanguardas nos negócios. Aquele político que foi atacado anteriormente, agora é um fiel aliado. E assim o rebanho, como num passe de mágica, se comporta de forma contraditória a cada cenário novo apresentado pelo propagandista.

Pode acontecer, em situações extremas, de a passagem da propaganda de agitação para a propaganda de integração não ser possível. Isto ocorre quando o governo ou grupo, apesar de vitorioso na propaganda de agitação, não consegue influenciar a mesma sociedade que foi influenciada com a propaganda de agitação.

A Contrapropaganda

Nos estados totalitários, em regra, não há necessidade de contrapropaganda. Mas ela é muito comum quando há vários partidos políticos e nenhum deles tem a capacidade de dominar os meios de comunicação para difundir seus ideais de forma avassaladora.

É papel da contrapropaganda identificar as fraquezas e contradições do adversário e formular a desconstrução e depreciação do indivíduo ou grupo alvo. A atuação da contrapropaganda deve focar tenazmente em todos os pontos fracos dos opositores. Identificar a maior fraqueza do adversário e saturar o noticiário com informações seletivas que conduz ao sucesso da contrapropaganda. Nunca se deve tentar combater frontalmente a propaganda do adversário se ela for acolhida pela sociedade. Seria um erro imperdoável.

A contrapropaganda deve tomar o cuidado em elaborar argumentos consistentes. Nada de improviso. Convidar técnicos, especialistas e celebridades respeitadas pelo grosso do público como forma de dar autoridade à contrapropaganda. Argumentos de cunho pessoal, sobretudo de alguma celebridade, ainda que ela tenha baixo nível cognitivo, tem forte apelo junto ao grosso do público. Funciona mais do que os melhores argumentos racionais.

Também funciona bem na contrapropaganda atacar a credibilidade do indivíduo ou grupo colocando-os numa posição de inferioridade. Sempre que possível, a contrapropaganda deve pesquisar provas materiais incontornáveis das contradições na propaganda do adversário, expondo-o à ridicularização, ao escárnio e arrancando risos das pessoas. É o fim do homem público.

É importante evitar que o adversário se mantenha confortável na liderança da opinião pública. Por isso, é preciso depreciar e ridicularizar os nomes, os símbolos e os “slogans” de quem pretende conquistar ou já está no poder.

Por fim, o sucesso da propaganda ou contrapropaganda depende da identificação de cada falha ou defeito do adversário e divulgá-la exaustivamente para a sociedade. Ainda que as falhas ou defeitos sejam irrelevantes.

Princípios importantes para a propaganda

1. Ter acesso a toda informação secreta. Não só ter acesso às informações secretas como também acesso à opinião pública. Em tese, é possível planejar e executar uma propaganda só com a informação existente. Contudo, se há informações que não se tem acesso, é preciso ter a certeza de que a informação existente será suficiente para se adaptar à audiência e ao momento. Desta forma, evita-se a necessidade de se recorrer à elaboração de notícias falsas. Ter acesso à informação secreta, não significa usá-la integralmente ou nem mesmo usá-la. Conhecer além é uma forma eficiente de adequar a propaganda apenas com a informação existente.

2. Planejar e executar a propaganda apenas por autoridade única. Este princípio se adequa muito bem aos regimes totalitários, onde a autoridade é concentrada. Entretanto, mesmo nas democracias, grandes empresas, redes de comunicações e governos acabam se rendendo à necessidade de concentrar o planejamento e a execução da propaganda, delegando a tarefa a pequenos grupos de pessoas sintonizadas com as mensagens que a instituição deseja passar ao público. Governos ou empresas que não primam em concentrar o planejamento e a execução da propaganda correm riscos de se contradizerem e acabam fornecendo munição para os adversários. Concentrar o planejamento é muito importante para unificar o discurso de um governo ou de uma instituição, evitando as incômodas contradições. Desta forma, facilita a construção de uma personalidade para representar o máximo possível os variados anseios de uma sociedade, inclusive os anseios dos próprios adversários que podem ser os mesmos do conjunto da população. Quem não quer mais segurança, mobilidade urbana, qualidade na saúde e educação?

 3. Considerar as consequências de uma propaganda durante o planejamento da própria ação. Significa dizer que todos os resultados devem ser previamente considerados, principalmente os negativos, os quais podem motivar a não veiculação da propaganda. É melhor abortar uma propaganda que trará efeitos negativos do que elaborar outra propaganda para tentar minimizar os efeitos da anterior.

