Esconder a verdade também mata. E muito!

É urgente um tratado internacional específico que “obrigue” a todos os governos a divulgarem quaisquer descobertas que coloquem em risco a saúde pública mundial. Com a palavra, a ONU.

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Imagem: Chormail/Freepik

Após 102 anos ainda falamos na gripe espanhola de 1918. Ninguém nunca reclamou deste nome apesar de não se saber exatamente onde se originou a tal gripe. A hipótese mais provável de sua origem atribuída à Espanha deve-se ao fato de que não havia censura à imprensa naquele país. Enquanto o mundo só tinha olhos para a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a imprensa espanhola foi a primeira a divulgar a hecatombe que já estava se alastrando pelo mundo e, sobretudo, nos países envolvidos com a guerra. A imprensa espanhola prestou um grande serviço à humanidade.

Em 2020 todos sabemos a origem territorial do novo coronavírus (Covid-19). E isto é um fato, não é xenofobia em relação ao povo chinês, pois foi o próprio governo do país de origem quem anunciou a grande peste. Mas antes de anunciá-la, a verdade foi censurada com a prisão do médico Li Wenliang que em dezembro de 2019 tentou antecipar o que em breve seria uma catástrofe mundial. As autoridades da cidade de Wuhan queriam controlar as informações sobre o avanço do novo coronavírus.

Segundo a BBC, em 30 de dezembro de 2019 o médico enviou mensagens aos colegas, por meio de um grupo de bate-papo, alertando-os a usarem roupas de proteção para evitar infecções com sintomas semelhantes à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que matou mais de 700 pessoas no início dos anos 2000.

Quatro dias depois daquele bate-papo o médico Li Wenliang foi intimado pelo Departamento de Segurança Pública e foi “orientado” a assinar uma carta em que era acusado de “fazer comentários falsos” que “perturbaram severamente a ordem social”. O médico morreu, vítima do próprio vírus que ele anunciou ao mundo.

É por meio da polícia que se responde a uma questão de emergência sanitária seríssima?

A revolta na rede social chinesa foi geral. As duas principais hashtags diziam: “o governo de Wuhan deve desculpas ao Dr. Li Wenliang” e “queremos liberdade de expressão”. Rapidamente ambas as hashtags foram censuradas. Cadê a mídia internacional e nacional para condenar e divulgar exaustivamente tal censura? Ah, esqueci, não se pode falar que censurar a liberdade de expressão seja atentando à democracia num país onde não há pluralidade partidária e tampouco eleições livres. Ninguém atenta contra aquilo que não existe.

Perdeu-se tempo precioso na prevenção do Covid-19 porque a verdade não foi divulgada logo que se constatou a existência do tal vírus. O segredo do combate a uma epidemia é antecipar-se, ou seja, as medidas preventivas devem chegar antes que o vírus comece a circular entre as pessoas numa determinada região. E ouso dizer que no período do carnaval este vírus já circulava no Brasil. Que louco proporia cancelar o carnaval? Certamente seria acusado de fascista e de querer atentar contra a democracia da maior festa popular do mundo.

E agora, que a peste já se alastrou pelo mundo, inacreditavelmente, boa parte da mídia brasileira, políticos etc., que deveriam ter sugerido o cancelamento do carnaval, gastam precioso tempo censurando quem chama o coronavírus de vírus chinês. Qual o problema disto se foi o próprio governo chinês quem anunciou a origem do vírus em seu território? Repito, isto nada tem a ver com xenofobia. Só para lembrar, o famoso mosquito da dengue foi descrito cientificamente pela primeira vez em 1762 e recebeu o nome de “Aedes aegypti”, porque sua origem é do Egito. “Aegypti” significa Egito em latim. E a exemplo da Espanha, acho que até hoje o Egito também não reclamou disto.

