Paradoxos da história (2)

Segunda parte de uma série de artigos sobre a dissonância cognitiva após a queda do Muro de Berlim.

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Uma multidão se junta a oeste do Muro de Berlim enquanto um soldado comunista patrulha o lado leste do Muro. Agosto de 1961 em Berlim, Alemanha. (Foto: Paul Schutzer/Getty Images)

Leia a primeira parte deste artigo.

As palavras “socialista” e “comunista” estão desgastadas por razões óbvias, e agora a tendência é a migração para o termo “progressista”. Estamos lidando com um regime que troca de roupa a cada cenário histórico.

Esta metamorfose tem como suporte a dialética negativa. Trata-se de um método criado pela Escola de Frankfurt que pregava o enfrentamento de tudo que existe sob o aspecto negativo. Como não era mais possível explorar a velha luta de classes entre burgueses e proletários, tendo em vista a fase distributivista do capitalismo, então se começou a procurar contradições dentro do capitalismo.

Critica-se o casamento, a família tradicional, a maternidade, a heterossexualidade, a classe média, a educação tradicional, o Cristianismo, o trabalho, a lei, a moral etc., tudo onde for possível encontrar alguma contradição. A ordem não é dialogar em busca de correções dos defeitos, mas destruir, transformar em algo totalmente ruim. Criou-se o crítico que está acima da realidade, o crítico que censura quem o critica.

O dialético negativo não tem como primeiro plano o reconhecimento de direitos, por exemplo, de quem opta por outro formato de família ou de quem se reconhece sexualmente diferente do hétero ou, ainda, a crítica do dialético negativo não visa apontar erros em pessoas específicas e nas instituições para depois cobrar correções e ajustes, já que vivemos numa sociedade pluralista.

O papel do dialético negativo é ridicularizar todas as instituições e condutas morais vistas como obstáculo à vida de prazer. Por exemplo, a família tradicional é uma instituição conservadora porque preza pela conservação dos elos entre os seus membros, estabelecendo-se certas regras de conduta para tal. A primeira proteção ao ser humano emana da família. Os erros e o excesso de rigidez não podem ser utilizados como pretexto para ridicularizar ou destruir a instituição.

Estimular propositadamente o conflito de gerações e colocar filho contra pai, estimular as diferenças e conflitos entre homens e mulheres e apresentá-los como lugar-comum na sociedade, são métodos utilizados para corroer a instituição familiar tradicional acusando-a de intolerante para com outros modelos familiares. E nesse pacote os héteros recebem todas denominações pejorativas possíveis.

Nada contra outros modelos familiares, que merecem todo respeito, entretanto, tudo contra apresentar o modelo tradicional de família como inimigo de outros modelos familiares, como forma sutil para substituir a instituição tradicional, agora transformada em algo ruim. Hoje em dia, levantar a voz em defesa da família tradicional, a depender do território onde se esteja, significa ser um retrógrado, um fascista. Inacreditável!

Outro exemplo da presença da dialética negativa consiste em ridiculizar a classe média. Todos já devem ter visto intelectuais criticando e ridicularizando ardorosamente a classe média. No lançamento do livro Dez anos de governos pós-neoliberais no Brasil, em maio de 2013, disponível em vídeo a todos na internet, a filósofa Marilena Chauí classificou a classe média como atraso de vida, estúpida, reacionária, conservadora, ignorante, petulante, arrogante e terrorista. E prossegue dizendo que a classe média é uma abominação política porque ela é fascista e também uma abominação ética por ser violenta e, finalmente, ela é uma abominação cognitiva porque é ignorante.

Em uma palestra, em julho de do mesmo ano, ela justifica que sua fala decorreu de um contexto particular de uma discussão entre ela e um casal que a teria agredido. Daí os tais xingamentos por ter identificado o casal como pertencente à classe média. O argumento da filósofa para fundamentar os xingamentos a uma classe induz os incautos a grave erro. Se eu identifico a classe do agressor, significa que a classe merece reprovação ou xingamentos? É um argumento tão simplório que não merece mais comentários.

Essa filósofa, que não abre mão da remuneração que recebe da USP, e cuja renda a coloca no seio da classe média, ainda foi aplaudida por uma plateia também pertencente à classe média.

Nesta passagem vemos perfeitamente o tamanho da dissonância cognitiva de pessoas supostamente esclarecidas que aplaudiram a filósofa, porque ela é vista como uma autoridade. Quem somos nós para questionar a autoridade?

Na verdade, não estamos falando de uma classe propriamente dita, pois não há homogeneidade. Na “classe média” há indivíduos com inúmeras diferenças que jamais permitirão o totalitarismo da igualdade. São vários graus de renda, tipos diferentes de religiosidades, objetivos e valores culturais variados, graus de instrução e tipos diversificados de profissões. Entretanto, é o fator renda que criou a ideia de classe média. Seus componentes estão acima da pobreza, mas abaixo da grande riqueza.