4. A propaganda deve afetar as políticas e as ações do adversário. Se a propaganda é um “braço da guerra”, ela deve ir além da moral do inimigo. A propaganda deve afetar as ações do inimigo de quatro formas:

a) Não elaborar uma propaganda que entregue ao adversário material para ele fazer a contrapropaganda. Governos ingênuos, sem experiência no jogo político ou sem assessoria técnica, ficam o tempo todo produzindo farto material de contrapropaganda. O inimigo nem precisa elaborar sua própria contrapropaganda, fica apenas monitorando cada passo errado do adversário. Neste caso, a fonte da contrapropaganda é fidedigna porque é produzida pela própria pessoa, grupo ou instituição que se deseja depreciar, ridicularizar ou acusar;

b) A propaganda deve fornecer ao adversário material para levá-lo a tirar conclusões erradas. Quando o inimigo tira conclusões falsas e as divulgam na ânsia de prejudicar seu rival e, imediatamente, tais conclusões são ridicularizadas, o alvo da propaganda negativa tira proveito da situação e expõe negativamente ao público a pessoa ou grupo que tirou as tais conclusões erradas;

c) Incitar o adversário para que ele forneça informações vitais sobre ele mesmo. Com tais informações é possível explorar outras fraquezas do inimigo;

d) Não fazer referências a uma ação provocativa do inimigo sobre uma atividade que esteja em curso ou sendo planejada, tendo em vista que qualquer resposta poderia desacreditar a própria atividade.

5. É necessário ter informações operacionais disponíveis para formulação da propaganda. Seja qual for o objetivo da propaganda, o propagandista necessita de material operacional que não entre em conflito com os regulamentos da segurança. Contudo, se o material disponível não for suficiente, o propagandista não deve se acanhar em “construir” situações e eventos que possam ser usados futuramente na elaboração de notícias, ou até mesmo para a continuação de uma determinada campanha difamatória.

6. Estimular os interesses da audiência e transmitir a propaganda por meio dos veículos de comunicação de massa. “É muito trabalhoso criar os noticiários semanais e torná-los armas eficazes de propaganda (…) mas é um trabalho que vale a pena: milhões de pessoas constroem a sua percepção da guerra, as suas causas e os seus efeitos, a partir dos noticiários”. Documentários no momento certo são importantes para gerar novas percepções sobre fatos e personagens tanto históricos, quanto contemporâneos.

7. Verdade ou a mentira? O propagandista deve enfatizar que ele fala verdade e os inimigos mentem. Parece óbvio, mas na hora de uma fala sóbria ou carregada de emoções, com ou sem apresentação de fatos, imagens e/ou coreografias, funciona bastante diante do público. Não explorar as emoções de um público cativo pode ser um erro grave.

Sempre que possível a verdade deve ser usada, caso contrário os argumentos podem ser desacreditados. Há propagandistas que analisam até que ponto o público é incapaz de perceber as mentiras.

Sobre falar mentiras nas propagandas, o regime nazista admitia o uso da mentira “sempre que fosse mais conveniente e quando não existisse a hipótese de ser refutada”.

Somente falar a verdade pode afetar a credibilidade em certas circunstâncias. É importante perceber que as verdades proferidas num determinado momento, podem não ser mais verdades em outro momento. Mudanças do rumo dos acontecimentos podem tornar inexistentes no presente as verdades sobre fatos constatados no passado. Em outros termos, aquele fato constatado em outra época não existe mais para continuar sendo confirmado. Se todo mundo acredita na existência de alguma coisa, porém ela não existe mais, dizer a verdade pode soar como mentira. Ninguém acreditaria em quem proferisse a verdade. Neste caso, o momento “ótimo” para dizer a verdade pode ainda não ser tão logo no momento em que se constate a nova realidade dos fatos. Ter paciência e soltar a mensagem verdadeira no momento certo é uma forma de obter a credibilidade da opinião pública e evitar ruídos na comunicação. Uma verdade fora de hora pode trazer mais prejuízos do que manter uma mentira.

8. Analisar se o conteúdo, a eficácia e o tempo de exposição da propaganda do adversário merecem uma resposta ou simplesmente ser ignorada. Na época do regime nazista havia o medo de que os alemães não estivessem de fato convertidos ao nazismo e portanto sujeitos à influência de propagandas de outros países. Por isso, existia a cautela até na hora de se refutar uma contrapropaganda do inimigo, pois emissões de rádio estrangeiras chegavam até aos alemães. Nem sempre o aparelho de propaganda nazista refutava a propaganda inimiga. Entendia-se, obviamente, que o objetivo desta era sempre o de desacreditar o regime nazista, então para que refutar? Qualquer resposta do regime poderia despertar reflexão na opinião pública e o efeito seria negativo. Optou-se apenas por responder às falsidades mais graves que a propaganda do inimigo atribuía à Alemanha daquela época.

O regime nazista analisava cuidadosamente o seu próprio aparelho de propaganda para descobrir os efeitos de uma possível refutação à propaganda do inimigo. Queria descobrir se o adversário lucraria com sua refutação ou se os nazistas sairiam vitoriosos caso elaborasse um contraditório. Se os efeitos de uma refutação fossem negativos, o aparelho de propaganda desistiria de dar qualquer resposta.

