Por que o brasileiro tem pouco interesse por história?

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“O Ideal é construído a fim de destruir o real”.
       – Roger Scruton[1]

“O homem não é criador no sentido verdadeiro da palavra; suas melhores obras são bellas pela perfeita interpretação e reprodução da natureza ou da realidade”.
       – Joaquim Nabuco[2]

Perguntaram-me esses dias o porquê de termos – como brasileiros – pouco ou nenhum interesse por história.

É uma ótima pergunta, porém não é tão simples respondê-la. Creio que a resposta ideal seria muito extensa, mas ainda assim devemos compreender ao menos alguns pontos fundamentais do problema para buscar entender a razão de estarmos onde estamos.

Entre todas as possibilidades, três, ao meu ver, se sobrepõem sobre as outras. São elas: (I) a nossa constante instabilidade político-social; (II) a evidente e natural indolência do brasileiro para com o estudo e, andando muitas vezes de mão dada com o primeiro ponto; (III) o lugar que as ideologias acabam tomando por aqui. Todas essas questões parecem estar ligadas pelas circunstâncias, mas, à parte delas, passaram a possuir entre nós algo próximo à vida própria.

No campo político-social, vemos, já desde o processo de Independência, a sobreposição da história pela convenção do momento. Neste caso em específico, o conflito entre brasileiros e portugueses fez com que muito de nossa herança e de nossa história portuguesa fossem deixadas de lado, situação que João Camilo de Oliveira Torres já lamentava em suas obras sobre a história das idéias políticas no Brasil.[3] Claro que isso veio a se agravar mais por conta do despotismo das Cortes Portuguesas, em função da Revolução do Porto iniciada em 1820, do que por um inato instinto naturalmente brasileiro, mas assim se deram as coisas. Com a “proclamação” da República vemos a imediata sobreposição e substituição do antigo simbolismo monárquico, para apagar seu espírito e trazer uma aparência de legitimidade ao novo regime estabelecido por um Golpe de Estado. Desde então, toda a história republicana é marcada por golpes e por tentativas de derrubada da visão vigente para, assim, tentar justificar as novas e estabelecer os novos regimes.

É evidente que esses processos causam, a princípio, uma guerra de narrativas, criando uma enorme confusão sobre o passado, o presente e o futuro do país, ao passo que em longo prazo causa o esquecimento e o desprezo do povo pela própria história. Junte isso a indolência do brasileiro pelas “coisas do espírito” e o desinteresse pelos estudos e chegaremos à presente situação: um povo com as raízes cortadas e com as memórias apagadas.

Mas ainda, além de tudo, temos uma característica marcante na nossa história que corrobora e influencia todos esses processos. As ideologias possuem papel de destaque em nossa história. No Brasil vemos a consistente ação do Positivismo e do Marxismo refletindo até os dias atuais. Ambas buscaram aplicar aqui uma nova ordem de sociedade, e para isso acontecer a antiga devia sucumbir. Para concretizar tais planos, faz-se necessário mudar o governo, o regime, as convenções sociais; é necessário apagar a história para reescrevê-la. Fica somente aquilo que corrobora com a causa. O resto muda-se ou evita-se.

Para o já citado historiador João Camilo de Oliveira Torres, a ideologia é o resultado do “primado da vontade sobre o conhecimento”. Ele coloca o ressentimento como base psicológica fundamental para a formação do pensamento ideológico: “o ressentido nega o valor daquilo que não pode atingir. O ressentido passa a considerar mau o bom, pequeno o grande, feio o belo, simplesmente por estar fora do alcance de seu poder”.[4] Assim, contando com as fortes influências ideológicas, nossa história foi mudando de acordo com a necessidade do grupo que a contara, negando o valor de tudo aquilo que fosse diferente, transformando-a em algo mau, feio e pequeno, logo, reprovável, insignificante e vergonhoso em detrimento da sociedade ideal a ser alcançada.

A história pode passar a representar o progresso contínuo e perpétuo do homem, ou mesmo pode ser reduzida à luta de classes. Aqui o imprevisto deixa de ser a lei da História, como diria Chesterton; a lei da História se torna a busca pela perfeição, ou seja: um objeto, um meio para algum fim maior. No Brasil as ideologias reescreveram a história que, dessa maneira, acabou atraindo para si dois tipos de interessados: os ligados às mais diversas causas ou aqueles que buscam a verdade como meio para compreender a realidade, e não para transformá-la.

Assim, o homem comum foi excluído do processo, afastado de seu passado e das antigas tradições. O brasileiro tornou-se sem história. Quase nada se lembra e o que se lembra parece evidenciar vergonha e ser somente motivo de revolta. Eu sempre pergunto para aqueles que me cercam se não parece estranho que o Brasil não tenha, quando ouvimos os professores nos contando sobre nosso passado, nada de bom, nobre, honroso et cetera, nada para se orgulhar. Qualquer um que parar para pensar nisso irá perceber que algo deve estar errado. Essa perversão da história só faz com que a rejeitemos. A aparente falta de virtudes pesa muito na balança quando falamos de valorização da própria história, nos afasta da verdadeira compreensão de quem somos e nos leva a cultuar aqueles que não possuem nenhuma.


NOTAS:

[1] SCRUTON, Roger. As Vantagens do Pessimismo e os Perigos da Falsa Esperança. 1ª Ed. São Paulo: É Realizações, 2015. p. 68.

[2] NABUCO, Joaquim. Pensamentos Soltos. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S. A, 1937. p. 129.

[3] TORRES, João Camilo de Oliveira. Interpretação da Realidade Brasileira. Brasília: Edições Câmara, 2017. p. 201.

[4] Ibidem. Pp. 23-33.


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