Cosmovisão e caos

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A Criação de Adão – Michelangelo

A cada dia somos surpreendidos por ondas e ondas de novas notícias: governadores assinando decretos restritivos, ministros dando entrevistas polêmicas, prefeitos expondo suas inexperiências, ministros do STF dando novas interpretações constitucionais, cerceamento das liberdades individuais, desemprego crescente, tentativas de golpes em programas sociais, economia em declínio, pânico perante o vírus chinês, além, é claro do papel terrorista e ridículo da grande mídia. Perante tanto caos, podemos nos perguntar, “De onde vem o nosso socorro?”, a resposta já é conhecida há mais de três mil anos, “Nosso socorro vem do Senhor, que fez o Céu e fez a Terra!”.

Este insigne texto, em meio a essa pandemia de Fake News, quer ser apenas uma recordação e um alerta. Não tem como objetivo tomar partido de um lado, antes te fazer entender qual o seu lado. Precisamos relembrar algumas coisas para que achemos a direção que começamos a percorrer. Precisamos nos lembrar quem somos, para entender o caminho que estamos trilhando. Precisamos tirar a trave de nossos olhos, abrir nossas bocas para anunciar a Verdade e cingir nossos rins, para que Deus veja nosso esforço e assim não sejamos a geração que deixará que as pedras falem por nós.

Quem somos?

Todos nós somos criaturas racionais que necessariamente vivemos em sociedade. A afirmação “somos criaturas” faz nos supor duas coisas obvias de imediato: a primeira, se somos criaturas, temos um Criador; a segunda, se somos criaturas seguimos uma lei natural que rege o mundo criado. Pois bem, quanto ao Criador, podemos entender que Ele é quem escreve essa lei natural em nossos corações e nossas consciências, todo aquele que faz aquilo que é reto à sua consciência e à sua natureza humana, escuta a voz do seu Criador e a Ele se une, podendo assim chegar ao máximo do modelo humano e transcender este mundo. Assim sendo, todo aquele que rejeita a lei natural se afasta de seu Criador e promove uma rebelião no mundo criado.

Se podemos seguir ou não a lei natural é prova que somos dotados de liberdade, então, além de sermos racionais e sociáveis, também somos livres. Liberdade essa que encontra sua plenitude na observância da lei natural, todo aquele que entende liberdade como falta de leis, já é escravo dos seus desejos. A falta das leis naturais, ou seu descumprimento, torna o homem menor que os animais irracionais, afinal estes também possuem sua lei de sobrevivência. Assim podemos afirmar que a liberdade é cumprir essas leis e a rebelião é um aprisionar-se nas suas próprias convicções.

Viver em sociedade significar estar em um meio com mais indivíduos da sua espécie, logo, aí deve haver uma concordância de ideias mínimas que vão conduzir essa sociedade a um convívio equilibrado. Esta não será contrária à lei natural, será apenas um complemento para as condições daquela sociedade. Aqui é importante esclarecer que sociedade é desde o grupo familiar em casa, ao trabalho e à nação, uma não anula ou massacra a outra, ao contrário, existem simultaneamente nas dimensões do ser humano. Portanto podemos nos fiar na celebre frase de José Pedro Galvão de Sousa, “uma sociedade de sociedades”. A sociedade é, portanto, uma forma de os indivíduos se juntarem num comum acordo e alcançarem a plenitude de sua natureza.

Quanto ao Criador, para inteligir todo o mundo criado, mesmo as suas singularidades aparentemente mais insignificantes, podemos chamá-Lo onisciente; e para materializar tudo isso, onipotente. Ao Criador pertence o trabalho de manter e ordenar todas as coisas. Pertence, mas não é obrigado a fazê-lo. Além de instituir as leis naturais, o Criador também dispõe as leis eternas, ou seja, relaciona constituição, superação e a transcendência dos seres criados. Pode haver uma indagação, “Esse Ser Criador é digno de adoração? Seria Ele uma Divindade?”, a resposta é bem simples: se todo aquele que age com retidão de consciência se aproxima da sua transcendência e por assim dizer, do seu fim último, então sim. Aquele que inspira o bem é fonte de Verdade.