9. Analisar se o material de propaganda deve ou não ser ignorado. Quando se trata de um regime totalitário a censura filtra qualquer coisa. Entretanto o regime nazista não abusava da censura. Mesmo sendo um regime totalitário, capaz de censurar qualquer coisa, nem sempre se recorria à censura. Havia o reconhecimento de que seu uso excessivo e desnecessário poderia colocar em risco a credibilidade do regime. Por exemplo, não censurar as emissões de rádio internacionais, dando aos alemães acesso a notícias estrangeiras, seria uma inteligente forma de evitar confrontos desnecessários com a opinião pública. Com isto, pretendia-se manter a credibilidade e esperar novos fatos que pudessem indicar a melhor opção: censurar ou não censurar. De que forma seriam comunicadas as informações, quais deveriam ser comunicadas e quais poderiam ser censuradas era um exercício constante de inteligência na cúpula do partido nazista.

10. Analisar quando a propaganda enfraquece o adversário ou quando é positiva para o propagandista. Fazer uso das palavras do próprio adversário ajuda nos objetivos da propaganda. O regime nazista lançou mão desta estratégia, por exemplo, ao divulgar o seguinte: “Esta manhã publicamos na imprensa alemã uma coleção de mentiras antigas ditas por Churchill (…) esta coleção está a causar grande impressão na imprensa dos países neutros e mostra Churchill tal como ele é, o Almirante da Incapacidade”.

11. Propaganda “White” ou propaganda “Black”? A propaganda “Black”, provém de material cuja fonte é desconhecida por parte do público, pois sua fonte é ocultada. O nazismo usou bastante esta forma criativa de propaganda. Já a “White” é aquela que provém de fontes reconhecíveis e que transmite informações claras e precisas.

De fato, é comum ouvirmos palestrantes ou lermos noticiários com expressões tais como: “pesquisas indicam….” ou “estudos confirmaram…”, mas sem indicação das fontes. Quando se trata de uma celebridade ou jornalista de opinião ou um de um apresentador de prestígio, ainda que se trate de profissionais de baixo potencial cognitivo, o auditório tende a dar credibilidade. Não se pergunta a fonte e tampouco se coloca em dúvida a palavra do emissor. Se for um intelectual popular, porém desonesto, o estrago é bem maior.

12. Ter líderes com prestígio favorece a propaganda. As ideologias totalitárias sempre enfatizaram a importância do líder. Utilizar líderes de prestígio para veicular as ideias de um regime, de uma filosofia ou de um partido político é crucial para o sucesso da propaganda, pois é fato que a propaganda ganha credibilidade quando sua fonte está associada a um líder. Numa época de crise, o prestígio de um líder pode arregimentar movimentos capazes de alterar a correlação de forças na política.

É por isso que na contrapropaganda o foco é o líder, esmiuçando-se detalhes de sua vida. Quando há dificuldades em depreciá-lo, então o propagandista passa a pesquisar os defeitos dos colaboradores, tendo por objetivo fazer uma campanha associativa entre o líder e os seus colaboradores dizendo que as ideias maléficas deles é reflexo do que realmente o líder representa.

13. O timing da propaganda. É importante perceber o “timing” da propaganda, cronometrando-a cuidadosamente. É crucial saber o momento certo de colocar a propaganda em circulação e o seu tempo de duração. Agilidade e plasticidade são fundamentais. Além disso, o propagandista tem a obrigação de perceber antecipadamente o rumo dos acontecimentos. A mensagem que ele construiu deve chegar à audiência antes da propaganda do adversário. “Quem disser a primeira palavra tem sempre razão”. Obviamente desde que a primeira propaganda deixe o inimigo sem a possibilidade de uma contrapropaganda.

Caso a propaganda não tenha sido divulgada no tempo “ótimo”, e se tiver que recorrer à contrapropaganda, esta deve ser feita o mais rapidamente possível.

Sem descuidar do “timing” ideal, é preciso ter a capacidade de perceber que a mensagem propagandística deve ser repetida, mas sem que o tema se torne aborrecedor. A repetição que era a forma de interiorizar a mensagem no público-alvo pode aborrecer ao invés de impressionar, perdendo a eficiência. Mas, tão logo a técnica da repetição tenha se consolidado no público-alvo, tornando-o completamente convertido, a propaganda deve ser retirada. Esta técnica da repetição já foi alvo do tema no item princípio da “Orquestração” ou “Princípio da Saturação”, ideia desenvolvida por Jean Marie Domenach e Norberto Bobbio, conforme cita Pais em sua dissertação.

14. Eventos e pessoas devem ser distinguidos por “slogans”. As frases chamativas e “slogans” têm valores de suma importância. Mensagens em pequenas frases nos “slogans” encerram uma ideia conclusiva. As palavras certas no momento oportuno têm grande efeito no público. Por tal razão, os “slogans” devem estimular respostas que o público já conhece. Se as palavras provocam determinadas respostas, a mensagem deve ligar as palavras ao evento como forma de intensificar a sua influência. Os “slogans” devem ser de forma a facilitar a memorização. Eis aí o princípio da simplificação bastante utilizado por ideologias totalitárias. É importante frisar que mensagens transmitidas por “slogans” não podem permitir brechas a questionamentos.

