Em defesa das [verdadeiras] humanidades

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Santo Agostinho ensinando em Roma, afresco de Benozzo Gozzoli.

O Governo Federal, em abril de 2019, havia confirmado uma diminuição do investimento nos cursos de Filosofia e Sociologia, matérias que leciono no Ensino Fundamental, Médio e Superior. Por essa razão, gostaria de fazer algumas observações sobre este tema, que julgo ser importante porque há elementos que foram pouco esclarecidos e poderão esclarecer um pouco mais o ambiente que se criou em torno dessa polêmica:

I. A influência positivista

O desprezo pelas humanidades é claramente positivista, tendência muito evidente entre os militares que estavam influenciando as decisões do MEC, ainda na gestão do prof. Vélez, segundo pessoas que atuaram ou atuam lá dentro. Vejamos o que está por trás dessa tendência:

[…] o positivismo sustenta que a ciência é a única explicação razoável e legítima para a realidade. […] Para a visão positivista, formas de conhecimento que não estejam fundamentadas no método experimental da ciência são destituídas de significado, pois não são passíveis de confirmação ou refutação. (Carlos Eduardo Sell, Sociologia Clássica, p. 31.)

Tal afirmação me parece absurda e contraditória, porque são justamente as ciências humanas que promovem discussões sobre os mais diversos assunto, incluso relacionados às ciências exatas, biológicas etc. Foram os pré-socráticos (ou filósofos da natureza, como queiram) que por meio do exercício filosófico, portanto abstrato, se debruçaram sobre a realidade para buscar explicações dos fenômenos que observavam na natureza.

II. A principal motivação desta decisão do governo

Tal decisão do governo é compreensível, pelo ponto de vista prático, uma vez que não há pluralidade de pensamento nestes cursos nas instituições públicas e privadas. Quem conhece os DCE’s da área de humanas e os eventos que estes promovem sabe o que estou dizendo! A hegemonia de pensamento e a perseguição que os divergentes sofrem pelo establishment é notável.

Falo por experiência própria, onde perdi um semestre porque supostamente reprovei por “falta”… O real motivo da “falta”: o meu “desorientador” me fez mudar o tema da monografia, faltando 30 dias para a apresentação, porque meu tema era complexo demais para a graduação. Além disso, ele não tinha a capacidade de lidar com um aluno que soubesse, mais do que ele, do básico da teoria do conhecimento de Santo Agostinho. Portanto, tive que assumir outro tema, de última hora. Meus questionamentos sobre algumas correções e divergências, resultaram num bloqueio de Whatsapp e numa dispensa covarde, faltando UM DIA para a apresentação da monografia. Tentei recorrer à coordenação e direção do curso de Filosofia, da Universidade Federal de Goiás, porém mesmo com as devidas provas fui orientado a aceitar a arbitrariedade.

III. Problemas Concretos e Possíveis Soluções

No entanto, é preciso diferenciar medição qualitativa de medição quantitativa, pois os índices das nossas produções acadêmicas, no quesito qualidade, são risíveis. Coloco aqui, por exemplo, os índices apresentados pelo Prof. Marcelo Hermes, da UNB, em relação às pesquisas da área da Educação, que são desconsideradas pela comunidade acadêmica. Fora que os temas das pesquisas nacionais, em sua grande maioria, possuem uma notável e específica carga ideológica. Sobre esse tema específico e assuntos afins, sugiro seguir as publicações do autor citado que possui mais de 6.000 citações acadêmicas.

Por isso, penso que uma reformulação do currículo acadêmico seria mais razoável, onde pudéssemos encontrar os principais pensadores de cada período, tanto da Filosofia quanto da Sociologia. Ainda neste ponto, seria interessante apresentar os temas e problemas acompanhando a história da Filosofia e Sociologia, assim se compreende melhor a evolução destes conhecimentos no decorrer do processo histórico, bem como suas principais influências. Dessa forma, os gostos pessoais dos professores, coordenadores e diretores destes cursos teriam que se limitar somente aos trabalhos acadêmicos de quem realmente se interessasse pelos autores de suas preferências pessoais.

Outras medidas que julgo serem razoáveis para a resolução desta problemática: diminuição do tempo de jubilação dos cursos e corte de verba para eventos que promovam bandeiras ideológicas, sejam elas quais forem. Assim, não se teria gastos com aqueles alunos que ultrapassam – e muito – o período de duração do curso, como a “estudante que ficou 15 anos na universidade sem concluir a graduação de história. E caso os Centros Acadêmicos querem promover suas bandeiras ideológicas com eventos, que custeiem com seus próprios recursos.

Também seria viável responsabilizar criminalmente as pessoas que façam, dentro das dependências universitárias: fabricação, uso ou comércio de drogas; hostilize ou agrida alunos e professores por divergência de opinião; atentado ao pudor sob o pretexto de protesto ou intervenção artística; impedir qualquer tipo de evento ou aula, dentro das condições já citadas, por qualquer divergência ideológica ou partidária; desligamento daqueles que usarem as dependências da instituição para promover eventos não previstos no calendário acadêmico; desligamento dos que destruam ou vandalizem as dependências da instituição de ensino. Afinal, a Universidade não é um lugar de pluralidade de idéias? Então, que isso se afirme concretamente, não somente no discurso.

IV. Considerações Finais

Se tais matérias são dispensáveis como dizem os positivistas, especialmente a Filosofia, pergunto: Por que raios ela deu origem às demais áreas de conhecimento? Seriam elas, na visão deturpada dos milicos positivistas, filhas independentes e ingratas? Sinceramente, prefiro ficar com a percepção dos grandes sobre este assunto:

Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade. […] Efetivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. A grande incidência que a filosofia teve na formação e desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos esquecer a influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber a existência presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui a sua própria sabedoria natural, que tende, como autêntica riqueza das culturas, a exprimir-se e a maturar em formas propriamente filosóficas. Prova da verdade de tudo isto é a existência duma forma basilar de conhecimento filosófico, que perdura até aos nossos dias e que se pode constatar nos próprios postulados em que as várias legislações nacionais e internacionais se inspiram para regular a vida social.(S. João Paulo II, Enc. Fides et Ratio, nº 03.)

No fundo, penso que o elemento faltante seria conversão e, consequentemente, a iluminação da mente e do espírito, para se compreender a grandeza dessas áreas para a humanidade. Porque, como dizem popularmente: “A verdade é um leão amarrado, se ela for solta, fará o trabalho dela, sem necessidade de defesa”. Se a intenção é melhorar a qualidade do ensino dessas áreas de ensino, que seja da forma correta… Sem arbitrariedades ou desculpas esfarrapadas!

2 COMENTÁRIOS

  1. Meu caro Aleixo, seria ideal suas proposições, pois tem elencado razões verdadeiras para as humanidades, se não fosse infelizmente pela simples razão que sua área acadêmica é o bastião sitiado mais intransponível do país no momento. Que só verá este avanço que tanto necessitamos, pelo longo, penoso e sistemático desmonte do aparelhamento do MEC e sua ocupação por quem quer a restauração cultural, custe o que custar. Enquanto isto, não desista e suba o calvário passo a passo com Nosso Senhor.

    • Agradeço pelo feedback, caro Renato. Tenho plena consciência de que as Ciências Humanas ainda sofrem gravemente este assalto das ideologias vermelhas. Mas creio que a nova gestão do MEC, aliado com movimentos como “Escola sem Partido” e “Docentes pela Liberdade”, podem trabalhar na reversão desse quadro. É um caminho árduo, mas possível. Sigamos em frente, nesta luta de recuperar a boa educação. Um abraço cordial, em Cristo Jesus.

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