A Revolta dos Comuns: Brexit e a Independência do Reino Unido

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“Rule Britannia!
Britannia rule the waves.
Britons never, never, never shall be slaves.”

Depois de quase cinco décadas como país membro da União Europeia (UE), o Reino Unido se desliga oficialmente do bloco europeu neste 31 de janeiro de 2020. O ato histórico marca uma nova era na organização dos arranjos socioeconômicos regionais e nas relações internacionais, cujos desdobramentos devem pautar as agendas políticas do velho continente e de todo o Ocidente nos próximos anos.

A saída do Reino Unido da UE consuma, após três anos e meio de robustos debates e tentativas de sabotagem da expressão popular exercida nas urnas, o voto dos britânicos no Referendo conhecido como Brexit – união das palavras Britain (Grã Bretanha) + exit (saída) – ocorrido em 2016, onde os eleitores de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte escolheram pela saída do Reino Unido do maior bloco econômico do mundo.

Em um pleito acirrado, 52% dos eleitores optaram pelo Leave – a saída – ante aos 48% que votaram pelo Remain – a permanência. O resultado chocou o establishment e as elites transnacionais globais, uma vez que toda a classe política britânica e europeia, além dos meios de comunicação, os intelectuais e o meio artístico, davam como certo o voto pela permanência do país de Sua Majestade Elizabeth II na União Europeia.

Atribui-se ao choque provocado pelo resultado do Brexit parte dos efeitos desestabilizadores ao estamento burocrático que resultaram em novembro daquele histórico ano de 2016 na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Similarmente, o resultado influenciou, indiretamente, até mesmo a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, dois anos depois em 2018.

O voto pelo Brexit, considerado para muitos como uma “declaração popular de independência”, representa um dos maiores upsets políticos contra determinadas elites dominantes da era moderna. É o que demonstro a seguir, com base em dados oficiais e verificáveis, sobre como os Comuns – o trabalhador, o pequeno comerciante e aqueles menos privilegiados do ponto de vista socioeconômico – derrubaram democraticamente um dos maiores projetos de governança supranacional.

Prelúdio

Desde a entrada do Reino Unido no bloco econômico, então chamado de Comunidade Europeia, em 1975, foram muitos os esforços para que o Reino Unido adotasse o motto do bloco europeu, “an ever closer union”, ou seja, “uma União cada vez mais integrada”. O país, no entanto, sempre se comportou como um primo distante metido a rebelde: se recusou a abrir mão de sua moeda, a Libra, em favor do Euro; a adotar o proposto integralista da UE e a participar do Acordo livre de mobilidade intranacional de Schengen.

Adicionalmente, os britânicos sempre viram com ceticismo o poder de Bruxelas, sede do parlamento europeu, sobre as commodities britânicas, como a indústria da pesca por exemplo – dizimada pelas políticas continentais. Ao mesmo tempo, a submissão do poder judiciário britânico a uma comissão continental nunca foi de fato engolida. Para garantir o acesso ao mercado e o livre acesso de bens e serviços ao bloco, o Reino Unido basicamente adotou a postura de “empurrar com a barriga” a perda de sua autonomia política, entretanto, sem antes consultar o eleitorado.

Embora as tentativas da UE em estabelecer uma Constituição Europeia no início do milênio tenham sido frustradas após a rejeição – também por meio de referendos – de países como a França e a Holanda, acordos como o Tratado de Lisboa (2007) acabaram por estabelecer por meio de uma complexa burocracia, o início de um arranjo político que busca transformar a UE em uma espécie de “Estados Unidos da Europa”, projeto defendido pela atual presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Não obstante, o Reino Unido se obrigou a admitir, em virtude de sua participação no bloco, a abertura fronteiriça para a residência ou trabalho de quaisquer cidadãos oriundos do território dos países membros. Isso significou uma entrada desproporcional no país, como consequência de seu status econômico, de cidadãos europeus ante ao envio de britânicos para o continente. Estima-se que o total de cidadãos europeus no Reino Unido ultrapassem os 3,5 milhões de pessoas, em contraste com os cerca de 1 milhão de britânicos espalhados por todos os países do bloco.

A admissão em 2004 de mais 10 países ao bloco – Chipre, Rep. Checa, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia – em muito contribuiu para que essa disparidade entre migrantes e migrados se exacerbasse ao longo das últimas quase duas décadas.