É recomendável olhar para o aprendizado antigo e prestar atenção à reação do público a determinado símbolo verbal, se foi de rejeição ou aceitação. Analisar o contexto em que ocorreram as reações ao uso de certos termos. Há determinadas palavras que não devem ser usadas de forma nenhuma, correndo-se o risco de sofrer um “efeito boomerang”. Por exemplo, o ministro da propaganda do regime nazista ressaltou a necessidade de se evitar as palavras “sabotagem” e “assassínio”. Considerando que tais palavras têm carga negativa, subitamente e de forma não prevista, tais palavras poderiam ser associadas à propaganda nazista.

15. Não estimular falsas esperanças. A propaganda não deve apresentar mensagens esperançosas que possam ser questionadas por conta de acontecimentos futuros. Por exemplo, numa guerra divulga-se uma mensagem de possível vitória. A antecipação de uma vitória, seja a nível militar ou político, de imediato haveria um benefício, estimularia a confiança no povo ou nos correligionários e aumentaria a ansiedade nos inimigos. Entretanto, confirmando-se um fracasso, o regime perderia credibilidade.

16. Controle da ansiedade. Controlar os níveis de ansiedade é uma das tarefas mais árduas e difíceis de realizar. A propaganda direcionada à população deve focar o nível “ótimo” de ansiedade. A ansiedade pode ser analisada sob dois aspectos: a) muita ansiedade produz pânico e desmoraliza as pessoas; b) pouca ansiedade conduz à complacência e à inatividade.

O propagandista deverá encontrar o ponto de equilíbrio, para isto, recomenda-se o seguinte: a propaganda deve explorar a ansiedade correlacionada com as consequências de uma derrota. Os objetivos de uma guerra ou de uma acirrada disputa política, necessariamente estão relacionados com o fator ansiedade do povo e com os envolvidos diretamente nas disputas. No caso de uma guerra, por exemplo, “o povo deve permanecer convencido de que os fatos mostram que a guerra ataca as suas próprias vidas, mas após a vitória há a possibilidade de desenvolvimento nacional”. Deixando claro para o povo que, a despeito das tragédias de uma guerra, se vislumbra progresso com o seu término. Eis aqui uma balança de controle da ansiedade e maior envolvimento da população no apoio ao conflito.

Eventualmente poderia haver a necessidade de se aumentar moderadamente a ansiedade do povo no que tange a um acontecimento específico. Por exemplo, a desastrosa campanha alemã na Segunda Guerra no rigoroso inverno russo. Sobre isto, o ministro da propaganda de Hitler “emitiu ordens para que a imprensa alemã lidasse com a situação no Leste de forma favorável, mas não muito otimista”, para não criar falsas esperanças. O foco da imprensa seria não preocupar a opinião pública sobre a real situação alemã neste quesito específico.

Por outro lado, a propaganda não pode descuidar do momento ideal para diminuir a ansiedade da população. Neste quesito, o referido ministro faz referências tanto aos bombardeamentos aéreos por parte dos Aliados, quanto ao número de soldados mortos em combates na Tunísia (Norte da África). No primeiro caso, nada poderia ser feito para diminuir a ansiedade. No segundo caso, a propaganda deveria apresentar o número real de mortos e, de imediato, retirar a importância da questão, dizendo que tais perdas em nada contribuem para diminuir a possibilidade de vitória no final do confronto.

17. Diminuição da Frustração. A propaganda deve evitar aquelas mensagens cujos conteúdos possam gerar frustrações no futuro. Se não for possível evitá-las totalmente, pelo menos, diminuí-las. Isto tem relação com a divulgação das falsas esperanças. Não sendo divulgadas falsas esperanças, significa menor possibilidade de frustração. Entretanto, além das falsas esperanças, outras variáveis podem contribuir para a frustração. Se a frustração for inevitável ela deve ser antecipada. Esta antecipação elimina o elemento surpresa ou choque e a frustração não será tão elevada. Um exemplo bem cristalino vem da Alemanha na época do nazismo: o povo alemão foi avisado previamente sobre a racionalização de alimentos.

Ainda no caso de a frustração ser inevitável, ela deve ser colocada em perspectiva. Significa informar panoramicamente a situação de um problema. Caso contrário, a credibilidade do regime cai de nível, dificultando, futuramente, pedidos de certos sacrifícios.

18. Estímulos ao ódio. Trata-se de um tema delicado e que foi muito explorado no regime nazista. O objetivo central da propaganda nazista mirava dois alvos: os bolcheviques e a burguesia capitalista representada através dos judeus. Nesta situação, o regime almejava criar desavenças e suspeitas entre pequenos grupos minoritários. E isto tem impacto tanto para gerar hostilidades entre nações, quanto no interior das mesmas.

