A ditadura dos diplomas

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Foto: Vasily Koloda/Unsplash
“De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento, acompanhado de um neurótico temor reverencial aos seus símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia.” (Olavo de Carvalho, Desejo de conhecer)

Há alguns anos tenho percebido algo estranho que talvez passe despercebido para a maioria dos brasileiros: no Brasil existe uma cultura de quase culto a cargos e aos diplomas – e vale destacar que digo “quase” apenas para denotar que não há um culto em si, uma celebração litúrgica.

E, de fato, esta tal cultura existe e domina o inconsciente da maioria dos brasileiros. Quem nunca pensou, por exemplo, em estudar para a prova? Apesar de ser um simples pensamento – talvez até lógico –, a verdade é que o “estudar para prova” denota que o brasileiro só estuda para ganhar algo em troca (no caso da prova, uma nota), ou melhor, se souber que ganhará algo em troca. E qual é o problema nessa questão? Não é correto estudar para atingir uma boa nota? E a resposta é: pode até ser, mas antes se o resultado (a nota) for um efeito do estudo, e não um objetivo em si do propósito do estudo; ou seja, a causa primária do estudo deve ser o desejo pelo conhecimento, por aprender.

Infelizmente, essa mentalidade é comum à maioria dos brasileiros: algo sempre é feito visando antes os efeitos benéficos que o processo edificante em si (no caso de estudar, é adquirir conhecimento, tornar-se mais inteligente). Por isso a epígrafe: o brasileiro odeia estudar, mas ama os frutos do estudo.

Com essa cultura intelectual medíocre, não é de se assustar que o Brasil sempre ocupe os últimos lugares nos rankings de educação. A situação dos universitários brasileiros é pior ainda: são raras as ocasiões em que um universitário sabe o básico de matemática e da própria língua que fala, o português.

Como explicou o grande – e infelizmente já falecido – prof. Pierluigi Piazzi em sua coleção de livros sobre Neuroaprendizagem, a maioria das pessoas, na verdade, não tem culpa disso. O brasileiro, desde a infância, participa de um sistema de ensino falido. Não há outro resultado senão a mediocridade intelectual.

Entre nós predominou (…), em cultura, o mais espantoso praticismo que já alguma vez assolou uma nação. Em ensino primário, basta-nos alfabetização e, acima dele, bastar-nos-ia, todos o repetem, ensino de ofícios e artes. Que estranho país seria esse em que a cultura e a ciência ainda não chegaram a ser aceitas e, por toda parte, se pede tão singular e universal formação utilitarista, no sentido limitado e restrito da palavra? Esse é o país dos diplomas universitários honoríficos, é o país que deu às suas escolas uma organização tão fechada e tão limitada que substituiu a cultura por duas ou três profissões práticas, é o país em que a educação, por isso mesmo, se transformou em título para ganhar emprego. O que há são demasiadas escolas de certo tipo profissional, distribuindo anualmente diplomas em número maior que o necessário e o possível, no momento, de se consumir. (Trecho do discurso de Anísio Teixeira na inauguração dos cursos da Universidade do Distrito Federal em 1935. Obs: mais atual do que nunca na era PT.)

E qual é o efeito disso? Qual é o efeito dessa mentalidade em função do desenvolvimento do Brasil? O efeito é catastrófico. Enquanto países como os Estados Unidos são referência mundial em termos de educação, o Brasil rasteja pela lama da mediocridade. Além disso, numa análise mais próxima à realidade do brasileiro, a “ditadura dos diplomas” só incentiva essa mediocridade.

Ninguém estuda para ter conhecimento, ninguém vê o estudo como um possível alimento da alma; antes se estuda para conseguir um emprego, um cargo, etc. Quem estuda para acumular conhecimento, então, é tratado com desdém – principalmente pelos jovens. Eu mesmo, quando digo que amo estudar, e que essa é minha vocação, sou tratado com indiferença pelo meu círculo de amizade.

O fato de eu querer abandonar a ignorância parece incomodar aqueles que se conformaram com a desgraça brasileira. Contudo, não posso culpá-los. Como a maioria dos brasileiros, eles vivem em um ambiente que não exorta sequer uma pequena inspiração que os possa levar a buscar algo maior que eles.

[…] No Brasil isso não existe. O ambiente visual urbano é caótico e disforme, a divulgação cultural parece calculada para tornar o essencial indiscernível do irrelevante, o que surgiu ontem para desaparecer amanhã assume o peso das realidades milenares, os programas educacionais oferecem como verdade definitiva opiniões que vieram com a moda e desaparecerão com ela. Tudo é uma agitação superficial infinitamente confusa onde o efêmero parece eterno e o irrelevante ocupa o centro do mundo. Nenhum ser humano, mesmo genial, pode atravessar essa selva selvaggia e sair intelectualmente ileso do outro lado. Largado no meio de um caos de valores e contravalores indiscerníveis, ele se perde numa densa malha de dúvidas ociosas e equívocos elementares, forçado a reinventar a roda e a redescobrir a pólvora mil vezes antes de poder passar ao item seguinte, que não chega nunca. (Olavo de Carvalho, A origem da burrice nacional)

Resolver esse problema não é fácil porque trata-se de um “tumor” cultural. Contudo, é possível fazer algo: o governo deve investir na base da educação, isto é, no ensino fundamental. O Brasil, p. ex., investe mais que os Estados Unidos em educação, mas investe mal. Investe mais no ensino superior que no básico. Qual a lógica de mandar analfabetos funcionas à faculdade?

O Brasil só será um país próspero quando sua cultura for igualmente próspera e grandiosa. Do contrário, não importa quantos empregos sejam criados, não importa o quão boa esteja a economia, o povo brasileiro continuará preso às amarras mentais que tanto o impedem de evoluir; e, obviamente, o Brasil continuará sendo um país medíocre. 

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