Paradoxos da história (1)

Primeira parte de uma série de artigos sobre a dissonância cognitiva após a queda do Muro de Berlim.

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A crowd of West Berliners gather at the Berlin Wall while an East German soldier patrols on the other side, Berlin, Germany, August 1961. (Photo by Paul Schutzer/The LIFE Picture Collection via Getty Images)

Há mais de 30 anos, no final de 1989, caiu o Muro de Berlim. Assisti tudo pela TV e tentava entender o fato à luz da geopolítica, pois eu era recém-formado em Geografia. Também em 1989, ocorreu no Brasil a primeira eleição para a Presidência da República após o regime militar.

O que esses dois fatos históricos de uma mesma época nos revelam e qual relação há entre eles? Que desdobramentos podemos perceber a partir daquela época?

O primeiro fato, a queda do Muro de Berlim, nos revelou a prova cabal do fracasso de um regime político e econômico, altamente corrupto, cerceador das liberdades individuais e políticas. Estou falando do socialismo conduzido pela então União Soviética (URSS), governada por apenas um partido, o partido comunista.

O segundo fato, a primeira eleição para a Presidência da República entre Lula e Collor, nos revelou o empenho político de categorias profissionais formadoras de opinião que se inspiravam na matriz ideológica do mesmo regime que mantinha o Muro de Berlim de pé.

 De fato, isto é um paradoxo, pois tratava-se de um regime que todos os países do leste europeu tinham acabado de rejeitar na sequência do desmoronamento daquele Muro. Foram anos e anos de cerceamento às liberdades civis e políticas.

Treze anos depois daquela primeira eleição no Brasil (1989) pós regime militar, os brasileiros elegeram o número 13 em 2002 que ficou 13 anos no poder (de 2003 a 2016). Foi o primeiro governante de um partido declaradamente simpático a ditadores, desde que fossem (ou tenham sido) de regimes socialistas (Stálin, Fidel, Hugo Chavez, Muamar Kadafi, José Eduardo Santos etc.).

Vitória também da classe formadora de opinião, que se empenhou ao longo de quatro eleições e continuou se empenhando ao longo de mais três, a despeito do Mensalão, do Petrolão e de todos os esquemas de corrupção que migrou do varejo para a corrupção no atacado, conforme revelados nas diversas operações da Lava Jato que resultou em inúmeras condenações e devolução aos cofres públicos de vultosa verba.

Trinta anos após a queda do Muro de Berlim começa tudo novo aqui no Brasil, agora com uma ajuda fundamental da Suprema Corte, a última palavra em “justiça” neste país. De novo, reacendeu a esperança da classe formadora de opinião que continua sonhando com um regime que os países do leste europeu rejeitaram há três décadas.

Definitivamente o aprendizado neste país é muito demorado.

Uma geração se passou e temo que a aula de história de 30 anos atrás, lecionada a céu aberto em Berlim, não tenha surtido efeitos do lado de cá do Atlântico.

Parece que os livros de história do ensino básico não contaram a verdadeira história do Muro de Berlim, muro que teve sua construção iniciada no dia 13/08/1961 pelo regime socialista da Alemanha Oriental. O objetivo era cercear o direito de ir e vir dos indivíduos, pois milhões de pessoas já tinham migrado de um lado para o outro.

Afim de impedir que esse fluxo escancarasse as assimetrias entre os regimes capitalista e socialista, restou aos ditadores a construção de um muro iniciado rapidamente à noite e de surpresa, deixando famílias e amigos separados. Os habitantes de Berlim Oriental ficaram impedidos de terem acesso às informações divulgadas em Berlim Ocidental. Muitos que tentaram fazer a travessia do Muro foram fuzilados.

Será que muita gente ainda vive no lado oriental do Muro de Berlim? Será que nunca tiveram a curiosidade de dar uma olhadinha para o outro lado?

Como de costume, só os muros dos outros são demonizados nos livros didáticos.

Os livros de história deveriam contar que o socialismo apodreceu e só deveria ser lembrado como um fóssil que, quando em vida, era um predador que aniquilava seus opositores, seja nos campos de trabalhos forçados da URSS, seja nos paredões cubanos. Deveriam contar também que esse padrão de conduta não se justifica para alcançarmos o desenvolvimento social.

O Muro de Berlim caiu em 1989, a URSS desapareceu oficialmente em 1991, mas aquele socialismo que desmoronou com o Muro se reinventou e está mais vivo do que se imagina. O regime apenas trocou de roupa. Pouco a pouco os súditos estão se autodenominando de “progressistas”. Só os mais fundamentalistas conservam orgulhosamente os termos originários.

