A ditadura dos diplomas

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“De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos
compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento,
acompanhado de um neurótico temor reverencial aos seus
símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia.”
(Olavo de Carvalho, Desejo de conhecer)

Desde os primórdios da humanidade o homem vem buscando o conhecimento e a sabedoria através de estímulos como o gosto e a curiosidade. Tais estímulos foram sintetizados em diversas obras monumentais ao decorrer da história, expressando o potencial do homem e sua beleza — esta última traduzida, por vezes, em belos textos literários que combinavam o gênero narrativo com profundas reflexões filosóficas sem o presente didatismo pedante que domina as altas esferas da educação brasileira.

O ser humano, independente do contexto, sempre foi curioso. O homem quis entender a matéria e sua natureza. O homem quis conhecer seu porquê, quis entender também seu próprio pensamento, sua psique. A busca pelo conhecimento parece ser uma constante, algo da própria natureza humana, mas no Brasil já há décadas não se vê mais a expressão dessa característica idiossincrática do ser. Aqui, essa natureza foi subvertida, negada, praticamente extinta.

O estudante brasileiro médio não se importa com seu estado de ignorância, de eterna passividade perante o momento histórico em que vive. Pelo contrário, vangloria-se de não saber nada; proclama seu ódio à verdade. Na verdade, muitos brasileiros, acadêmicos ou não, pouco se importam com o estado de suas próprias inteligências.

Toda essa situação sui generis é uma constante da nossa história e já foi abundantemente documentada na nossa literatura, com um notório exemplo em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, quando o dr. Segadas, indignado ao ver as estantes de seu vizinho Policarpo carregadas de livros, diz: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!” Contudo, esse desprezo pelo conhecimento acompanhado por um amor míope aos títulos e cargos parece-me ter aumentado durante o Regime Militar, cujo o Positivismo impôs ao sistema educacional brasileiro um forte apelo ao imediatismo, transformando vários cursos superiores em meros cursos profissionalizantes.

Num ambiente assim, só sobrevivia no mercado de trabalho quem possuía algum título universitário. Isso pareceu ter alterado a mentalidade do brasileiro, que passou a enxergar o estudo apenas como um meio para alcançar um título que lhe garantiria um empreguinho e não como uma ferramenta para tornar-se alguém melhor, para elevar seu espírito em direção a um sentido mais pleno e consciente de vida. Porém, isto não é tudo: ao mesmo tempo que o Regime Militar implementou uma educação positivista, os comunistas, através da estratégia gramsciana de hegemonia cultural, dominaram praticamente todas as cátedras universitárias, para não falar também do então ginásio.

Como toda a estratégia comunista visa destruir os pilares da civilização ocidental para transformá-la num caos moldável, que neste caso traduziam-se na alta cultura do país, o ensino superior brasileiro foi reduzido a uma máquina de moer cérebros, uma quase alegoria ao clipe Another Brick In The Wall, da banda de rock britânico Pink Floyd.

Apesar da eleição do sr. Jair Bolsonaro em 2018 e de uma relativa ruptura na hegemonia cultural esquerdista, o cenário acadêmico brasileiro não mudou muito. Boa parte das universidades ainda estão aparelhadas e as humanidades ainda estão esquecidas, deixadas de lado, sendo assim utilizadas para formação de idiotas úteis, pessoas que acham estar lutando por uma boa causa quando na verdade estão sendo manipulados para gerar entropia social e a subsequente mudança política desejada pelo partidão.

O fato de eu querer abandonar a ignorância parece incomodar aqueles que se conformaram com a desgraça brasileira. Contudo, não posso culpá-los. Como a maioria dos brasileiros, eles vivem em um ambiente que não exorta sequer uma pequena inspiração que os possa levar a buscar algo maior que eles.

A ditadura dos diplomas é o apreço desproporcional às aparências, ao pueril e passageiro. Infelizmente, isso revela o quão rasa — e por vezes inócua — é a cultura brasileira; o quanto nos importamos com o que não importa e o quanto desprezamos aqueles que se dedicam à elevação do espírito, à atividade intelectual.

Precisamos mudar, não através da ação política, mas através do esforço individual de cada um, buscando tornar-nos alguém melhor, alguém cuja realidade não se limite a “beber, comer e meter”, como diria Nando Moura.


Entre nós predominou (…), em cultura, o mais espantoso praticismo que já alguma vez assolou uma nação. Em ensino primário, basta-nos alfabetização e, acima dele, bastar-nos-ia, todos o repetem, ensino de ofícios e artes. Que estranho país seria esse em que a cultura e a ciência ainda não chegaram a ser aceitas e, por toda parte, se pede tão singular e universal formação utilitarista, no sentido limitado e restrito da palavra? Esse é o país dos diplomas universitários honoríficos, é o país que deu às suas escolas uma organização tão fechada e tão limitada que substituiu a cultura por duas ou três profissões práticas, é o país em que a educação, por isso mesmo, se transformou em título para ganhar emprego. O que há são demasiadas escolas de certo tipo profissional, distribuindo anualmente diplomas em número maior que o necessário e o possível, no momento, de se consumir.
(Trecho do discurso de Anísio Teixeira na inauguração dos cursos da Universidade do Distrito Federal em 1935)

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