Os neoliberalismos e o limbo econômico brasileiro

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Na década de 30, surgiu uma doutrina que pretendia ser a terceira via entre a economia de mercado e a economia planificada. Promovia, para tal, um “Capitalismo de Estado”, comandado por rígidas normas governamentais. A esta doutrina deu-se o nome de neoliberalismo.

No final dos anos 70, essa mesma doutrina, defendida pelos ideólogos da social democracia, passou a ser tratada por “Economia Social de Mercado”. Neoliberalismo, então, passou a ser utilizado para denominar teorias como as de Hayek e Friedman, que em nada se assemelham com o “neoliberalismo original”. Pelo contrário.

E é justamente aí que a confusão começa.

Em sua forma original, o “neoliberalismo” é a proposta econômica de partidos como o PSDB. Um exemplo de sua aplicação prática foi a privatização da telefonia brasileira. O Estado continuou comandando o setor, através de uma agência reguladora, e libera concessão apenas para poucas empresas. Não existe livre concorrência, muito menos liberdade de mercado.

A escola de Chicago (da qual Paulo Guedes é discípulo) e a Escola Austríaca defendem um conceito muito semelhante ao liberalismo clássico, do século XIX, derivado do Capitalismo laissez-faire.

Seus objetivos são liberdades econômicas extensas, com desregulamentação Estatal, austeridade fiscal, cortes de despesas governamentais e privatizações para estímulo da livre concorrência. Neste modelo, o setor privado deve ter seu papel reforçado na economia.

São “capitalismos” absolutamente diferentes.

Enquanto o “neoliberalismo atual” prega o capitalismo de mercado, com mínima interferência Estatal, o “neoliberalismo original” prega um capitalismo de compadres, com um Estado forte, que utiliza das privatizações (e dos altíssimos tributos) apenas para conseguir sustentar os gastos infinitos do “Estado de Bem Estar Social”.

Nada de novo, então, na ideia da Venezuela “privatizar” seu petróleo. Isso não significa que o Maduro virou um liberal de direita. Está apenas seguindo um conceito já criado há 90 anos.

A intenção é ceder a concessão para algum “amigo”, visando levantar fundos para tirar o país do buraco sem fim que o “Bolivarianismo” o enfiou, mas sem perder o controle do setor. O Regime Chavista continuará controlando tudo com “mão de ferro”, através de normas e regulações. Só abrirá espaço para que um “sócio” entre e administre (de forma profissional) seu principal recurso natural.

Depois de transformarem o país dono da maior reserva de petróleo do mundo, estimada em 300 milhões de barris, em um dos mais pobres das Américas, o único recurso é o governo parar de brincar de “empresário” e deixar os negócios para quem realmente entende: A iniciativa privada.

Isso não é liberalismo. É apenas desespero.

“Se colocarem o Governo Federal para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia.” (FRIEDMAN, Milton)

A respeito do exposto acima, fui questionado quanto a algumas empresas estarem fechando ou passando por graves dificuldades financeiras, apesar das expectativas de melhora com o novo governo. Por que, então, isso acontece?

Basicamente, o Brasil se encontra em um “limbo econômico”. Vou usar como exemplo uma vítima de um grave espancamento, que chegou consciente no hospital e, depois do atendimento, entrou em coma e está entubado na UTI. O atendimento médico não piorou o paciente. Pelo contrário. Foi o que o manteve vivo. Se não tivesse recebido socorro, em vez do coma, entraria em óbito.

A situação brasileira é semelhante. Foram décadas de corrupção sistêmica e ingerência. Nos últimos anos, todo o crescimento do mercado foi sustentado em crédito irresponsável, que gerou endividamento e inadimplência. São mais de 60 milhões de pessoas negativadas, 40% da população está com o “nome sujo”.

Isso, claro, afetou diretamente o poder de compra e, consequentemente, todo o mercado.

O novo governo “estancou a sangria”. Já conseguimos, inclusive, ver melhorias nos “sinais vitais”. A economia está crescendo, a Bolsa de Valores quebra recordes sucessivos, vagas de emprego estão sendo criadas. Mas a recuperação será lenta e dolorosa.

Alguns setores demorarão mais para reagir. Não é porque os pulmões estão funcionando sozinhos que o paciente vai conseguir levantar e dançar uma valsa. Cada órgão, cada parte do “corpo”, dependendo inclusive das “feridas” que sofreu, levará seu próprio tempo para recuperação.

Eu entendo que todos queiramos ver o “paciente” em pé, festejando. Mas também temos que tomar muito cuidado com essa ansiedade. Caso contrário, podemos cair em duas “armadilhas”.

A primeira é a de “não querer ir no médico” e continuar sem tratamento, como aconteceu 2009, quando todo o mundo entrou em recessão e nós, no Brasil, para esconder os “sintomas”, começamos a estimular consumo através de créditos e subsídios. Foi exatamente isso que nos colocou neste quadro crítico, no qual nos encontramos. Por fora, parecíamos bem, mas éramos consumidos por uma hemorragia interna.

A segunda é a de acreditar que o paciente, pela demora dos resultados, não está recebendo o tratamento adequado e, então, resolver “trocar de médico” como fez a Argentina, que foi se “tratar” com “curandeiros”, que prometiam “milagres”, mas são membros da mesma gangue que a espancou.

O resultado será nada menos do que desastroso.

 “Se o remédio é amargo, mas o paciente precisa dele pra conseguir viver, devemos suspender o remédio?” (THATCHER, Margaret)

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