De posse destas afirmações podemos refutar qualquer teoria “científica” ou raciocínio acadêmico – se assim pode-se chamar – que nega a existência de um ente criador. As ciências matemáticas não são a realidade em si, mas são leis que demonstram a realidade. Logo, semelhantes assertivas não são menores ou mais fantasiosas que pesquisas em laboratórios, antes são expressão pura da realidade, pois é o que há escrito em nossa consciência, antes de qualquer corrupção externa.

Percebam que para entender quem somos é necessário desenvolver um raciocínio filosófico sério e detalhado de cada situação, e até mesmo de Deus, que envolve o indivíduo.

Onde estamos?

Essa pergunta não se refere apenas ao espaço físico, uma vez que, como já dissemos, há um caminho que o homem percorre durante sua existência. Onde realmente estamos como seres criados para a Verdade? O desconhecimento da necessidade de trilhar esse caminho produz nos seres humanos uma profunda crise. Significa a quebra consigo mesmo e com toda a natureza que o envolve.

Quando falávamos do Ser Criador e da sua Divindade, falamos de como Ele dispôs as coisas e como predestinou-nos de antemão a transcendermos este mundo. Vamos nos deter então nesse caminho para entender onde estamos enquanto seres dotados de razão.

Nas leis eternas vemos constituição do que somos dotados, o que é mineral em nós, qual nossa essência. Entender o primeiro e buscar corrigir falhas nossas, dar alguma contribuição às sociedades que fomos inseridos, esse é o processo de superação: pegar o que temos e dar frutos cem por um. Transcendência seria completar o ciclo da vida, ter acesso à vários pontos da Verdade primeira, estar no mundo e incorporar-se ao seu Criador de tal maneira que estar aqui já não é mais suficiente, quer-se ir para junto da Sabedoria Eterna.

Certamente a grande massa está nesta segunda etapa, a superação, e necessariamente devemos nos superar, contudo é evidente que a maioria não sabe disso. E ainda saber só que estamos na segunda fase não é o suficiente, é necessário saber o que há de mineral em nós e como essa lei gravada é em nossa consciência. Deve-se buscar compreender o seu próprio íntimo, de onde lhe vêm os sentimentos, reações e ideias, só assim é possível um processo de superação. Percebemos assim que esse processo é subdividido. O que torna ainda mais delicado o processo de superação. Este é um trabalho de uma vida inteira.

Como dissemos anteriormente, vivemos em uma sociedade de sociedades, estamos inseridos em diversos contextos sociais: família, faculdade, trabalho, amigos, igreja, bairro, cidade, estado, país etc. Cada um desses é uma sociedade que tem importâncias diferentes, contextos diferentes, pessoas diferentes, regras diferentes, cobranças diferentes e um ponto em comum, você. Por isso é estritamente necessário entender que há uma ordem dessas sociedades. Obviamente a primeira é a família, célula mater. Daí sai os primeiros afetos e ensinamentos para o indivíduo, das informações obtidas nessa sociedade é que conseguimos trilhar em meio a esse mundo desconhecido e inimaginável. Ninguém nasce sabendo qualquer coisa, ao contrário, somos inseridos aos poucos em cada situação da vida. Todo o mundo extrauterino é terrível, depois todo mundo longe da mamãe e do papai é assustador e assim por diante. Então esse papel importantíssimo e muitas vezes olvidado é da família.

Nas outras sociedades nos tornamos mais propagadores do modo que aprendemos a ser seres humanos, vamos deixando esses traços escaparem de maneira natural, C.S. Lewis diz que todo aquele que perde um amigo, perde um pouco de si com ele, justamente por essa relação natural da troca de experiências em uma sociedade. Todavia há um fenômeno de autodestruição quando em nome da aceitação em um determinado grupo nós mudamos quem somos e nos vendemos, nos falsificamos. Pode parecer um ato inofensivo pela grande ocorrência atual, entretanto é um dos atos mais agressivos e que mais nos distanciam da superação, que mais nos fazem escravos, pois nos entregamos à mentira, que é aquela que combate contra a Verdade. Isso é a rebelião do ser, mais uma forma de deixar uma profunda crise no indivíduo e no mundo.