Xenofobia é uma prática reprovável contra pessoas de outras nações, e isto não pode ser usado agora como argumento retórico para desviar o verdadeiro foco da questão, que é a irresponsabilidade do governo chinês em retardar para o mundo informações preciosas sobre o coronavírus. O problema não é onde surgiu o vírus, mas a não divulgação do mesmo logo que apareceu. É neste ponto que a imprensa deveria focar, ou seja, na conduta errada daquele governo para que no futuro conduta semelhante não se repita.

Portanto, não se trata de culpar o lugar onde o vírus surgiu. Mas sim de cobrar responsabilidades de um governo que ignorou o tamanho do problema para o mundo e ainda puniu o médico que tentou alertar os colegas. Isto é um fato de extrema importância, mas pouquíssimo explorado pela imprensa nacional que se presta ao ridículo para polemizar a expressão “vírus chinês”, ao invés de cobrar responsabilidades.

Mas, como sempre, os especialistas em linguística já subverteram as coisas. Logo teremos os idiotas úteis pedindo desculpas ao governo chinês pela expressão “vírus chinês”. Inacreditável o tamanho da dissonância cognitiva impregnada nas mentes das pessoas. É o governo chinês que deveria pedir desculpas ao mundo por ter censurado o alerta daquele médico que anunciava um novo coronavírus.

Eis o resultado, que poderia ter sido amenizado: milhares de pessoas mortas e doentes, economias do mundo inteiro paralisadas e empresas destroçadas, trazendo consequências gravíssimas para populações já fragilizadas economicamente. Definitivamente não somos nós e nem o resto do mundo quem deve alguma satisfação ao governo chinês.

Que segurança tem o mundo diante de uma ditadura gigantesca que tenta esconder informações vitais sobre saúde pública? Um vírus desconhecido e circulando por aí não é uma arma biológica? Precisa ser biólogo ou médico para saber disto? Que louco não enxerga o custo de uma irresponsabilidade sem precedentes? Que vírus é esse que penetrou tão fundo nas mentes de algumas pessoas para fazê-las ignorar a irresponsabilidade de um governo e ainda lhe pede desculpas?

Caso no futuro surja outra situação deste tipo na China, algum médico se arriscaria a denunciar? Ou ele seria acusado de querer promover a desordem social?

Infelizmente as poderosas mídias nacionais e internacionais gargarejam cobranças de responsabilidades do governo chinês que não passam de notas de rodapé, mas as democracias são transformadas em vilãs pela grande imprensa que demoniza cada palavra e cada ação dos governos que não lhe agrada. São as democracias onde a imprensa circula livremente que devem desculpas pela expressão “vírus chinês”? Inacreditavelmente o mundo está de cabeça para baixo. O certo se tornou errado e o errado se tornou certo.

Cadê a revolta dos ativistas ambientais? E onde estão os artistas da rica Hollywood? Será que o ambientalista Al Gore vai fazer um novo documentário intitulado “Uma Verdade Inconveniente”? Agora que precisamos de toda essa gente cobrando transparência do governo chinês todos se escondem atrás da Grande Muralha. Enquanto as democracias são criticadas exaustivamente, as ditaduras seguem incólumes, apenas criticadas com desbotadas notas de rodapé.

Estamos diante de uma catástrofe ambiental sem precedentes num mundo com quase oito bilhões de habitantes. E onde estão as vozes estridentes dos ambientalistas que tanto criticaram o Brasil por ser protagonista de uma catástrofe ambiental? Sucumbiram diante do coronavírus? Não, não sucumbiram. Quando atravessarmos esta quarentena, e muito antes de qualquer recuperação econômica, logo farão megaeventos internacionais para seguirem acusando o governo brasileiro de destruição do planeta e de praticar “genocídio” contra homossexuais, negros e índios. Isto depois de o coronavírus ter matado milhares sem discriminação de sexo, cor ou etnia.

Cadê a revolta da OMS – Organização Mundial de Saúde? Aliás, a OMS deveria se preocupar com as questões sanitárias da exótica culinária chinesa. O que se sabe realmente a respeito deste assunto escondido atrás das muralhas de um regime fechado?