De fato, explorar o ódio e intrigas, fica mais fácil quando já existe até mesmo um distante passado histórico de hostilidades ou mesmo quando existe algo latente. Neste caso, políticos, grupos de movimentos ativistas, pessoas comuns, a máquina de propaganda, inclusive as que não têm relação com o aparelho estatal, podem, maliciosamente e de forma sutil, explorar cada situação específica para atingir os seus objetivos. Desta forma, sem que que as pessoas percebam quem engendrou as contendas, todos já estão em conflito.

Todas as sociedades contemporâneas (ou quase todas) tiveram passados conflituosos. Guerras, escravidões e segregação de diversos grupos étnicos por milênios deram o tom da jornada que chamamos de civilizatória. Apesar disto, povos anteriormente em pontos opostos hoje se confraternizam e seu indivíduos se casam e formam gerações com laços sanguíneos impensáveis nas épocas de conflitos. O transcorrer dos tempos, as mudanças sociais e o reconhecimento de direitos são compostos geradores da paz tanto dentro de países formados por diversas nações, quanto entre nações outrora inimigas.

Entretanto, os conflitos do passado são usados para instrumentalizar mensagens subliminares sem que o público alvo perceba. As mensagens sutis invocam questões já superadas ou até a caminho de uma superação. E assim, pouco a pouco, recomeçam as desavenças, atrasando o aperfeiçoamento das convivências. Em alguns casos, os estímulos ao ódio acabam retrocedendo a níveis lamentáveis ao aproximar tempos históricos distantes com os tempos contemporâneos.

19. A propaganda não pode afetar diretamente as tendências e os comportamentos. A propaganda não pode afetar diretamente as tendências e os comportamentos, mas deve apresentar novas formas de atuação ou diversão, ou ambas. O teórico americano Doob (citado por Pais em sua dissertação), disse que o ministro da propaganda do regime nazista chamou atenção para duas palavras da língua alemã: “Haltung”, que significa conduta ou comportamento observável, e “Stimmung” que significa espírito, sentimento ou disposição. O objetivo do referido ministro era incutir no povo alemão estes dois compostos da moral, do modo mais benéfico possível. O vocábulo “Stimmung” tinha uma certa volatilidade, logo, poderia ser afetado com facilidade. Já o vocábulo “Haltung” tinha que ser mantido a todo o custo, do contrário, o regime poderia perder o seu pilar.

Concluiu Goebbels que, não sendo possível combinar as duas coisas, o “Stimmung” deveria ser ignorado e conduzir o povo a manter as aparências e assim colaborar com o esforço de guerra, independentemente de qual fosse o seu estado de espírito (“Stimmung”). O importante era manter a conduta (“Haltung”), pois esse vocábulo expressa a visibilidade que todos podem ver, que é a conduta dos indivíduos, suas ações, e assim mantinha-se as aparências.

O ministro da propaganda de Hitler sabia que existiam questões incontroláveis pelo aparelho de propaganda e só grandes vitórias poderiam alterar a situação incontrolável. Por isso ele escreveu: “Neste momento não podemos fazer grandes alterações na propaganda, temos que mais uma vez conseguir uma grande vitória”.

20. Deturpar significados e depreciar palavras e valores que identificam o inimigo. Este número 20 não consta das análises feitas nos manuscritos de Goebbels, tem como base a regra de experiência. Tem por objetivo dar o tom de uma sequência interminável de narrativas sobre diversos outros assuntos.

Deturpar o real significado de palavras que identificam um determinado grupo ou pessoas é uma estratégia eficiente para ridicularizar e depreciar o adversário. Por exemplo, o termo “tradicional” acrescentado à palavra “família”, pretende passar a mensagem para o público de que existe uma tal “família tradicional” que é opressora e que não aceita outras modalidades de famílias diferente da relação entre um homem e uma mulher. Esta construção maliciosa se dá no contexto de reivindicações para o reconhecimento de famílias formadas por dois homens ou por duas mulheres, ou por um homem e duas mulheres, ou por uma mulher e dois homens e por aí vai.

A intenção dos ativistas desde o início não é apenas o reconhecimento de novos arranjos familiares, mas também a depreciação de maneira subliminar da família formada por um homem e uma mulher que passou a ser chamada pejorativamente de “família tradicional”. Para o reconhecimento e expansão desses novos arranjos de famílias impõe-se, necessariamente, identificar o inimigo que obstaculiza o reconhecimento do que se denomina de “família moderna”, e este inimigo foi chamado de “família tradicional”.

