As estrelas cadentes: ou, o culto aos heróis feitos de mentiras

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A queda de Lúcifer, Gustave Doré (1866).

Tobias Goulão
Carlos Neiva

“O mito é o nada que é tudo.” (Fernando Pessoa, Mensagem).

É interessante notar em nossos dias um certo império da mentira. A todo canto acusações e mais acusações sobre falcatruas. Parece não haver nada mais de sincero, nada mais de exposição sobre a verdade. Apenas as opiniões da vontade. Um liberalismo ferrenho que respeita apenas o ímpeto de satisfação que opera no ser humano. É claro, não é que o mundo antigo seja livre de erros. Como bem disse de forma brincalhona Chesterton: “Não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”. Mas as constantes revelações de podres e mais podres da sociedade, seja dos políticos, dos líderes religiosos, de celebridades et similia fez com que a verdade, ou a bondade, fossem desacreditadas.

Sintomática condição é a dos tipos heróicos de nossos dias. Séries que chamam a atenção da juventude possuem o mais distante dos modelos heróicos como referência de seus protagonistas. A cada instante um novo herói, e cada vez mais distante da areté (ἀρετή), da virtude, da ordenação e da busca por representar os mais elevados padrões de excelência humana. Os heróis parecem ser tão corruptos quanto o resto da sociedade.

Hoje os heróis são o inverso do que se tinha desde a antiguidade. São ladrões, traficantes, adúlteros e tutti quanti. Chegando ao ápice da indiferença aos modelos quando o próprio Lúcifer ascendeu ao estrelato, sendo a “estrela da manhã” que muitos gostam de ver enfrentando dificuldades e vencendo ao fim dos episódios. Inúmeras canções em diversos estilos são odes ao fim de qualquer virtude, sendo o próprio inferno local desejado, ou por desconhecerem a realidade que comporta o inferno e até mesmo a representação que a palavra possui, ou porque com a revolta metafísica exposta pelos heróis das histórias de Sade, como bem salienta Albert Camus em O Homem Revoltado, estão enclausurados em microcosmos acreditando que podem criar outra realidade que não a que estão instalados.

Estranho, porque sempre soubemos que o mal é representado indiscutivelmente pelas figuras demoníacas, que os ladrões espoliam alguém e sempre causam danos a terceiros. Mas todo um jogo linguístico, um sofisma que utilizando de alguma constatação verdadeira, constrói uma quimera dantesca e, enfim, o bem se torna mal, e este se torna o bem. Mais uma vez o exemplo do Sr. Lúcifer Morning Star, personagem de Neil Gaiman e Mike Carey que do seu aspecto duvidoso passa às telas das televisões como um moço bonzinho e injustiçado por um pai cruel (lembrando que o “pai” é Deus), a isso junta-se o aspecto físico do ator que o interpreta, Tom Ellis, que leva as donas de casa a se perguntarem por que um homem bonito seria mal.

É uma construção simples: um rosto que atende aos padrões estéticos da sensualidade, uma narrativa que coloca a personagem como protagonista, um discurso psicológico que justifica suas ações (explicar e justificar passa a ser a mesma coisa) e alguns outros recursos menores e voilá, o maior símbolo do mal do Ocidente passa ser um “herói”.

O estudo do arquétipo do herói mostra sua importância em uma civilização. Eles inauguram ações, guardam a moral, os costumes e são exemplos de virtudes. Naturalmente, se os heróis perdem essa referência ao transcendente, eles servirão de meio para que as outras pessoas sigam essa norma. Só que, como nossos novos heróis são estrelas cadentes e não mais constelações, nenhum deles sobrevive por muito tempo, só o prazo para a criação de algum choque e abertura de caminho para outro que virá em seu lugar. Ele já não é mais o anti-herói, pois este é alguém que possui elementos positivos e precisa de uma condição específica para colocá-los à mostra. As estrelas atuais seriam como aquelas lançadas na sobre a Terra para causar toda a ordem de desgraças, revirando as estruturas do bem e mal, servindo ao Anticristo, ou seja, colocando o antípoda da Verdade como algo bom, e relegando a tudo aquilo que é sacramentado pelo Cristo como algo insignificante.