A classe média é fruto do desenvolvimento do capitalismo, daí o desprezo de alguns intelectuais, criados no seio da própria classe média, que veem o capitalismo como um regime opressor. Falam como se em período anterior pobreza e miséria fossem condições sociais desconhecidas. Aliás, não havia meio termo: ou os indivíduos viviam na pobreza/miséria ou faziam parte de um pequeno grupo de nobres, portanto, impossível a mobilidade social, dádiva do capitalismo.

Eles não entendem que as suas próprias existências, enquanto intelectuais, foram proporcionadas por conta do progresso do sistema que eles próprios abominam. Um gigantesco número de pessoas que critica a economia de mercado ganha dinheiro escrevendo livros, peças teatrais, roteiros de filmes, lecionando, produzindo músicas e por aí vai. Fazem o que gostam e vivem confortavelmente. E muitos até se tornam milionários!

Quem poderia viver confortavelmente no passado apenas dando palestras e escrevendo livros? O sistema que alimenta os intelectuais é ridicularizado e “criminalizado” pelos próprios beneficiários e outros igualmente beneficiários ainda aplaudem. Se isto não é dissonância cognitiva, então não sei o que é.

Mas por que tanto ódio e desprezo à chamada classe média? Porque é o tamanho deste grupo que determinará o avanço ou o recuo de políticos com ideias totalitários. Mas não estou falando do totalitarismo clássico que nos remete ao Hitler ou Stalin. Estou falando de outras formas de totalitarismo onde o dominado aplaude quem o ridiculariza e ainda se acha uma pessoa esclarecida e que é ela a porta voz da verdade para os amigos ignorantes. Infelizmente uma parcela da classe média já foi cooptada e conspira contra ela mesma.

Outro exemplo de dissonância cognitiva são os discursos de políticos que, quando estão fora do governo criticam as situações econômicas criadas por eles mesmo quando eram governos. Por exemplo, criticam os banqueiros, mas foram responsáveis pelo oligopólio do sistema financeiro aqui no Brasil. Criticam os grandes empresários, mas os favoreceram com empréstimos a juros módicos e assim por diante.

A fase histórica atual do que ainda pode se chamar de socialismo não é mais a luta contra o capitalismo, embora a militância pense que é isto que está sendo feito. Após a lição aprendida com o fracasso das experiências na URSS e Leste Europeu, a reinvenção do sistema, que apenas almeja o poder, encontrou mecanismos para alcançá-lo por meio daquilo que eles próprios pregam combater.

O que os líderes “invisíveis” pretendem é agregar grandes capitalistas, dando-lhes vantagens em troca de permanente apoio político para se perpetuarem no poder. Estou falando do capitalismo de compadrio, modelo que aniquila a concorrência. Aliás, a essência do verdadeiro capitalismo é a concorrência. A concorrência é inimiga dos grandes capitalistas. E estes têm
interesses em eleger políticos desprovidos de quaisquer valores morais que fazem tudo para chegarem ao poder.

É neste ponto que entra a classe média. Por ser conservadora, no sentido de não se aventurar por caminhos desconhecidos, este grupo tende a se afastar de candidatos que representam ameaças as suas conquistas, cujos pais querem transmitir seus bens aos filhos. Se este grupo representar mais da metade da população, que, mesmo pagando impostos pouco uso faz dos serviços estatais, neste caso, significa obstáculos aos aventureiros que se apresentam como salvadores da pátria. Daí a estratégia de desconstruir a classe média e transformá-la em algo repugnante, pelo simples fato dela ter conquistado direitos inerentes à propriedade (imóveis, veículos etc.).

Quando há uma enorme classe de proprietários, aventuras políticas são dificultadas. Mas quando o lugar comum é a pobreza, basta garantir a comida e bens de consumo duráveis aos pores para que os corruptos se perpetuem no poder. E a pequena classe média fica espremida, apenas pagando impostos e sem reação, e ainda é demonizada.

A intensificação das ridicularizações e atribuições pejorativas são os primeiros passos para substituir, a passos largos, o modus vivendi de uma sociedade por outra que não se sabe a quem irá beneficiar.

Vejamos a seguir outro exemplo de dissonância cognitiva. Já é perceptível, para quem é mais atento, a presença de jovens rapazes héteros que adotam deliberadamente posturas afeminadas não porque são, de fato, homossexuais, mas porque a heteronormatividade virou alvo de ridicularização nos discursos escolares.

Desde cedo jovens são bombardeados diariamente por militantes que apresentam um pacote de opções sexuais. Acham que estão fazendo um bem defendendo valores individuais. Mas, talvez não percebam, estão formando uma geração de jovens confusos no sentido de enfrentarem e vencerem as vicissitudes. Serão adultos indecisos.

Obviamente, por enquanto, a maioria passa incólume pela escola. Mas e aqueles que assimilarem os discursos que ridiculariza os héteros? O que pode ocorrer mais adiante? Talvez nada. Talvez uma tomada de consciência de se reconhecerem o quanto foram ridículos em busca de pertencimento a um grupo. Talvez o gatilho de uma crise existencial, de uma depressão. Talvez algo pior. Cada pessoa tem uma resposta diferente diante daquilo que lhe é ardilosamente apresentado como uma opção de escolha.

Leia a terceira parte deste artigo.

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