O sucesso desta narrativa que se apresenta como defensora da chamada “família moderna”, dentre outros efeitos psicológicos, chama atenção de um deles. Para os olhos mais atentos de quem está na faixa etária pelo menos a partir dos 40 anos, já é perceptível uma espécie de indução à “feminização” de rapazes héteros. Explico: o bombardeio depreciativo diário contra a heteronormatividade conduz jovens a adotarem posturas ou condutas afeminadas. Vestimentas, adereços, gestos e até o modo de andar começam a ser incorporados pouco a pouco de forma tão sutil que a geração ora bombardeada não percebe. Por isso que mencionei faixas etárias acima dos 40 anos como observador externo. Quem é bem mais jovem não terá esta percepção porque não tem o referencial de ter vivido na geração anterior.

O uso do termo “heteronormatividade” tem por objetivo dizer que as orientações sexuais diferentes da heterossexual são marginalizadas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas por quem se identifica como heterossexual, mesmo que isto não seja a regra. É uma forma sutil de conduzir mentes em formação a não agirem como um hétero. O território ideal para essa engenharia social são as instituições de ensino e os veículos de comunicação e entretenimento que verbalizam o pacote por meio de professores e de suas celebridades. Se, ser machista, opressor ou retrógrado não é algo bom, significa também que ter postura de hétero também não é algo bom.

Para apimentar o conflito e aumentar a exposição negativa da chamada “família tradicional”, o cristianismo foi inserido como religião que sustenta este formato de família. Os engenheiros sociais entenderam que depreciar as relações familiares com a intensa exploração dos pontos negativos que concretamente ocorrem nas relações entre maridos e esposas e entre pais e filhos, seria a porta de entrada para se alcançar outro objetivo: acusar o cristianismo de intolerante e protestar contra essa intolerância por meio da liberdade artística.

Na verdade, direito à liberdade de expressão artística foi apenas um instrumento para esconder a real intenção: depreciar e ridicularizar o cristianismo sem se expor a acusações de preconceito religioso. Sendo as artes tema sensível para as celebridades e grandes empresas de comunicações e de entretenimento, quem se atrever a protestar, prontamente será enquadrado como adepto da censura, que deseja a volta da ditadura, que é intolerante e por aí vai. Não faltariam microfones para reforçar a narrativa contra a sociedade conservadora. É por isso que ficou fácil dizer subliminarmente que o cristianismo estimula a opressão do homem sobre a mulher, do hétero sobre o homossexual e que tal religião condena a formação de novos tipos de famílias, sem que nada disso desperte ondas de protestos capaz de equilibrar o jogo das narrativas. Pelo contrário, refutar a narrativa implica em derrota porque os donos da narrativa dominam as grandes máquinas de propagandas.

Percebam que a partir da narrativa da depreciação da chamada “família tradicional” foi possível explorar negativamente o cristianismo, criar as lutas entre homens e mulheres, entre héteros e homossexuais e colocar filhos contra pais. E ainda de quebra, dizer que precisamos nos livrar de uma tal heteronormatividade e que os conservadores são perpetuadores da intolerância.

Sem a construção de um antagônico para ser depreciado à exaustão fica mais difícil dar visibilidade ao movimento que, na verdade, tem outras pretensões que vão muito além de um simples reconhecimento dessas tais “famílias modernas”. O uso apenas do vocábulo “família”, quaisquer que sejam os arranjos de seus componentes, não possibilita a instrumentalização ideológica na busca de alteração das mentalidades. É por isso que, atualmente, dizer que é adepto dessa da tal “família tradicional” e não da “família moderna”, a depender do ambiente, significa passar uma imagem de retrógrado, opressor e intolerante. Coisas que as pessoas não querem ser.

Outro termo que também já entrou na lista de pejorativos da maioria dos artistas, apresentadores, intelectuais, jornalistas, dentre outros atores sociais, é o vocábulo “conservador”. Talvez de forma mais acentuada do que ocorre com a “família tradicional”, se declarar conservador, dependendo do território onde se esteja, significa passar a imagem de retrógrado, reacionário, fascista, opressor, intolerante e tudo o que não presta. A repetição à exaustão dessas provocações é tão avassaladora que muita gente já começa a sentir vergonha de identificar seu perfil comportamental como sendo o de um conservador, achando que o termo tem a ver com as tais palavras depreciativas.

Na verdade, nem mesmo pessoas de perfil conservador sequer sabem o que significa “conservadorismo”. Não é uma categoria política e tampouco uma ideologia. Tem a ver com a própria natureza humana de dar continuidade à sobrevivência, conservando as conquistas e o conhecimento acumulado ao longo de milênios. As gerações mais velhas transmitem para as mais jovens o arsenal de valores morais, costumes e conhecimentos até então acumulados, para que estas aperfeiçoem e acumulem mais conquistas.

Ser conservador significa evitar aventuras ideológicas que podem provocar retrocessos no processo civilizatório. Significa prezar os avanços sociais, o aperfeiçoamento dos costumes, a tolerância, as liberdades em geral e tudo aquilo que conduziu a humanidade desde a pré-história até os dias atuais. Se esse instinto conservador não existisse na humanidade não teríamos acumulado conhecimentos para as gerações seguintes aperfeiçoarem. Estaríamos ainda vivendo nas cavernas.

