“Vereis como um escravo foi feito homem”

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Frederick Douglass, ca. 1879. George K. Warren. (National Archives Gift Collection)

Cansado das chicotadas, o jovem escravo Frederick Douglass, então com 16 anos, rebelou-se no ano de 1833. Quando Edward Covey, seu “senhor”, lhe agrediu por respondê-lo “indecorosamente”, Douglass revidou com um merecido soco na carantonha. Os dois rolaram no meio da plantação, trocando golpes diretos e pontapés, até que Covey, esgotado pela força do bruto Douglass, desistiu do confronto. Foi a última vez que Covey colocou as mãos sobre Douglass.

O episódio transformou a vida de Douglass, como o próprio escreveria nos anos seguintes:

“Vistes como um homem foi feito escravo. Agora vereis como um escravo foi feito homem.” [1]

Cinco anos após o incidente, Douglass consegue, após várias tentativas fracassadas, fugir do cativeiro, embarcando clandestinamente em um trem em Maryland sentido Philadelphia, chegando eventualmente a Nova York, onde se estabeleceu. De lá, Douglass segue para Massachusetts onde passa a integrar o movimento abolicionista.

Em 1865, o jugo da escravidão é abolido por Abraham Lincoln, primeiro presidente americano eleito pelo recém-fundado Partido Republicano. Defensor da propriedade privada, temente a Deus e crítico ferrenho das ideias progressistas que começavam a chegar na América, Douglass se torna o primeiro ministro de Estado afrodescendente da história americana.

Embora discursos demagogos apelem à linguagem – “tolerância”, “diversidade”, “inclusão” – para cercear o debate, é preciso questionar a natureza, a índole e principalmente, o telos dos discursos. Eufemismos, por vezes, não passam de mecanismos de opressão. Devemos tolerar o intolerável? Devemos tolerar a escravidão em nome da “tolerância”? O roubo, o estupro ou a pedofilia?

Somente quando Douglass compreendeu que não se pode combater de queixo baixo e servil aqueles que nos querem oprimir e escravizar foi que ele deixou de ver a si mesmo como alguém submisso ou inferior. Douglass entendeu perfeitamente que não pode o homem ter propriedade e ao mesmo tempo, SER propriedade. Antes de libertar-nos das correntes que nos aprisionam, é necessário primeiro nos emanciparmos da escravidão mental.


REFERÊNCIA:

[1] Douglass, Frederick. Narrative of the Life of Frederick Douglass, An American Slave, 1845.

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