Por fim, em 2015, durante a crise de migração em massa de pessoas oriundas do Oriente Médio e do Norte da África para a Europa, a Chanceler da Alemanha Angela Merkel decidiu abrir as fronteiras de seu país para todos os migrados que alcançassem a Europa. A medida resultou na entrada, apenas naquele ano, de aproximadamente 1,5 milhões de pessoas no bloco.

A decisão unilateral de Merkel – com efeitos continentais em virtude da abertura fronteiriça – repercutiu negativamente em toda a Europa, incluindo no Reino Unido e na França, sobretudo sobre as camadas econômicas mais baixas, receosas pela deterioração salarial face à concorrência estrangeira de migrados fora do bloco da UE, com o impacto ao Welfare State e questões de segurança pública.

Brexit: O Referendo de 2016

Ante à pressão popular por um debate sobre o papel do Reino Unido da UE e sua autonomia política, instigado por nomes como Nigel Farage, então membro do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), não é de surpreender que o referendo surja como uma promessa de campanha do então líder dos Conservadores, David Cameron, no pleito de 2015, campanha que acabou sagrando-se vitoriosa.

O referendo, antes visto como um mito imaginário de Nigel Farage, acabou se tornando uma realidade, ainda que de forma desgostosa por parte do establishment político, incluindo o próprio agora Primeiro Ministro Cameron, que apesar de pautar o referendo, fez campanha reativa pela permanência do Reino Unido na União.

Entretanto em junho de 2016, contrariando o desejo e sugestão de seu Primeiro Ministro, do líder dos opositores do Partido Trabalhista, o Labour, Jeremy Corbyn, de todo o establishment midiático e toda a academia, além de artistas, desportistas, e até mesmo o então presidente americano Barack Obama, a maioria dos eleitores britânicos votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia, em uma das votações mais participativas da história do país.

O voto: a revolta dos comuns em dados estatísticos

Com um turnout – comparecimento – de 72.2% dos eleitores, o que coloca a participação eleitoral entre as maiores dos últimos tempos, o voto pela saída se sagrou vitorioso com 52% dos votos. Além disso, os 17,4 milhões de votos recebidos em favor da Saída, representam o maior mandato eleitoral de todas as votações já exercidas na história do Reino Unido.

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A maioria dos parlamentares de todos os partidos britânicos, com exceção do Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte (DUP), votaram pela permanência do Reino Unido. Destes o partido que mais deu votos ao Remain, foi o Partido Trabalhista. Apenas 10 dos 228 parlamentares do partido do socialista Jeremy Corbyn apoiaram a saída.  

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Nas imagens a seguir, é possível comparar como votaram os parlamentes, independente de partidos, nos distritos eleitorais, em contraste com os votos dos próprios eleitores dos distritos. A cor amarela representa o voto pela permanência, enquanto a azul representa o voto pela saída. Sobre os dois mapas, o primeiro mostra os votos dos parlamentares, enquanto o segundo o voto dos eleitores. Observando as duas figuras, podemos verificar imediatamente a discrepância entre o voto popular (mapa à direita) e o posicionamento dos parlamentares (mapa à esquerda), sobretudo na Inglaterra. Apenas na Escócia há representatividade entre o desejo popular e o voto dos parlamentares.

Já a figura a seguir, mostra como votaram os eleitores britânicos de acordo com suas preferências partidárias. Os eleitores do UKIP, não surpreendente, foram os que mais apoiaram a saída (96%). Entre os eleitores Conservadores, 58% apoiaram a saída ao passo que 63% dos eleitores dos Trabalhistas apoiaram a permanência. Os Verdes e os Liberais Democratas foram os que mais apoiaram a permanência.

Entretanto, uma das estatísticas mais destruidoras para narrativas progressistas são aquelas pertinentes ao voto por classe socioeconômica. Os dados oficiais mostram que 64% dos membros da Classe Trabalhadora DE (Lower Working Class) e 64% da Classe Trabalhadora C2 (Upper Working Class) votaram pela Saída do Reino Unido da União Europeia no referendo. Em contrapartida, 57% da Classe Média Alta AB (Upper Middle Class) votou pela permanência.