O fato é que os cabeças dos movimentos encarregados de propagarem a depreciação e deturpação do real significado do vocábulo “conservador” têm a intenção de criar um antagônico. Trata-se da moderna luta de classes que não deu certo entre burgueses e proletários. A luta entre essas categorias econômicas perdeu o sentido quando o capitalismo ingressou na fase distributivista. O “modus operandi” daquela velha luta de classes foi transferido para o campo cultural. Onde for possível inventar um inimigo lá estará a nova luta de classes. Heterossexual × homossexual, homem × mulher, ambientalista × não-ambientalista, branco × negro, magro × gordo, pais × filhos, e assim por diante até à exaustão do ridículo.

Esses dois vocábulos, “família tradicional” e “conservador”, foi apenas para exemplificar como funciona a máquina de propaganda que atua para depreciar e deturpar o significado de vocábulos e depois os associar a pessoas e grupos que não se enquadram no viés político detentor do segredo da felicidade.

Dada a eficiência da depreciação dos termos, os grupos que praticam essa engenharia social também têm sofrido ao serem acusados daquilo que realmente são: comunistas ou socialistas. Sabiamente começaram a fazer a transição e já estão adotando o termo “progressista” e “progressismo”, vocábulo que, por definição, transmite a ideia de progresso. Ora, quem não quer progredir? Para muitos, orgulhosos de serem comunistas, pode até custar caro abrir mão de termo tão consagrado. Mas os camaleões não se importam em mudarem de cor, querem sobreviver sem perderem as suas essências. E mudarão seus vocábulos quantas vezes forem necessárias.

Conclusão

Todos os princípios expostos anteriormente, exceto o de número 20, tiveram por base os estudos realizados numa série de manuscritos que compõem um conjunto de cerca de 6800 páginas de documentos que pertenciam ao regime nazista. Tal material foi recolhido pelos Aliados quando do desfecho da Segunda Guerra Mundial e encontra-se na posse das autoridades americanas desde 1945.

Esses manuscritos são atribuídos a Joseph Goebbels, ministro da propaganda do Terceiro Reich, escritos entre 21 de janeiro de 1942 e 9 de dezembro de 1943. A despeito da ausência de provas concretas ligando Goebbels aos tais manuscritos, o pesquisador americano Leonard W. Doob, uma das fontes para a dissertação mencionada no final deste texto, parte do princípio de que foi o ministro da propaganda do regime nazista quem os escreveu ou ditou o que se encontra nos referidos manuscritos. O objetivo era orientar a máquina de propaganda do regime nazista.

Pelo que foi exposto, ficou perceptível que a máquina de propaganda atual, independentemente de sua natureza, faz intenso uso das técnicas aqui expostas. Não sejamos hipócritas para negar esta realidade numa postura politicamente correta. Afinal, adotar tal postura também não é um controle de linguagem tão presente nos princípios dos manuscritos de Goebbels? Quaisquer instituições, privadas ou públicas, dotadas de algum poder capaz de influenciar a população, se tiverem objetivos importantes a serem alcançados, não se acanharão em fazer uso dos princípios e técnicas compiladas dos manuscritos de Goebbels.

Conforme se viu nos princípios ora elencados, a propaganda é a arma mais importante, tanto numa guerra, quanto em tempos de paz. Serve para mudar comportamentos e antigos costumes. Transforma patifes em boas pessoas e homens honestos em patifes. Bem direcionada e com foco preciso e na hora certa a propaganda pode levar as pessoas à histeria e a acreditarem nos absurdos. Pode conduzir as pessoas a não acreditarem no que estão vendo, mas sim no que está sendo dito e quem está dizendo.

Após a análise dos princípios que são atribuídos a Goebbels, percebe-se claramente o cuidado e a frieza com que ele elaborava a propaganda do Terceiro Reich. Os meios de comunicação presentes na época do regime nazista eram os jornais impressos, o rádio, o cinema, os panfletos, o teatro, os discursos em comícios, as escolas e os desfiles cívicos e militares. Para cada meio poderia ser empregada uma técnica específica. Arranjos com as palavras certas para os textos de jornais, entonação no calibre certo da voz para os noticiários de rádio e os discursos, frases curtas e de impacto em panfletos e títulos de notícias jornalísticas, cores chamativas para as mensagens, vestimentas e coreografias nos desfiles, qual o perfil de público a ser atingido por uma determinada propaganda, enfim, tudo, absolutamente tudo era milimetricamente analisado por Goebbels. Se, numa análise prévia, fosse detectada consequências negativas de uma propaganda, sua circulação era abortada.