Mas voltando à gripe espanhola… A Primeira Guerra Mundial terminou em 1918 e a Espanha permaneceu neutra durante toda a guerra. Os países em guerra tinham suas imprensas censuradas para evitarem notícias desagradáveis que abalassem as tropas militares e a população em geral. Se uma guerra mundial não justificaria uma censura deste porte há cem anos, muito menos se pode admitir censura em tempos de paz e em pleno 2020. Considerando que naquela época (1918) a ciência já tinha conhecimento do potencial destrutivo dos micro-organismos, o que dizer de hoje?

Pelo fato de os governos dos países em guerra impedirem a divulgação da verdade, e assim retardarem as providências, isto facilitou a proliferação do vírus da gripe espanhola pelo mundo inteiro, vitimando milhões de pessoas. “Calcula-se que 30% da população mundial tenha sido infectada – apenas na Índia, 5 milhões morreram em decorrência da gripe; 500 mil pessoas nos Estados Unidos, 375 mil na Itália, 225 mil na Alemanha e 200 mil na Inglaterra e País de Gales tiveram o mesmo fim. Em Samoa, na Polinésia, 25% da população sucumbiu e, no Alasca, comunidades inteiras de esquimós desapareceram”.

A despeito da precariedade das estatísticas, acredita-se que no Brasil a gripe espanhola tenha matado pelo menos 35 mil pessoas, a maioria no Rio de Janeiro (14.348, capital do país na época) e no Estado de São Paulo (12.386). Todo o Brasil foi afetado, até mesmo a remota ilha de Fernando de Noronha.

Tudo indica que no final da epidemia tenham morrido de 15 a 25 milhões de pessoas no mundo, mas há autores que defendem cifras de até 50 milhões. A metade dos mortos concentrou-se entre indivíduos de 20 a 40 anos, um comportamento incomum deste tipo de doença.

Em 1919 a onda gripal foi mais branda. Os motivos são desconhecidos, mas talvez o vírus já tenha vitimado os mais vulneráveis. Entretanto, é fato que medidas preventivas foram tomadas rapidamente. “Estudos realizados nos Estados Unidos sobre as múltiplas ações preventivas postas em prática, como o fechamento de escolas, igrejas e teatros, demonstrou-se que, nas cidades em que foram implantadas precocemente, houve uma mortalidade 50% menor em relação às localidades que assim não o fizeram”.

Desta forma, as iniciativas de isolamento obrigatório tomadas pelas autoridades, além do retraimento comportamental voluntário da população, parecem ter contribuído para que a tragédia não fosse ainda maior no ano de 1919.

Conclamo que, de agora em diante, a ONU, a OMS, a OMC, os ambientalistas, as entidades de direitos humanos, a imprensa, os artistas famosos, os intelectuais etc., olhem com mais cuidado para o que acontece do outro lado da Grande Muralha. Não queremos derrubá-la. Queremos apenas um pequeno furo por onde seja possível passar informações vitais logo que surja um novo vírus, a fim de que possamos parar nossa circulação antes que ele circule entre nós.

Precisamos com urgência de um tratado internacional específico que “obrigue” a todos os governos a divulgarem quaisquer descobertas que coloquem em risco a saúde pública mundial. Com a palavra, a ONU.

Aviso aos ambientalistas: um novo sufocamento da verdade pode extinguir metade da humanidade muito antes das primeiras geleiras se derreterem com o aquecimento global.


Referências:

1918: a gripe espanhola desvendada? 1918: the Spanish flu unveiled? Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgel. Rev Soc Bras Clin Med. 2013 out-dez;11(4):380-5

https://super.abril.com.br/saude/wuhan-cidade-onde-o-novo-coronavirus-surgiu-registra-apenas-1-novo-caso/

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51411980

http://www.ioc.fiocruz.br/dengue/textos/curiosidades.html

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