Alguns pontos devem ser explicados. Em um mundo não materialista, como o nosso, há coisas que se devem levar em consideração mais do que o corpo físico. Essas coisas na verdade são apenas uma: o ser. Antes de que haja qualquer acidente material, há algo metafísico, a essência e a existência. Esse ser, pode ser dito de outras formas, dependendo de como é contemplado. Se outro ser o contempla, percebe-o único, separado de si; se o intelecto o cogita, nota-o verdadeiro; se a vontade o percebe, deseja-o como algo bom; se o intelecto e a vontade trabalham juntas, contempla-o como belo. Os heróis são construções narrativas feitas por homens e mulheres que colocaram aquilo que anseiam em suas vidas. Construíram heróis únicos, verdadeiros, bondosos e belos.

Por exemplo, na guerra de Tróia, Aquiles é um guerreiro valoroso, tem virtudes (bondades) admiráveis (sua bravura, para citar uma), mas é um guerreiro verdadeiro, não há falsidade em seu agir, ele é autêntico. Na Idade Média, Galaaz e Percival, para citar dois dos muitos membros da Tabula Redonda, também são símbolos da verdade, bondade e beleza que os medievos aspiram. Até mesmo o atrapalhado Dom Quixote, já no início da modernidade, é um herói admirável, pois apesar de imaginar um mundo irreal, sua postura é correta diante desse mundo: se moinhos de vento são gigantes, que sejam combatidos, se Aldonza é vista como donzela, então que seja tratada como tal.

Com o surgimento dos super-heróis de quadrinhos, dentre os quais o primeiro é o poderosíssimo Superman, publicado pela Action Comics em 1938, os heróis recebem reformulações nos seus arquétipos: passam a usar collants e capas, possuem superpoderes e identidades secretas, mas ainda são representações dos grandes valores que a humanidade deseja: respeitam a vida, são bondosos, gentis e justos. Com o tempo, vão surgir os anti-heróis que não são tão gentis assim, mas em situações extremas (que constituem suas aventuras), revelam sua bondade. Por exemplo, o Wolverine é um assassino cruel, mas faz de tudo para salvar mocinhas indefesas como Jubileu, Lince Negra e Vampira.

O tempo foi passando e o super-herói bondoso foi passando em desuso, suas representações foram retratando-o como um bobão: os bons moços foram ridicularizados ou passaram a ser representados como mais sinistros, os muito poderosos ficaram mesquinhos, cansados de tudo e outros tiveram podres revelados. A sociedade parou de desejar os elevados valores da verdade e da bondade, então retirou isso de seus heróis. Por fim, surgem agora vilões, sem bondade e verdade alguma que tomam as rédeas do protagonismo.

A era que vivemos supera a dos heróis pós-modernos, que eram fracos, de pouca decisão, movidos por vingança e que só queriam ficar em seu canto sem ciência do que pesava sobre suas costas. Mas ainda é possível ver alguma virtude neles, mesmo que sendo expurgada como uma bílis que incomoda aquela estrutura vital. O que é mostrado como heróico hoje é uma completa desfiguração das virtudes. Nem mais um anti-herói. É um pós-herói.

Explico o motivo dessa terminologia. É comum julgarmos que há em nossos dias uma “pós-verdade”, algo horrendo e completamente questionável, mas é condição na qual se encaixa muito bem esse novo protagonista sem virtudes.

Como a pós-verdade é uma aceitação contrária à realidade de algo em algum nicho, logo, ela acaba por criar uma espécie de narrativa do que é bom ou mau. Assim, uma virtude surge como a afirmação de situação: a visão do protagonista determina a verdade, o bem e a beleza – se é protagonista, logo, o que faz é virtuoso.

O nosso pós-herói é justamente aquele que assume a posição narrativa de protagonista, mas não possui, em si, nenhuma virtude de fato, concreta, real. Não está ancorado nas idéias exemplares como dizia o platonismo, ou no justo meio na linguagem aristotélica, ou mesmo nas tão batalhadas virtudes cristãs. O pós-heroísmo é simplesmente uma questão de enfoque, uma justificativa sofística, sentimentalista e pueril de posições altamente subjetivas que contrastam com a luta por concreção e controle que sempre realizou um herói real. O pós-herói é o relativismo no arquétipo heroico, a dispensa da excelência. Não há mais uma moral a seguir. A ética é feita pelo enfoque que se ganha na narrativa. Ele é herói porque a história é dele.

Preocupante inversão essa que, ao passo que o tempo caminha e os tipos heroicos estão se firmando dessa forma, as mentalidades das pessoas tendem a seguir esses exemplos. Alterando a sua percepção de certo e errado, de bem e mal, acreditam que o comportamento de revolta de algum assaltante só por estar contra o sistema é legítimo, ou do próprio demônio que diz ser injustiçado pelo pai pode querer justamente a danação de todos.