Por fim, construir reputações ou destruí-las é uma questão de saber usar a técnica. Explorar de forma negativa e exaustiva cada falha, cada erro e cada palavra inoportuna do adversário é tarefa para estrategistas da propaganda e da linguagem. Em tempos onde cada pessoa pode ser a fonte de uma falsa informação, fica muito tirar fatos do contexto e repeti-los à exaustão até aniquilar inocentes. Quando a grande mídia erra, ela não dá espaço para ser contraditada. No máximo ela para de falar sobre o assunto. Mas a reputação já foi aniquilada.

Cuidado quando você for jogar um livro mofado e com cupim no lixo. Se certifique de que não tem um vizinho filmando. Você pode ser exposto negativamente para todo país e ser acusado de fascista, retrógrado, intolerante e que joga o conhecimento no lixo.


Fontes:

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FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 62ª edição. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro/São Paulo, 2016.

LONGERICH, Peter. Joseph Goebbels – Uma biografia. Editora Objetiva. Edição do Kindle. 2020.

PAIS, Sandra Simões. Propaganda – da teoria à prática: uma análise da propaganda nazi. Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Ciência Política. Universidade da Beira Interior. Covilhã, Portugal, 2012.

SHIRER, William L. Ascensão e Queda do Terceiro Reich – Triunfo e Consolidação (1933-1939). 1º volume, 2ª edição. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2017.

Obs.: Esta obra foi publicada pela primeira vez nos EUA em 1960. Os dois volumes da obra contam 1570 páginas. William L. Shirer (1904-1993) foi um historiador e jornalista correspondente de guerra diretamente da Alemanha desde o início da Guerra e cobriu a queda do Terceiro Reich.

https://www.diarioleiria.pt/noticia/49565 – Edição de 17/10/2019 – Acessado em 20/01/2020

https://adrenaline.uol.com.br/forum/threads/paises-onde-o-simbolo-do-comunismo-e-proibido.460534/ – Acessado em 20/01/2020

https://br.historyplay.tv/noticias/justica-da-ucrania-confirma-lei-que-equipara-o-comunismo-ao-nazismo – Acessado em 20/01/2020

https://veja.abril.com.br/blog/cacador-de-mitos/a-ucrania-acaba-de-proibir-partidos-comunistas-o-brasil-deveria-seguir-o-exemplo/ – Acessado em 20/01/2020

https://pleno.news/brasil/politica-nacional/psdb-critica-lula-e-lembra-quando-petista-elogiou-hitler.html – Acessada em 18/01/2020

https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2020/01/psdb-diz-que-admiracao-por-nazismo-nao-e-so-de-alvim-e-o-compara-a-lula-ck5ig1mwc00sa01octoyi5hgj.html – Acessada em 18/01/2020.

https://www.youtube.com/watch?v=Ot0UjQUhr9g – Acessada em 18/01/2020. Há outras fontes.

https://www.youtube.com/watch?v=1Ls6edhtDDI – Acessada em 18/01/2020.

https://www.youtube.com/watch?v=pb0hQjJdQnE – Acessada em 18/01/2020.


Grandes Obras sugeridas

APPLEBAUM, Anne. A Fome Vermelha – A guerra de Stalin na Ucrânia. 1ª edição. Editora Record. Rio de Janeiro/São Paulo, 2019.

DIKÖTTER, Frank. A Grande Fome de Mao. A história da catástrofe mais devastadora da China, 1958-1962. 1ª edição. Editora Record. Rio de Janeiro/São Paulo, 2017.

GELLATELY, Robert. A Maldição de Stalin – O projeto de expansão comunista na Segunda Guerra Mundial e seus ecos para além da Guerra Fria. 1ª edição. Editora Record. Rio de Janeiro/São Paulo, 2017.

KIMBAL, Roger. Radicais nas Universidades. Como a política corrompeu o ensino superior nos Estados Unidos da América. 1ª edição. Editora Peixoto Neto. São Paulo, 2009. (Publicado pela primeira vez nos EUA em 1990).

KRAENSKI, Mauro Abranches. PETRILÁK, Vladimír. 1964 – O Elo Perdido – O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista. 1ª edição. Vide Editorial. Campinas, 2017.

PACEBA, Ion Mihai. RYCHLAK, Ronald J. Desinformação – Ex-chefe de espionagem revela estratégias secretas para solapar a liberdade, atacar a religião e promover o terrorismo. 1ª edição. Vide Editorial. Campinas, 2015.

SKOUSEN, W. Cleon. O Comunista Exposto. 1ª edição. Vide Editorial. Campinas, 2018.

SOLZHENITSYN, Aleksandr. The Gulag Archipelago (Obra baseada nos testemunhos de pelo menos 200 sobreviventes (inclusive do autor) dos campos de concentração da então URSS. O autor foi preso e condenado a trabalhos forçados num campo de concentração. Seu crime foi criticar Stalin.). Esta obra é facilmente encontrada em inglês. Edições em português muito raras.

SOLJENÍTSIN, Alexandre. Arquipélago Gulag – 1918-1956. Círculo do Livro S.A. São Paulo, 1973.

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. É Realizações Editora. São Paulo, 2011.

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