As palavras “socialista” e “comunista” estão desgastadas por razões óbvias, e agora a tendência é a migração para o termo “progressista”. A transição está em curso. À medida que se percebe o desgaste de um termo, substitui-se por outro.

Quando você reencontrar um velho amigo que se dizia socialista ou comunista, ou até mesmo de esquerda, e ele disser que agora é progressista, não significa que ele tenha mudado de ideia. Pelo contrário, ele é apenas um seguidor de uma cartilha que talvez nem saiba de onde vem.

O termo Progressismo não se identifica com uma ideologia, pois transmite a ideia de avanços defendidos pelo liberalismo econômico, que busca a transformação da sociedade em algo melhor, mas sem rupturas que possam desaguar em regimes totalitários.

Por outro lado, a apropriação do termo pela esquerda, em substituição ao termo “socialismo”, defende que o progresso depende da tomada do poder estatal como solução para os males sociais, que o progressismo significa contradizer todos os males provocados por liberais e conservadores.

Na verdade, de forma engenhosa, a esquerda se apropriou de um nome bonito para iludir as novas gerações que desconhecem os dois lados da história. Daí a narrativa que critica e ridiculariza a heteronormatividade, a família tradicional, os dogmas do cristianismo, a escola tradicional e tudo onde for possível identificar algum traço de uma suposta cultura opressora.

Tudo isto tem forte apelo emocional junto às novas gerações.

O crítico, que está a serviço da causa, é um dialético negativo, e se apresenta como alguém progressista, adepto da modernidade e dos avanços sociais, alguém entrincheirado lutando contra os valores retrógrados do conservadorismo.

Naquele ano de 1989 caiu um muro físico e ergueu-se um muro invisível, mais eficiente porque silencia as vozes do contraditório para impedir que as pessoas fujam para o outro lado. Impedir o antagonismo no território onde o dialético crítico está entrincheirado (sistema educacional) é uma forma de manter de pé o Muro de Berlim. Sem o princípio do contraditório, todos se submetem ao mesmo discurso.

Aliás, o princípio do contraditório só é invocado pela esquerda (progressista) quando se trata de defender seus corruptos. Mas quando se trata de reconhecer o direito de alguém pensar diferente dentro dos territórios (instituições de ensino) ocupados pelos progressistas, definitivamente não há contraditório. O que há são os xingamentos de “fascistas”.

Só a esquerda se acha no direito de promover palestras e seminários dentro das instituições de ensino, e ainda tem a audácia de chamar de debates as palestras em que só há palestrantes convergentes. Sem contraditório não há debate. Há apenas um público cativo concordando ou apenas silenciando sobre o que escuta.

O fato é que estamos lidando com um regime que troca de roupa a cada cenário histórico. Se antes era ateu, agora é religioso; se antes era homofóbico, agora defende os homossexuais; se antes era sexista, agora defende as causas feministas; se antes era indiferente aos danos ambientais, agora defende o meio ambiente; se antes matava criminosos, agora defende os direitos humanos; se antes prendia seus opositores, agora diz que seus líderes são presos políticos, e assim por diante.

Leia a segunda parte deste artigo.

4 COMENTÁRIOS

  1. Quanta empáfia, arrogância, negação da realidade e hipocrisia intelectual dessa esquerda se outorgar o termo “progressista”…tudo o que fizeram por aqui em anos recentes e no resto do mundo desde sempre foi contrário ao que progresso quer dizer. A eterna vigilância é o preço que precisamos pagar!

    • Os “camaleões” fazem qualquer coisa para sobreviver. Não só mudam a cor da pele, mas também os nomes. É uma engenharia social que merece muito estudo.

  2. Aguimon, bom que você está no interior de instituição de ensino e pode expressar suas críticas sobre comunismo/socialismo/progressismo e transmitir suas ideais sobre a necessidade do contraditório que NUNCA houve na sociedade brasileira pelo menos nos últimos 60 anos!
    Parabéns pelo artigo! Libertador!!

    • O grande problema do Brasil não é exatamente a divulgação do socialismo/comunismo. Querer censurar isto seria negar a nossa própria essência. O problema ainda está na falta do contraditório. Quem sozinho apresenta suas ideias por décadas, nega ao ouvinte a apresentação de outra visão. Essa gente se diz os portadores da verdade, do segredo da felicidade.

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