Vemos que as noções de excelência, bem, belo e verdadeiro são perdidas e valem como tal qualquer coisa que se apresente dessa maneira e convença que é assim. Ser bom não é estar a serviço da construção de algo, mas é fazer aquilo que quero, como um adolescente; ou então ser belo não é conter a combinação de elementos que transitam entre exibição e pudor, mas é impor pelo choque uma “contra-estética” do horrendo; verdadeiro não é o que se apresenta como tal e eu consigo entender, mas aquilo que desejam ser verdade para saciar o mais profundo da vontade pessoal e obrigando todo o restante se adequar ao que dizem ser, não o que é inteligível de forma geral como aquilo que é.

Para além da apreciação subjetiva estão impressos nessas perspectivas outras questões. A primeira é que depois de elaborado um discurso de sofisma para justificar essa violação da natureza real em prol de uma ideia desconexa com ela, temos uma imposição dessas ideologias a todo custo a qualquer um. Aceitando ou não, comprovando ou não, você é obrigado a fingir que aqueles ideais têm a mesma validade que uma percepção concreta e depurada do real, e que não é a sua vontade que confronta a ideologia, mas a realidade.

O segundo é que, com o surgimento desses heróis e o expurgo da areté, das virtudes, de seu comportamento, os exemplos perdem a conexão com a excelência humana, e isso causa uma desassociação no nível de consciência entre bondade e maldade. Estas passam a serem vistas nubladas, e quando a pessoa tem consciência do que é bem e mal devido a formação ou criação, mas acaba se deixando ser tomada pelos exemplos dos novos heróis, deixa ser guiado pela vontade de realizar aquilo que eles pedem, então a mentira toma níveis de autoengano. O “herói” ensina, claramente, ao seu imitador a enganar a si próprio, esquecendo todo o contato com o que realmente é heroísmo e excelência de vida.

No livro do romeno Gabriel Liiceanu, Da Mentira, uma visão importante sobre a mentira e enganação é exposta. Ele passa pelo período de introdução da mentira na política grega, na peça de Sófocles, Filoctetes, e a partir da sua leitura apresenta o seguinte: “o engano pelo emprego de palavras é um rapto que opera no nível do espírito de alguém”. É uma situação que passa a desposar alguém da “propriedade de seu espírito (psyche), o que significa instalar nele, com a ajuda de palavras (logoisin), em vez da verdade, o falso, a mentira (to pseudos)”. Assim a “moral de primeira instância” também é abandonada, restando a “moral de segunda instância”, temos usados por Liicianu, sendo a primeira pautada pela honra, verdade e magnanimidade, a segunda pautada pela fraude, o truque, a perversão, a mentira.

Acontece a destruição de elementos fundamentais – esquecimento das ideias exemplares, dos arithimoi arkhai, e a aceitação da destruição de tudo em nome das potências “universais” contemporâneas: a vontade do coletivo ideológico que foi tomada como libertadora das vontades individuais; a revolta contra tudo que é estabelecido e cerceia o indivíduo e fere a sua obtenção de satisfação, independente da fonte.

A destruição é interna e externa. Primeiro violam o que há de mais íntimo em si mesmos, contrapondo desejos e vontades contra toda a consciência; posteriormente essa violação caminha para o mundo exterior que deve se adequar ao que é desejado. A destruição passa a ser o intento. Em si a realidade não é nada a não ser um empecilho.

Nossa consciência determina nossa forma de ação e de interação com a realidade. Desde quando se aprende algo, imitando os bons heróis e fazendo o contraste aprendizado-realidade-vida, as normas de ação ganham diretrizes. Estar agindo segundo a consciência não é fazer algo com vontade ou respondendo a estímulos, é algo muito mais complexo. É agir respondendo ao “fundo insubornável” que é o mais íntimo que há em cada pessoa. Essa dissonância criada por esses novos modelos, os exemplos que nos mostram apenas revoltam contra o humano e contra o que é excelência da nossa condição como pessoas, causa uma devastadora atividade em almas que seguem esse caminho.

O que acontece conosco pode ser visível em mestres que mergulharam na alma humana e vislumbraram o efeito mortífero para nossa existência. Veja aquilo que o grande mestre Dostoiévski comenta, na obra Os Irmãos Karamazov ser o resultado desse afastamento da verdade:

Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio.