A compreensão de onde estamos não é coisa de garotos ou pessoas irresponsáveis, mas de indivíduos sérios que se examinam todos os dias. Se consegue essa compreensão ou pela busca de si mesmo ou pela experiência da vida. A maioria das pessoas só reconhece isso depois dos cinquenta ou sessenta anos, justamente pela experiência de vida. Parece um tópico simples, mas é bastante contundente. Dostoiévski anota que “nem em minha casa, uma cadeira é a mesma, pois eu já não sou o mesmo”, essa constante mudança que sofremos deve ser observada todos os dias. Sempre morre um de nós e renasce um novo, se não enterrarmos este morto, nossa vida muda-se numa profunda crise.

Para onde vamos?

Como já devem supor, essa também não é uma pergunta quanto à locais físicos. Esse para onde vamos é na verdade onde nossa personalidade, nós, vamos chegar. Para um bom viajante é imprescindível um mapa e saber onde se quer ir. Da mesma maneira devemos saber com todas as nossas forças se queremos caminhar até a Verdade ou não, para definirmos em qual trajeto seguir. Quem não se decide hora vai para um lado, hora para o outro, anda em círculos e não sai do lugar. Certamente por isso, “o morno será vomitado”.

Entender que buscamos esta identificação com o Criador faz-nos buscar cumprir não por obrigação ou medo, antes por preceito e amor às leis naturais. Este é parte do caminho oferecido para se chegar a Verdade. Não se deve pensar em instalar na Terra esse paraíso, todavia nem se omitir quando possível em melhorar o cenário do mundo. Isso é parte da vocação de cada um de nós.

Só podemos responder para onde vamos se soubermos e tivermos domínio da narrativa da nossa vida. Queremos dignidade? Honra? Sabedoria? Poder? Temos que escolher um desses para pautar a nossa narrativa, só assim saberemos quem somos, onde estamos e para onde vamos. O indivíduo que sabe onde quer chegar luta, dá o sangue para chegar. Quem não sabe, onde chegar está bom.

Esta pergunta leva-nos, mais uma vez, às leis eternas, agora à terceira etapa, a transcendência dos seres criados. Transcender significar ir além dos limites, subir mais alto, exatamente isso é onde nos levam essas leis. No início falamos que a liberdade consistia em seguir as leis naturais, agora vemos claramente isso. Não é um prêmio por ter obedecido, antes é expressão máxima de liberdade.

Posições gerais

Visto tudo dito até aqui podemos perceber uma forma muito elevada de contemplar o mundo. Desta maneira muitos podem querer viver segundo essa cosmovisão, o que é perfeitamente possível. Entretanto há uma confusão muito comum, grande parte das pessoas não compreende a aplicação dessas coisas.

Por isso é de suma importância procurar fundamentar com boas leituras e boas companhias a sua visão de mundo, afinal ela te faz ser você. Compreender bem como o mundo é te leva a saber ter posicionamentos em momentos adversos e situações que lhe são exigidas. Hoje observamos crises de ansiedade e depressão pois as pessoas não sabem se posicionar diante dos desafios, não sabem quem são nem em que acreditam.

Da mesma maneira é no contexto político e social, há um predomínio dos corruptos e mau-caráteres nessas áreas porque a maioria não consegue desenvolver sua cosmovisão. Não conseguem traçar sua vida em unidade, buscando se superar e ajudar aqueles que ali estão, bem como a sociedade. Há uma crise de estadistas no Brasil, pois no lugar terem uma visão centrada da verdade, preferem se aliar a ideologias de todos os tipos, buscando cada vez mais poder e domínio.

Portanto, posicione-se, saiba quem está ao lado do seu ponto de vista e se seu ponto de vista está certo. Procure se embasar, procure ter uma visão de todos os lados do cubo, pois aí está a realidade. Não deixe que os mortos do seu dia te impeçam de ser protagonista de cada momento. Tenha uma narrativa e seja coerente e fiel a ela examinando-se sempre. Ame a Verdade, busque a Ela mais do que o seu próprio alimento. Só a Verdade é importante.

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