O Sábio, o Imperador e o Filósofo

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“A Impopularidade conquistada ao agir com virtude não é impopularidade, é glória.”

– Marco Túlio Cícero.

“Não desanimemos na prática do bem, pois, se não desfalecermos, a seu tempo colheremos”, nos diz o apóstolo Paulo em Gálatas 6:9. Curioso que eu tenha lido isso logo após sofrermos uma inestimável perda: depois de uma árdua batalha contra o câncer, o filósofo Roger Scruton finalmente descansou, ao passo que nós, que ficamos, perdemos um dos maiores filósofos dos últimos tempos. Scruton faleceu no dia 12 de Janeiro de 2020 aos setenta e cinco anos de idade, mas se manteve gigante até o fim, sendo ele a própria personificação de sua obra. Já no fim de sua jornada, pouco antes de falecer, afirmava:

Durante esse ano, muito foi tirado de mim – minha reputação, minha posição como intelectual público, minha posição no movimento conservador, minha paz de espírito, minha saúde. Mas muito me foi devolvido […] Caindo para o fundo em meu próprio país, fui elevado ao topo em outros lugares e, olhando para trás […] só posso estar feliz por ter vivido o suficiente para ver isso acontecer. Chegando perto da morte você começa a entender o que a vida significa, e o que ela significa é gratidão. [1]


Não dá para deixar de notar como, mesmo diante da morte, Scruton demonstra possuir uma consciência que está para além daquilo que é simplesmente terrestre, vivendo o que pregava e escrevia até seu derradeiro dia. Em Uma Filosofia Política ele escreve: “A virtude é uma questão de hábito, mas não é um hábito inconsciente. É o hábito de comportar-se de modo digno ou nobre diante de uma tentação”. [2]

Com todas as injustiças que sofreu e próximo do fim de seus dias, o filósofo poderia muito bem amaldiçoar seus detratores, sucumbir ao natural desejo humano de sobreviver a qualquer custo e exigir do mundo uma reparação. Mas sua virtude era muito grande para tal e, mesmo em seu leito de morte, ele nos ensina mais uma grande lição: os sofrimentos e as injustiças deste mundo, a ingratidão, o desprezo de muitos ou mesmo a morte; nada arranca de um grande homem o seu senso de dever e sua devoção àquilo que se ama. [3]

Poderíamos pensar – e creio que devemos – que a maior parte dos ingleses podem não ter percebido que estavam diante de um gigante, e outros, que eventualmente percebiam, tinham interesses próprios que justificavam as injustiças cometidas. Mas no Brasil não costumamos tratar nossos grandes personagens de modo mais justo – podendo-se afirmar inclusive o contrário. José Bonifácio de Andrada e Silva, O Patriarca da Independência, escrevera certa vez:

Não – reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me, pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme –
Eu nisto só confio.
 [4]

O mesmo que, como conta Octávio Tarquínio de Sousa, negando um título de nobreza oferecido por Dom Pedro I por seus méritos no processo de Independência, disse que só aceitaria, após a morte, uma simples lápide na qual se escrevesse os versos do poeta Antônio Ferreira:

“Eu desta glória só fico contente
Que a minha terra amei e a minha gente”
. [5]

Acusado falsamente e não compreendendo a mediocridade de seus contemporâneos, José Bonifácio seria deixado ao ostracismo por estes e, mais ainda, pelas gerações seguintes. Mas carregando em si os méritos de seus feitos, continuará a ser sempre o libertador, emancipador e o cérebro que nos levou à união e ao nascimento da Pátria.

Seu antigo pupilo e futuro imperador do Brasil também se mostraria portador de uma rara dignidade e de uma distinta honra. Dom Pedro II, tido como um dos governantes mais ilustres de seu tempo – não à toa foi alcunhado de Rei Filósofo pelo maior de nossos escritores, Machado de Assis –, viveu pelo Brasil e só colocava acima deste o próprio Deus.

Com alguns erros que acabam ofuscados pelos tantos méritos de seu reinado, Pedro II recebeu em troca da devoção que tinha para com o país a traição e o exílio. Mas nem mesmo com a infame injustiça que sofrera, deixaria de pensar em sua pátria e em seu povo até o fim de seus dias. Próximo de sua morte, desejaria sobretudo duas coisas: que Deus proporcionasse paz e prosperidade ao Brasil e que colocassem um pouco de terra de sua pátria, que ele carregava sempre consigo, dentro do seu caixão.

Os grandes compartilham algumas características, e uma delas, com certeza, é a nobreza e a altivez de espírito mesmo diante injustiças, difamações e mesmo daquilo que mais aterroriza os espíritos ordinários: a morte. Se tem uma coisa que acredito piamente é que o exemplo é uma das maiores forças de mudança que conhecemos; mais que as palavras que dizem o que fazer, o exemplo nos mostra como.

Não há dúvida de que Bonifácio, Pedro II e Scruton são exemplos a se seguir, se não no ofício, na postura, na determinação, na coragem, na sabedoria e na retidão. Os dois últimos não estão aí em vão: para nós, brasileiros, que costumamos crescer sem nenhuma referência que seja algo a mais que uma celebridade da moda ou um cantor de música popular, faz-se necessário reafirmar a todo momento que produzimos sim homens e mulheres realmente excepcionais e que, além de qualquer coisa, seus exemplos devem ser lembrados.

Não podendo desfazer as injustiças cometidas, resta-nos apenas preservar o legado dos grandes e mantê-los em nossa mais alta estima, como exemplos e fonte de inspiração, pois, tal como disse José Bonifácio: “[…] só morrem os homens vulgares, e não os heróis. Eles vivem eternamente na memória ao menos dos homens de bem, presentes e vindouros;” [6]



Notas:


[1] Disponível em: https://www.roger-scruton.com/articles/20-latest/633-roger-scruton-a-year-in-which-much-was-lost-but-more-gained-the-spectator-21-dec-19

[2] SCRUTON, Roger, Uma filosofia política: argumentos para o conservadorismo. São Paulo: É realizações, 2017.

[3] Muitos seriam os motivos para alcunharmos Scruton de “gigante”. Com mais de 60 obras publicadas – muitas traduzidas para o português –, o autor discorre sobre filosofia, ciência política, estética, música, artes e chega a escrever mesmo obras ficcionais, compondo também peças de teatro. Quem tem contato com livros como “Beleza” e “O Rosto de Deus” consegue entender o calibre intelectual elevadíssimo de Scruton. Além de sua atuação como autor e filósofo, o escritor inglês exerceu também um nobre trabalho combatendo os regimes do lado comunista da Cortina de Ferro, onde ele se empenhava em exportar livros que os governos autoritários de tais países proibiam. Sua atuação nesse sentido o rendeu as mais altas condecorações na República Tcheca e na Hungria, além de ser também condecorado em seu país e ter recebido a Ordem do Império Britânico e o título de Sir.
Uma nota seria pouco para falarmos do tamanho de Roger Scruton da maneira que lhe é devida, sendo esta apenas um meio – medíocre, confesso – de entendermos um pouco, ao menos, de quem estamos tratando.

[4] SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1972. Vol. I, p. 271.

[5] Ibidem. p. 272.

[6] Palavras de José Bonifácio sobre a morte de Dom Pedro I: “Dom Pedro I não morreu, só morrem os homens vulgares, e não os heróis […]”

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