A consciência vai sendo perdida, porque vivendo em contradição logo mais não haverá nenhum ponto para segurar, nenhum lugar onde recorrer. O reduto maior, a consciência, foi perdida. Façamos uma observação didática sobre a noção de consciência. Em matéria relacionada ao Beato Cardeal Newman, o L’Osservatore Romano, traz uma importante explicação sobre a temática. A particularidade está exposta assim, recorrendo a uma fala de Bento XVI:

No pensamento moderno, a palavra “consciência” significa que em matéria de moral e de religião, a dimensão subjectiva, o indivíduo, constitui a última instância da decisão. A concepção que Newman tem da consciência é diametralmente oposta. Para ele “consciência” significa a capacidade de verdade do homem: a capacidade de reconhecer precisamente nos âmbitos decisivos da sua existência — religião e moral — uma verdade, “a” verdade. A consciência, a capacidade do homem de reconhecer a verdade, impõe-lhe com isto, ao mesmo tempo, o dever de se encaminhar para a verdade, de a procurar e de se submeter a ela onde a encontra. Consciência é capacidade de verdade, e obediência em relação à verdade, que se mostra ao homem que procura com coração aberto. O caminho das conversões de Newman é um caminho da consciência — um caminho não da subjectividade que se afirma, mas, precisamente ao contrário, da obediência em relação à verdade que, passo a passo, se lhe abria.

Essa percepção da verdade está cada vez mais escassa, pois tudo ocorre simplesmente pautado no subjetivismo, no desejo e na procura incessante de satisfação. Tudo está incrustado na vontade radical de afirmação do “eu”, em alimentar o “amor-próprio” que passa a ser a justificativa. E nossos exemplos, nossos mitos modernos, nossos [pós-]heróis, estão criando uma dissonância cognitiva nas pessoas, isso é, “uma contradição entre dois elementos do psiquismo de um indivíduo, sejam eles: valor, sentimento, opinião, recordação de um ato, conhecimento, etc”, o que Pascal Bernadin colocou em seu livro Maquiavel Pedagogo. E podemos seguir com o mesmo autor na explicação dos efeitos, pois a “tendência será a de modificar tais valores, para diminuir a tensão que lhe oprime”.

Os exemplos, as situações em grupos, as conversas e constantes exposições midiáticas, levam claramente a um entendimento de que os valores que existiam devem ser trocados para aqueles que agora estão com presença contínua em nosso contexto social e midiático. A pessoa vai perdendo sua identidade por conta de todas as adequações que surgem no meio.

Os discursos para explicar isso são racionalizações, que dentro dos modelos sofísticos usados, vão criando um constructo mental para sua aceitação, mas a percepção da realidade e o confronto com tudo que já viveu ainda faz com que a dissonância permaneça. Mas em um momento há de deixar apenas o caos que a destruição originou. Pois, como foi exposto anteriormente, se o bem e a verdade são visões diferentes da mesma coisa, relativizar a verdade é relativizar o bem, destruir o ser é destruir o agir, bagunçar a forma de ver o mundo é bagunçar a forma de agir nele. Resta apenas o caos.

            Louis Lavelle, em A Consciência de Si, lembra que “o eu tem sempre um modelo ao qual tenta assemelhar-se: mas escolher um modelo já é começar a realizar-se”, por isso que o afastamento das positividades, quero com isso dizer, das realidades construtivas positivas, que não negam a pessoa em sua circunstância e realidade, leva à escolha dos nossos péssimos exemplos.

Nisso, também seguindo a linha de análise de Lavelle no mesmo livro, a pessoa passa a ficar encarcerada em si mesma, presa na jaula do amor-próprio que é o voltar-se apenas para si, para a contemplação de si. Nenhuma consciência desenvolve plenamente nesse isolamento perpétuo. Uma consciência que não sai de si, não está aberta para o mundo e, consequentemente para o outro, está mutilada. É como os nossos exemplos pregressos, os pós-heróis: fechados em si mesmos, realizando tudo por si mesmos, ignorando o restante da realidade o sem imaginar o que essa condição pode criar.

O expectador é lançado na narrativa segundo esse ponto de vista, passando a considerar o pós-herói como alguém justificado, isto é, alguém cuja situação tornou cabível sua atitude. Com isso, o diabo tem motivos de sobra para sua revolta, ladrões de banco são ícones cujas máscaras de pinto espanhol devem ser compradas e usadas como ícones, um psicopata vestido de palhaço merece seu próprio filme e vilãs de contos de fadas cuja maldade e crueldade estão expressas explicitamente em seus nomes passam a ter o seu lado da história apresentados.