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Na abordagem relativa ao nível de escolaridade do eleitorado, verifica-se que 71% daqueles que votaram a favor da permanência, possuem curso superior, ao passo que 66% daqueles que possuem apenas o ensino fundamental votaram pela Saída. Se considerarmos a aquisição de educação superior como um “privilégio de classe”, usando a linguagem dos marxistas, podemos conceber que o voto a favor do Brexit é essencialmente um voto das massas, das Classes Trabalhadoras. Um voto dos Comuns.

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Para confirmar essa suposição, podemos verificar ainda como se posicionaram no referendo a elite intelectual britânica, os chamados scholars: 89% dos membros desta classe declaram voto aberto pela permanência do Reino Unido na UE. Em nenhuma das áreas científicas o voto pela saída alcançou mais do que 16 pontos percentuais.

A derrota das elites progressistas

A decisão dos britânicos pela saída abalou o establishment. David Cameron, que assistiu o fracasso de sua campanha pela permanência, acabou renunciando ao posto de primeiro ministro. Com o compromisso de levar a cabo o resultado das urnas, assumiu o posto Theresa May, que acionou no início de 2017 o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que trata da saída de um Estado membro do grupo.

A incapacidade da primeira ministra em negociar um acordo defensável, quer pelos opositores, quer por seu próprio partido, colocaria em xeque a saída do país do bloco, marcada para março de 2019. A situação se complicava na medida em que forças opositoras ao Brexit e ao resultado popular se mobilizavam para tentar anular o referendo, quer por meios legais ou por meio de um segundo referendo. A democracia se via prestes ao rompimento.

Publicamente humilhada, Theresa May acabou por estender por duas vezes a data marcada para a saída – o que nunca cai bem na cultura dos bretons – após inúmeras tentativas fracassadas de aprovar seu acordo, considerado “medíocre”, junto ao parlamento. Inevitavelmente, sua posição se tornou insustentável e esta também renunciou, cedendo o posto ao conservador Boris Johnson.

Apesar de não ter conseguido ratificar o seu novo acordo negociado junto à UE no parlamento, Johnson aumentou o seu prestígio junto ao eleitorado pró-Brexit em função de sua atuação no referendo e de seu compromisso de se desligar do bloco com ou sem acordo. O eleitorado por sua vez, acabou se revoltando contra o parlamento – visto como intransigente, atrapalhado e descomprometido com o voto popular.

Os parlamentares “anti-Brexit” foram severamente punidos nas urnas nas eleições de dezembro de 2019. Em uma das mais avassaladoras vitórias dos Conservadores, que se comprometeram a dar fim à saga do Brexit, os Tories, como é apelidado o partido, conseguiu o seu melhor resultado desde a eleição de Margareth Thatcher em 1987; enquanto os Trabalhistas, o Labour, teve o seu pior resultado desde a década de 30 do século passado.  

A explicação para esse resultado é muito simples: o Partido Trabalhista, que afirma defender a Classe Trabalhadora, simplesmente abandonou o eleitorado e o seu desejo expresso nas urnas, buscando ao invés disso frustrar o resultado do referendo, traindo aqueles a quem clamam representar. Com uma maioria esmagadora no parlamento, Johnson levou adiante o seu acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia, marcada para este 31 de janeiro, fato que se consuma neste dia de hoje.

O desfecho

Enquanto os “especialistas” tentam remendar o estrago à sua reputação, provocado pelas previsões catastróficas equivocadas – que previam a vitória do voto pela permanência, o colapso da libra em caso de vitória do Brexit e o fim da democracia em caso da saída do Reino Unido da União Europeia –, o Reino Unido celebra jubilosamente a consumação da maior vitória popular democrática da era moderna. De fato, o Brexit é a própria definição de democracia.

Ao conceder aos britânicos – sobretudo os trabalhadores e às camadas inferiores – a admissão de uma das mais importantes vitórias dos Comuns sobre uma elite transnacional antinação, antitradição, anti-independência e especialmente, antidemocrática, o Reino Unido, sob a liderança dos Conservadores, envia ao mundo a sua mensagem de esperança em defesa da soberania dos homens e do Estado-nação.

Embora possa ter estado em coma, a Liberdade defendida pelo país da Magna Carta (1215), de Edmund Burke, de Sir Roger Scuton e de Winston Churchill, ainda respira. E sussurra, ainda que em voz baixa:

“Rule Britannia! Britannia rule the waves. Britons never, never, never shall be slaves.”

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