É assim que vemos, ainda utilizando das palavras de Lavelle, que não é possível “obter nenhum bem verdadeiro como a felicidade, o amor ou o conhecimento senão saindo de si mesmo”, há uma necessidade de expansão de nosso ser que não pode encerrar em si mesmo. É por isso que o “amor-próprio nos atrai para o que não existe: alimenta-nos de ilusões. É ele que nos faz oscilar incessantemente entre a nostalgia e o desejo; é o contrário do amor, que é um dom de si sempre atual”.

A doação de si é a realização da nobreza da vida. É o incessante enfrentamento de tudo que nos aparece sem fugir da realidade que nos cerca e que somos lançados. Por isso, a marca mais característica dos heróis é o altruísmo que leva até ao autosacrifício. Mentiras, ilusões, buscas pela autossatisfação independente dos meios, é mesquinharia, egoísmo e falsificação da vida.

A nobreza como deve ser vivida foi muito bem definida por Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas: “A nobreza se define pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos”. Falar em obrigações e exigências com o conjunto de pessoas que vivem apenas em situação de conforto e quase morrem por que não conseguem participar de um show, é algo difícil de ser pensado. Em tempos que qualquer negativa feita é, segundo muitos dos jovens dinâmicos contemporâneos, uma forma de ferir direitos, exigir deles algo é ilícito.

Veja bem que os exemplos atuais são justamente aqueles que fazem qualquer tipo de falcatrua para realizar toda uma série de vontades. Querem tudo servido aos pés, e ficam completamente revoltados por não conseguirem algo. A culpa é lançada a todos, de Deus ao vizinho, que tem algo que não temos. Aguentar as adversidades, estar empenhado em crescer pessoalmente é sinônimo de mordomia. Mas essa deve ser apenas para si, não importando o mal que possa causar. Sem excelência de vida, sem saber aguentar a contingência da realidade, sobram apenas jovens mimados e birrentos (não só os cronologicamente jovens, mas os mentalmente também).

Portanto, lembremo-nos sempre que “nada tão ilícito como apequenar o mundo com nossas manias e cegueiras, diminuir a realidade, suprimir imaginariamente porções desta”, algo que Ortega y Gasset muito bem nos deixou.

Render-se aos maus exemplos é criar um caminho para a perda de si. Algo que começa com uma dissonância cognitiva, mas que termina na negação formal da excelência e na enganação perpétua de si, na vã esperança de fazer o mundo segundo a sua vontade. O engano é justamente esse: não compreender que estamos instalados na realidade, e esta não responde às ideologias e às modas. O concreto do mundo está além de formulações linguísticas, teóricas e narrativas. Ele é o nosso cenário, dado e imediato. Cabe saber usar o que temos. E os nossos heróis, os legítimos heróis, são a prova disso.

As histórias são criadas para que saibamos lidar com o mundo. A partir do momento em que a primeira avó contou a primeira história, o homem tem feito histórias e as histórias têm feito o homem. Modificar as narrativas é atacar a visão de mundo do homem. Por isso, Chesterton insistia tanto com a sabedoria expressa nos contos de fadas. Perverter essas narrativas é expor o homem ao que há de mais cruel, selvagem e caótico no mundo. A narrativa não criou a ideia de mal, a narrativa ensinou a lidar com o mal que já está aí, uma tremenda ausência de verdade e bondade. Como expôs o britânico: “O bebê conhece intimamente o dragão desde que começa a imaginar. O que o conto lhe dá é um São Jorge para matá-lo”.

A narrativa criou heróis que, cheios da verdade e bondade que falta no mal, combatem-no e derrotam-no. Destruir esses heróis é deixar-nos sozinhos com o mal. Somos protegidos por eles, como expressou o autor: “Nos quatro cantos da cama de uma criança estão Perseu e Rolando, Sigurd e São Jorge. Se tirar a guarda dos heróis, você não a estará tornando racional; estará apenas deixando que lute sozinha com os demônios”. O que a sociedade pós-contemporânea, com a sua pós-verdade e seus pós-heróis, fez não foi apenas desmoralizar esses heróis e retirá-los do quarto da criança, ela trouxe a Medusa e o gigante Ferragut, Fáfnir e o dragão e rodeou-os no leito infantil, desejando uma boa noite.

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